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Seca histórica destrói economia rural no Nordeste

OESP, Nacional, p. A4
07 de Abr de 2013

Seca histórica destrói economia rural no Nordeste
Estiagem prolongada põe à prova rede de proteção aos mais pobres disseminada nos governos Lula e Dilma

Bruno Boghossian, Angela Lacerda, Tiago Décimo e Carlos Nealdo

A rede de proteção social que inclui programas de transferência de renda dos governos federal e estaduais tornou menos dramáticos os impactos da seca no cotidiano da população do Nordeste, mas ainda é incapaz de impedir que a economia local entre em verdadeiro colapso durante períodos de longa estiagem.
A avaliação é de pesquisadores e autoridades ouvidas pelo Estado, que identificou em Pernambuco, Bahia e Alagoas uma realidade atenuada, mas ainda bastante difícil para o sertanejo que enfrenta a maior seca das últimas décadas na região.
Na terça-feira passada, em visita a Fortaleza (CE), a presidente Dilma Rousseff afirmou que, graças às ações de seu governo e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, "a face da miséria nessa região não foi acentuada tão perversamente pela estiagem". Para o professor João Policarpo Lima, do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a aposentadoria rural e projetos como o Bolsa Família e o Bolsa Estiagem dão às famílias do campo, de fato, uma alternativa à produção agrícola quando as condições climáticas ficam desfavoráveis, mas a quebra de safras e a morte de rebanhos provocam efeitos duradouros na economia local.
"A população pobre do semiárido fica menos vulnerável às secas, mas isso não significa que a população como um todo esteja imune, pois a economia entra em colapso e a população fora dessa cobertura fica desempregada ou perde suas outras fontes de renda", afirma Lima. "Essa situação de hoje é menos ruim do que era há 40 anos, quando não havia programas de transferência de renda e apenas as frentes de emergência eram acionadas, de forma clientelística."
Rebanho ameaçado. Nos últimos meses, Juvenal Lira Feitosa, de 53 anos, a mulher Iolanda e seus nove filhos dedicam seus esforços pela sobrevivência das 38 cabeças de gado mestiço, algumas cabras e galinhas e três porcos que criam no Sitio Poço Novo, na zona rural de Águas Belas (PE). Nos anos 1990, Feitosa tinha em sua propriedade apenas uma vaca. A partir do governo Lula, conseguiu crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), empréstimo bancário para arregimentar o pequeno rebanho.
O sustento da família vinha sendo garantido pela aposentadoria rural - um salário mínimo - da mulher e o benefício do Bolsa Família pago a quatro dos nove filhos do casal. A seca, porém, ameaça a outra fonte de renda. "A gente compra o mínimo para nós e com o resto tenta dar de comer o gado", diz Juvenal, resignado.
A estimativa é que a estiagem provocou no Estado governado por Eduardo Campos (PSB), possível presidenciável em 2014, a redução de 710 mil cabeças de rebanho bovino - sendo que 150 mil morreram e o restante foi abatido precocemente. A bacia leiteira estadual sofreu queda de 72% na sua produção.
Êxodo na Bahia. Na Bahia do governador petista Jaques Wagner, a produção do sisal - usada na indústria têxtil - cai desde 2011. Os problemas no campo fizeram ressurgir mazelas sociais do passado. Mesmo com os benefícios sociais oferecidos pelos governos federal e estadual, o êxodo rural e migração a outros Estados, em especial aos do Sudeste, voltaram a ser registrados.
Na passagem por Fortaleza, Dilma anunciou pacote de R$ 9 bilhões para medidas emergenciais de enfrentamento da seca no Nordeste, Mas prefeitos de municípios do semiárido baiano e produtores agrícolas do Estado lamentaram o que chamaram de "superficialidade" das ações anunciadas pela presidente durante reunião da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
Os administradores das cidades afetadas pela estiagem, liderados pela União dos Municípios da Bahia (UPB), resolveram criar um "Movimento dos Sem-Água" e prometem marchar até Brasília para cobrar "medidas objetivas e duradouras" para enfrentar a crise.
"Quando acontece alguma catástrofe no Sudeste, o governo responde na mesma hora. Queremos tratamento igual", diz a presidente da UPB e prefeita de Cardeal da Silva, a 140 quilômetros de Salvador, Maria Quitéria Mendes (PSB). "Prometem recursos, ações, mas para conseguir um pouco do que é anunciado precisamos fazer grandes sacrifícios. É frustrante."

