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SBPC ataca desmatamento em abertura

FSP, Ciencia, p.A11
19 de jul de 2004

Comunidade Cientifica
Em discurso inicial na reunião anual, presidente de entidade defende pacto com devastadores
SBPC ataca desmatamento em Abertura
Salvador Nogueira
Enviado especial a Cuiabá
Com um discurso inflamado, o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Ennio Candotti, declarou guerra ao desmatamento da Amazônia, durante a cerimônia abertura da 564 Reunião Anual da instituição, iniciada ontem em Cuiabá, capital do Estado de Mato Grosso, que possui os maiores índices de derrubada da floresta.
Candotti quer o estabelecimento de uma moratória à devastação, num pacto social entre os exploradores da floresta e o governo. "Se os bois e a soja ganharem essa guerra, não haverá vida civilizada", disse, referindo-se às principais atividades econômicas que motivam a expansão do chamado "arco do desmatamento".
"Vinte e cinco mil quilômetros quadrados de floresta amazônica são derrubados a cada ano. Um quinto da floresta já foi derrubado. Essa é a nossa guerra", disse.
A forma de delinear o sentido do esforço, segundo Candotti, poderá se dar por meio da realização de urna grande conferência nacional nos próximos meses, tendo por principal objetivo um pacto com os principais responsáveis pela devastação da mata.
"Gostaríamos de nos encontrar com os plantadores de soja, os criadores de gado, empresários, e encontrar uma moratória para que nenhuma árvore a mais seja derrubada inutilmente", afirmou, ressaltando que a iniciativa não deve prejudicar a produtividade e o crescimento econômico. "Vamos reduzir o desmatamento a zero, buscar alternativas."
Candotti usou a abertura da reunião para apresentar a idéia ao ministro da Ciência e Tecnologia,
Eduardo Campos. Também se referiu ao presidente da Capes, Jorge Guimarães, que estava representando o ministro da Educação, Tarso Genro. E disse que seguramente teria o apoio da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente.
Além da realização da conferência, Candotti mencionou outra proposta apresentada pela SBPC ao governo federal, de repassar um terço dos recursos contingenciados dos fundos setoriais -cerca de R$ 900 milhões- para um programa de recursos humanos voltado para o estabelecimento e a consolidação de instituições de pesquisa na Amazônia. "A floresta amazônica é o grande laboratório científico da nossa civilização", afirmou. "Na sociedade do conhecimento, todos os povos gostariam de ter um laboratório desses -uma floresta em pé."
Candotti também ressaltou a importância de uma reforma universitária de peso, para a exploração do potencial científico nacional. "Por que não ousamos pensar numa nova universidade?" A abertura da reunião, que vai até sexta-feira, também foi marcada por protestos do movimento estudantil, acalentados pela greve que atualmente se instala nas universidades públicas. As principais manifestações vieram do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso, instituição que sedia o evento. Eles pediram o atendimento às reivindicações e vaiaram algumas das autoridades presentes, sobretudo o governador do Estado, Blairo Maggi.
O ministro Eduardo Campos iniciou seu pronunciamento brincando com a situação. "A única surpresa que tive aqui foi o frio de Cuiabá", disse. "A SBPC sem protesto não é a SBPC."

FSP, 19/07/2004, p. A11

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