VOLTAR

Savanização inevitável

O Globo, Ciência, p. 46
30 de Nov de 2007

Savanização inevitável
Combinação de aquecimento global e desmatamento é mais forte que Amazônia

Roberta Jansen

A Floresta Amazônica é bem mais resistente do que se imaginava há até bem pouco, mas, ainda assim, será incapaz de resistir por muito tempo à letal combinação de aquecimento global e desmatamento. A conclusão está numa revisão de vários estudos sobre a mata publicada ontem na "Science", sob a coordenação de Yadvinder Malhi, da Universidade de Oxford.
Entre os estudos revisados para o artigo, alguns demonstram que a floresta desenvolveu mecanismos próprios, ao longo de milhares de anos, para sobreviver em áreas de clima mais seco ou mesmo para enfrentar períodos de seca. Raízes bem mais longas, capazes de buscar água a profundidades maiores, são uma das adaptações evolutivas.
- A região de Santarém, por exemplo, tem um clima mais seco e uma floresta exuberante. Estudos feitos ali revelam adaptações para existir em clima bem menos úmido - afirma o climatologista Carlos Nobre, do CPTEC/Inpe, integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, e um dos autores do estudo.

- Outros estudos, na região do Pará, indicam que mesmo quando a floresta atravessa períodos de seca, muitas árvores demonstram uma resistência notável.

Além disso, um estudo ainda em andamento no Inpe, revela que o excesso de CO2 na atmosfera (principal causa do aquecimento global) pode, inicialmente, ser benéfico para a floresta. Com mais CO2 disponível, as plantas tendem a absorver mais desse gás, fundamental ao seu crescimento.

No entanto, nem todas as adaptações da floresta serão capazes de driblar a transformação de parte da Amazônia em campos, alertam os especialistas, se o aquecimento do planeta não for detido. Sobretudo, se a elevação das temperaturas for acompanhada por desmatamento e queimadas.

- Não é qualquer aumento de temperatura que vai acabar com a floresta. Ela tem mecanismos para sobreviver bem a uma pequena elevação da temperatura - diz Nobre.

- Mas há limites. A partir de quatro graus Celsius de aumento (cenário intermediário previsto para a região até o fim do século), o risco de savanização aumenta bastante.

Devastação de 40% é o limite da mata
Por outro lado, os cientistas constataram que com o desmatamento de 40% da floresta (a Amazônia já perdeu 15% de sua área original), o risco de savanização das demais áreas também aumenta bastante. As queimadas são um outro grave fator dessa equação letal, cujos efeitos para a savanização ainda não foram completamente compreendidos.

- Com incêndios e desmatamento, a resistência da floresta vai diminuindo ainda mais e o risco de savanização aumenta - alerta o especialista.

O grupo de Nobre no Inpe começa a estudar o impacto conjunto de desmatamento e aquecimento. Tenta ainda desenvolver parâmetros para medir o impacto dos incêndios florestais.

O Globo, 30/11/2007, Ciência, p. 46

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.