O Globo, Economia Verde, p. 28
Autor: VIEIRA, Agostinho
30 de Out de 2014
Se dividir, vou para Jeri
AGOSTINHO VIEIRA
oglobo.glob_o.com/blogs/economiaverde
Os números não mentem jamais. Mas escondem. Tudo depende de como eles são usados. Agora, por exemplo, continua persistindo a tese de que os nordestinos deram a vitória a Dilma Rousseff. Sem dúvida, os 20 milhões de votos que ela teve lá foram importantes, mas os 26,6 milhões que recebeu no Sul e no Sudeste foram decisivos. Só em São Paulo a contagem chegou a 8,5 milhões. Quase 16% do total.
Pessoalmente, acho que foi exatamente em São Paulo que Aécio Neves perdeu a eleição. Se os paulistas tivessem dado ao candidato tucano o percentual de votação que os maranhenses deram a Dilma, ele estaria eleito. O fato é que a leitura distorcida dos resultados só serviu para aumentar ainda mais o ódio e o preconceito. Nordestinos estão sendo chamados de ignorantes e preguiçosos, e um vereador paulista, do PSDB, chegou a propor a construção de um muro que dividiria o Brasil em dois.
Uma bobagem tão grande que só é superada pela tese de que os pobres votaram na Dilma e os ricos votaram no Aécio. Se isso fosse verdade, a petista teria sido eleita no primeiro turno com larga vantagem. Só não fica claro na proposta do tucano o que seria feito com Minas e com o Rio, estados onde Dilma venceu. E nem o destino de paulistas, catarinenses e gaúchos que também votaram na presidente. Por via das dúvidas, se a ideia prosperar, aviso que gostaria de ficar na parte de cima do mapa. Mais especificamente em Jericoacoara, uma sucursal do paraíso na Terra.
Enquanto isso não acontece, não custa lembrar que poucas vezes nestes 500 anos de história precisamos tanto de um país unido como agora. Não estou falando da reforma política e da tributária, ambas fundamentais. Aliás, pouco importa se serão feitas através de um plebiscito, uma constituinte ou um referendo. Elas precisam ser feitas. Logo. Discutir a forma e esquecer o conteúdo é um debate fútil. Uma enganação. Lembra um show de ilusionismo: nada nesta mão, nada nesta mão e, ao final, o mesmo coelho sai da cartola.
Neste início de um novo governo, é importante frisar que os desafios climáticos que já enfrentamos hoje vão se agravar muito nos próximos anos. E eles insistem em não respeitar fronteiras de estados e nem colorações políticas. Quando se fala em clima, muitos pensam que é algo distante, que acontecerá no futuro, com outras pessoas. Nunca com a gente. Tratar de clima é discutir abastecimento de água, saneamento, energia, alimentação, segurança das cidades. Tudo aqui e agora.
Recordes de temperatura, em cidades como Rio, São Paulo e Belo Horizonte, que antes aconteciam em janeiro e fevereiro, estão ocorrendo em outubro e novembro. Na Amazônia, nos últimos dez anos, tivermos as três piores inundações e as duas maiores estiagens da história. O nível do mar já subiu vinte centímetros e continuará subindo, mesmo que todas as emissões de gases de efeito estufa sejam interrompidas já, o que, obviamente, não vai acontecer.
O estado de São Paulo e outras áreas da região Sudeste estão vivendo a mais grave seca dos últimos 80 anos. E o pior é que os cientistas não sabem dizer exatamente o que teria causado este fenômeno. Eles têm apenas duas certezas. A primeira é de que eventos como este vão se repetir com mais frequência. Talvez a cada dez ou a cada cinco anos. A segunda é de que os efeitos poderiam ter sido evitados ou minimizados com mais planejamento e com os investimentos certos na hora certa.
A urbanização sem controle fez com que a temperatura média da cidade de São Paulo ficasse 3o C mais alta do que no início do século. A cidade virou uma gigantesca ilha de calor. A média anual de chuvas cresceu 30%, e as inundações passaram a ser três vezes mais frequentes do que eram na época da Revolução Constitucionalista de 1932. Daqui para frente, a região verá anos de muita chuva e de inundações se alternando com temporadas de seca.
Precisamos estar preparados para enfrentar essa nova realidade. A água que sobra num ano deverá ser guardada para o outro. Será necessário investir em novos reservatórios, incentivar o reuso e desperdiçar menos. A valorização econômica da água terá que sair dos estudos teóricos e se transformar em realidade, como já é feito em outros países. Quem consome mais paga mais. Isso sem falar na velha chaga do saneamento básico. Pensando bem, talvez seja mais prudente economizar o dinheiro que se gastaria para construir o muro.
E-mail: economiaverde@oglobo.com.br
O Globo, 30/10/2014, Economia Verde, p. 28
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.