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A seca, o clima, a temeridade

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
14 de nov de 2003

A seca, o clima, a temeridade

Washington Novaes

É possível que já tenha mencionado o episódio, mas vale a pena repetir. A primeira manchete de jornal produzida pelo autor destas linhas, nos idos de 1958, dizia, no estilo alongado e palavroso da época: Assume proporções de calamidade na Paraíba a seca que assola todo o Nordeste.
Há poucos dias, em visita à região que o viu nascer, em Pernambuco, o presidente da República pôde ver com os próprios olhos que nada mudou (a última "grande trovoada" foi há sete anos). A situação ali é dramática, como terrível é em quase 200 outros municípios, do Ceará a Minas, em estado de "calamidade pública", onde 440 mil pessoas estão sendo abastecidas de água por caminhões-pipa. Disse o governador de Alagoas em carta ao presidente que se trata da pior seca no Estado nos últimos 40 anos, pois no primeiro semestre choveu apenas 157 mm (á média é de 450 mm). Passado, entretanto, o interesse despertado pela viagem presidencial, a comunicação voltou a esquecer-se do assunto, como sempre acontece.
Talvez seja o caso de voltar ainda uma vez ao que escreveu uma das pessoas que mais tentaram entender o drama do semi-árido nordestino, o ex-ministro Celso Furtado, em seu livro de memórias A Fantasia Desfeita (editora Paz e Terra, 1989). Depois de mergulhar - para propor a criação da Sudene - no tema dos recursos hídricos, chegou ele à conclusão de que enfrentar o problema exigia forte atuação em alguns pontos:
Como gerir a escassez em um décimo da área, onde a precipitação anual é inferior a 500 mm anuais e onde, desde a implantação do modelo exportador de algodão e cana (que ocupou as terras mais produtivas perto do litoral), teve de se localizar parte da população deslocada, que passou a ser fornecedora da animais de tração e corte, além de couros, para a faixa litorânea; como gerir adequadamente os recursos hídricos no restante da área, onde a ação governamental sempre se destinou a atender basicamente às necessidades dos grandes proprietários, com açudes fechados em suas propriedades, altíssimo nível de evaporação e utilização, em suas terras, da mão-de-obra das frentes de trabalho pagas com dinheiro público.
Faltava, a seu ver, uma lei regulamentadora do uso da água; era fundamental "atacar de frente" a cidadela da "indústria da seca"; irrigar 45 mil hectares com água já acumulada na época; e encontrar formatos para atender, nas áreas realmente críticas, as populações isoladas.
Quase 50 anos passados, pouco mudou. E uma das poucas mudanças acertadas é o programa que está sendo implantado, no âmbito do Fome Zero, de cisternas para retenção de água nas localidades isoladas e que pretende chegar a 1 milhão delas. Ao mesmo tempo, entretanto, retorna-se ao surrado (em todos os sentidos) projeto de transposição de águas do Rio São Francisco, tantas vezes já comentado neste espaço - num rio semi-morto e com um plano que beneficiará essencialmente grandes projetos de irrigação voltados para a exportação, e não os 17 milhões de pessoas mais atingidas pela seca periódica.
Nada indica que o quadro do clima, em si, vá mudar para melhor. Ao contrário, a previsão do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) é de intensificação de secas em várias regiões brasileiras, inclusive no semi-árido - o que é confirmado pelo Inpe/ CPTEC em seu último boletim, onde registra que "o país passa por seca em praticamente todo o território".
Se é assim, já deveríamos estar cuidando - e com pressa, o que não acontece - de um programa específico que tratasse desses problemas, da adaptação às contingências. Ainda mais porque, como já se assinalou aqui, o IPCC prevê um agravamento nos problemas de abastecimento de água das grandes cidades brasileiras. Há poucos dias, o Observatório do Clima, que reúne várias instituições, cobrou essa ação do governo. Principalmente para deter o desmatamento e queimadas, em especial na região amazônica, que respondem por dois terços das emissões brasileiras de gases (300 milhões de toneladas anuais) que acentuam o efeito estufa.
Não se trata apenas de evitar que o Brasil seja alvo de pressões internacionais em função dos gases emitidos (até 2012, não tem obrigações nessa área,, na Convenção do Clima). E que os efeitos poderão ser ruinosos aqui mesmo. Estudos recentes divulgados pela revista Galileu mostram que partículas sólidas e líquidas liberadas com gases em queimadas na Amazônia podem alterar o ciclo de chuvas também muito longe dali, até em São Paulo. Outros estudos, do pesquisador Antônio Nobre, demonstram que o aquecimento global pode impedir a formação de partículas decisivas para a geração de chuvas. E o processo pode ter conseqüências muito graves para a floresta.
Infelizmente, não é só aqui que as coisas não andam. No começo de dezembro, será realizada mais uma reunião das partes da Convenção do Clima. Mas sem avanços. Estados Unidos e Rússia continuam fora do Protocolo de Kyoto e sem eles não há como atingir a adesão de países responsáveis por 55% das emissões, no mínimo. O compromisso dos países industrializados de reduzir suas emissões continuará no papel.
Não é preciso continuar repetindo aqui os indícios de agravamento da situação em várias partes do mundo, em função do aumento da temperatura. Eles estão quase todos os dias nos jornais. Como estão as seguidas decisões do governo Bush de ignorar as advertências. Agora mesmo, as Procuradorias dos Estados de Nova York, New Jersey e Connecticut estão entrando na Justiça, porque o governo federal desistiu de cumprir o Clean Air Act e de obrigar 50 grandes empresas de energia a carvão a reduzir suas emissões de gases.
Se, de fato, há certa margem de dúvida em quase tudo quanto se sabe até aqui sobre o complicado tema das mudanças climáticas - porque a construção de modelos planetários ou localizados que permitam previsões envolve conhecimentos muito complexos e ainda em construção -, nem por isso se devem apostar todas as fichas na hipótese menos provável - a de que nada acontecerá (ou já esteja acontecendo, como dizem milhares de cientistas). Isso tem nome: temeridade. E pode custar caríssimo.

Washington Novaes é jornalista

OESP, 14/11/2003, Espaço Aberto, p. A2

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