VOLTAR

Sarney desaconselha demarcação de terra indígena na faixa de fronteira

Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
30 de Mai de 2005

Em aparte ao pronunciamento do senador Mozarildo Cavalcanti, o senador José Sarney (PMDB-AP) terminou fazendo revelações surpreendentes. Ex-presidente da República contou que desde a sua época a igreja católica vem forçando a demarcação da reserva. Narrando sua experiência indicou como temerária a demarcação de terras indígenas na faixa de fronteira.
Sarney disse que a questão das terras indígenas em Roraima se arrasta há mais de vinte anos e quando foi presidente estabeleceu a diretriz de não fazer demarcação de área indígena ou de qualquer outra natureza, na faixa de fronteira. Conforme o senador amapaense, amparado nos ensinamentos do Barão do Rio Branco, para quem, todos os conflitos tinham origem nas fronteiras. Mesmo que estivessem pacificados "deixavam resíduos e um potencial de conflito muito grande".
O senador amapaense lembrou que retornando ao Brasil, vindo da Europa onde era ministro das relações exteriores, o Barão do Rio Branco demarcou todas as fronteiras e hoje o Brasil faz limite com dez países sem ter com nenhum deles qualquer questão relativa a problemas de fronteira.
"Não podemos criar para as gerações futuras aquilo que não recebemos das gerações passadas. Nós recebemos um país com o território perfeitamente definido. A criação de uma reserva numa área de fronteira é sem dúvida um potencial de conflito em termos de futuro. Fronteira é uma linha imaginária que divide de um lado terra e gente e de outro lado, gente e terra. Mas dizia o filósofo que em ambos os lados há uma flor ou um toco a dizer que ali tem um sentimento de pátria", comentou José Sarney.
Recordando o tempo em que foi presidente, o senador Sarney disse que foi procurado pela CNBB, quando seu presidente era Ivo Lorcheider, segundo ele, homem de muita inteligência e de muita história na igreja brasileira, a quem tem muito respeito.
"Dom Ivo lutava para que eu fizesse essa demarcação. Eu disse a ele que não poderia fazer demarcação em área de fronteira. Ele me questionou se estava sendo pressionado pelos militares. Eu respondi dizendo que quem estava me pressionando muito era o Barão do Rio Branco. E ele perguntou: Como? Eu lhe disse que era um homem que conhecia a história brasileira, todo o ciclo de expansão e era ele, o Barão, que estava me orientando", narrou o ex-presidente.
Naquela ocasião - lembra Sarney - as florestas nacionais surgiram como fórmula de preservar a floresta e ao mesmo tempo dar condições aos índios de continuarem na região vivendo conforme seus costumes. "Infelizmente, depois que deixei a presidência, de maneira não muito racional, mas para aceitar as pressões internacionais e fazer um gesto em relação à opinião pública internacional, foram extintos os decretos relativos àquele tipo de demarcação".
Veio a demarcação contínua da área ianomâmi - uma tribo que despertou a curiosidade nacional e internacional pelo fato de que ali havia um fóssil antropológico. Conforme o senador amapaense um povo tão primitivo que se poderiam estudar formas de poder porque ali ainda não estava estruturado.
"Era um lugar onde os antropólogos poderiam fazer um estudo. Não era questão territorial. Era questão científica da humanidade! Para nossa tristeza do lado da Venezuela, escreveram-se três livros com estudos profundos sobre o que era a tribo ianomâmi, tudo aquilo que a ciência gostaria de saber. No Brasil não tivemos um só estudo profundo sobre os ianomâmi. Ao contrário, estamos a discutir o espaço territorial que não era o problema fundamental da sua importância na vida da humanidade. O que aconteceu? Aconteceu que nos fixamos no problema territorial, destruímos aquela preciosidade e eles ficaram parias", declarou José Sarney.

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.