Dos saques à morte do rebanho
Bolsas garantem a comida, mas futuro é incerto

Aparecido Silvino Coelho, 50 anos, mora na comunidade do Garcia, zona rural de Águas Belas, a 400 km do Recife. Da seca de 1970, ainda pequeno, lembra que os irmãos andavam 100 km para ir trabalhar nas "frentes de emergência" do governo por uma pequena remuneração. "Passavam a semana e voltavam com dois ou três quilos de feijão, farinha e um pedaço de charque", lembra. A comida era dividida por seis pessoas. Na época, tios e primos foram embora para São Paulo.
Quando chegou 1983, Aparecido já estava casado com Valdenice, com quem teve sete filhos. A seca levou a lavoura e a fome chegou. Ele não teve dúvida: engrossou os famintos que saquearam o antigo armazém de alimentos do governo, a 32 km da sua casa.
"A gente saiu de noite, a pé, eram umas 80 a 100 pessoas de várias comunidades, e chegou no armazém amanhecendo. Cada um levava um saco. A gente abriu as portas com pedaços de ferro, paus, pedra. Cada um encheu seu saco com o milho que tinha lá", diz Aparecido, constrangido. "Melhor que morrer de fome."
Os saques se repetiram em 1993 com o mesmo roteiro.
Os R$ 170 do Bolsa Família que chegaram há alguns anos deram acesso ao banco a Aparecido. Ali ele fez um empréstimo com o qual comprou oito cabeças de gado. Podia criar e revender os bichos, além de consumir e comercializar o leite das vacas.
Agora, na seca de 2013, viu tudo ir embora. Vendeu o gado para não vê-lo morrer, como muitos animais cujas carcaças secam à beira da estrada local. Os programas federais e estaduais mantêm a comida na mesa. A água, nem sempre suficiente, vem em carros-pipa do Exército. Sem débito com o banco, Aparecido não pensa mais nos saques de anos atrás. Mas não sabe o que fazer quando a seca passar. Comprar mais animais? "E quando chegar outra seca?" / A.L., ENVIADA ESPECIAL A ÁGUAS BELAS

A vida como um flagelado
Série de reportagens do 'Estado' levou o Prêmio Esso de Jornalismo de 1959

Liz Batista

Para compreender e expor o problema das secas que de tempos em tempos castigam o Nordeste do País, o repórter do Estado Rubens Rodrigues dos Santos decidiu viver o drama de um flagelado, para então narrá-lo. Em "Diário de um Flagelado das Secas", uma série de 11 reportagens, escritas há pouco mais de meio século, o jornalista viveu uma saga euclidiana para denunciar a exploração dos retirantes, a venda de votos, o descaso das autoridades e a economia corrupta que se desenvolveu em torno do drama de milhares de brasileiros. O trabalho lhe rendeu o Prêmio Esso de Jornalismo.
Rubens partiu para o sertão durante a grande estiagem de 1958, uma das maiores da história do semiárido nordestino. Percorreu as regiões mais atingidas pela seca, acompanhou obras de contingência do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e partilhou do dia a dia de pequenos proprietários de terras que tinham a fome "a entrar-lhe pelas portas".
Alistou-se como cassaco, como eram conhecidos os integrantes das frentes de trabalho mantidas pelo DNOCS. Partilhou com os 480 mil homens inscritos nos serviços de emergência do governo o trabalho árduo e a pouca comida. De uma dessas refeições, vem um dos relatos mais eloquentes dos diários: "O cassaco come pouco, come mal, come indiferentemente. Come para viver, sem nunca ter podido comer para sentir. Come porque precisa, porque senão o estômago se lhe revolveria em cãibras, porque necessita de forças para trabalhar. E, se alguém indaga por que não usa tempero, por que não melhora o sabor doque prepara, ele sentencia: "Tempero de pobre é fome!"

Com os que encontraram trabalho na construção do açude General Dutra, ao pagamento de 32 cruzeiros por dia, passou dias, trabalhando para erguer uma obra tão antiga quanto o próprio DNOCS. O açude, foi projetado em 1908, mas as obras só começaram em 1913. A partir de então, como conta o repórter, "uma trágica sucessão de interferências político-partidárias e de atividades fraudulentas de empreiteiras fizeram com que os trabalhos se arrastassem morosamente, interrompendo-se e recomeçando muitas vezes". Sua experiência ali levou-o a cunhar um termo que permeou toda a série: "o mito das obras contra as secas". Usando o açude como exemplo, explicou como a obra representava os "três dos maiores entraves que a incúria de homens públicos tem oposto à amenização dos efeitos das estiagens: falta de planejamento, descontinuidade de esforços e má aplicação de recursos." E perguntou, sem ser aproveitada para a irrigação, "que benefícios trará para a solução dos problemas nordestinos a água armazenada a montante?" Incluindo esta entre as obras que traziam alívio aos flagelados mas não os tirava dessa condição, respondeu: "será uma obra destinada apenas a matar a sede de alguns rebanhos a dar de beber a magotes de retirantes acampados em suas margens, a sustentar a vaidade dos que ordenaram sua construção."
Em Alagoas, do governador tucano Teotônio Vilela Filho, um relatório recente da Diocese de Palmeira dos Índios indicou que 33 mil famílias - cerca de19% das 175 mil famílias que residem nos municípios em situação de emergência - estão completamente desassistidas pelos programas da União e do Estado. O governo estima que os prejuízos com a estiagem de parte das 22 usinas de cana-de-açúcar de Alagoas cheguem a R$ 800 milhões. Por isso, teme que as consequências trazidas pela seca se espalhem por outros municípios além do semiárido. / BRUNO BOGHOSSIAN, ANGELA LACERDA, TIAGO DÉCIMO e CARLOS NEALDO

OESP, 07/04/2013, Nacional, p. A4

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