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'Se você mora na natureza, sabe que quem planta e cria tem alegria'

G1 - http://g1.globo.com/natureza/blog
Autor: GONZALEZ, Amélia
14 de Ago de 2017

'Se você mora na natureza, sabe que quem planta e cria tem alegria'

Segunda-feira, 14/08/2017, às 20:06, por Amelia Gonzalez

A foto, no site do Instituto Socioambiental, mostra pessoas sentadas no chão à sombra de uma enorme árvore, e provavelmente foi feita ao final do Encontro para comemorar os dez anos da Rede de Sementes Xingu. Eu poderia estar lá, não fossem a distância, a complicada logística para viajar do Rio ao Xingu e compromissos pessoais que me obrigaram a recusar o convite que a organização me fez para participar da festa. Acompanho o processo desse projeto há cerca de dois anos, quando fui apresentada a ele num outro Encontro fora de centros urbanos, este no Arquipélago do Bailique, no Amapá, onde acompanhei a organização do Protocolo Comunitário daquela comunidade. Ali Dannyel Sá, um dos elos da Rede de Sementes, contou a todos nós do que se tratava o projeto.
Já que não fui à festa, decidi mergulhar nos textos e vídeos sobre a RSX que estão disponíveis no site do ISA. Impossível não se sentir afetado pelo projeto. Para os urbanos e leigos no tema da arborização, categorias nas quais eu me incluo, é absurdamente patente que se trata de um método aplicável. Se estivéssemos vivendo tempos de real compromisso com a recuperação das florestas que foram dizimadas, especialmente pela ação do agronegócio, esse modelo poderia servir como início - e fim - de conversa.
Assistir aos vídeos que mostram a formação e os resultados da Rede me deixou também uma grande indignação. Não é fácil recuperar uma floresta. Já para botar as árvores no chão, qualquer um que saiba dirigir um trator ou usar a motosserra, vai lá e executa, quase rapidamente.
Gostei do que falou Ricardo Abramovay, economista e professor, num dos vídeos do Encontrão no Xingu. Para ele, reflorestar é uma economia de cuidados. E não é fácil, como diz um agricultor em resposta a perguntas, no mesmo documentário:
"Reflorestar é difícil mas não é impossível, é só você gostar do serviço".
Tudo começou com um projeto (Ikatu I Xingu) que foi idealizado para salvar as águas do Xingu, já comprometidas com tantos empreendimentos industriais em seu caminho. A ideia seguinte foi além: reflorestar as margens do rio. Para isso era preciso ter as sementes adequadas, o que começou a ser conseguido com a formação de uma rede de pessoas diversas, índios e brancos, agricultores familiares, responsáveis por catar e passar adiante sementes de árvores nativas.
O primeiro trabalho é catar as sementes, e um dos vídeos acompanha uma animada turma de índias entrando na floresta para cumprir a tarefa. A Rede tem mais de 200 espécies de sementes, do cerrado, de floresta, de brejos e campos. E elas são comercializadas, o que ajuda muitas famílias que vivem no local e estão assistindo à degradação ambiental que só faz crescer.
O quilo da semente pode custar de R$ 0,50 a R$ 250, o que dá um total de cerca de R$ 1,2 mil para fazer o plantio direto por hectare.
"É uma teia, onde o instrumento é a semente", diz uma das coletadoras.
O projeto foi crescendo, recebeu apoio de várias instituições . Os agricultores, ao serem seduzidos pela ideia, também se sentem convidados para discutir questões sociais. Como envolve geração de renda, foi ficando cada vez mais fácil envolver os pequenos produtores rurais, além dos índios, em conversas sobre participação, educação, rede, solidariedade.
"Para mim, o melhor de tudo foi que eu deixei de trabalhar em casa de família", respondeu uma das coletoras, cuja filha consegue enxergar um outro motivo para fazer parte da Rede:
"Quando eu vejo a semente da mata eu sei o que é, já os meus colegas da minha sala de aula, não".
"Morar na natureza é bom. A gente planta e cria. Quem planta e cria tem alegria", disse outro agricultor diante das câmeras.
Depois de coletar as sementes, é hora de comercializá-las. No site da RSX, o agricultor descobre o passo a passo de como reflorestar com as sementes que acabou de comprar. Tem que respeitar a natureza, o tipo de vegetação, plantar primeiro arbustos pioneiros, que vão morrer para dar lugar às árvores que ficarão. Um processo bonito, mas trabalhoso. Lembrou-me o caso das formigas contado por Rachel Carson em seu "Primavera silenciosa", livro que abriu o caminho para as questões ambientais e o impacto dos agrotóxicos aos humanos.
No livro, a bióloga conta o caso de um amigo que conseguiu acabar com a praga das formigas sem usar um único veneno (na época, o DDT era utilizado de forma irresponsável) . Ele conseguiu um método, trabalhoso, de fazê-las ingerir anticoncepcional.
Num dos vídeos que a Rede Xingu veicula, há a menção a herbicidas para matar o capim que cresce e pode estragar todo o processo de reflorestamento caso não deixe chance para os arbustos respirarem. Talvez possa ser pensado um outro meio para fazer isso. De qualquer forma, ninguém ali inventou a roda e o projeto mostra que é possível sair dessa teia em que nos vemos enredados, a assistir quase impotentes à degradação do meio ambiente. É possível desfazer o erro, basta trabalhar duro para isso.

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