VOLTAR

Sardinella brasiliensis

OESP, Notas e Informacoes, p.A3
20 de Jan de 2005

Sardinella brasiliensis
Com toda certeza, a "tomada de decisão sobre a gestão do uso sustentável da sardinha verdadeira (Sardinella brasiliensis)" - função essa definida com precisão na portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) de segunda- feira (17/1) - é questão relevante demais para os superiores interesses do País para ser tratada por apenas um, dois ou três Ministérios. Foi por isso que o governo Luiz Inácio Lula da Silva distribuiu essa pesada responsabilidade por um número maior de instâncias ministeriais e de alto escalão governamental, determinando que o novo grupo de trabalho, instituído para cuidar, exclusivamente, da sardinha (verdadeira), seja integrado por representantes do Ministério da Defesa, do Ministério do Meio Ambiente, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, do Ministério do Trabalho, da Secretaria da Pesca, dos Conselhos de Pesca e da Pastoral da Pesca. Enfim, é preciso pescar muitas pessoas qualificadas para integrar tal percuciente comitê, embora, em se tratando de continente de sardinhas, sempre caiba mais uma.
Aos que estranharem a participação até do Ministério da Defesa no conspícuo colegiado da Sardinella brasiliensis, talvez fosse bom lembrar que estivemos perto de entrar em guerra com a França - na chamada Guerra da Lagosta - por causa de divergências em relação à extensão de nosso mar territorial, ocasião em que o então presidente De Gaulle teria dito (afirmação de outro, mas sempre atribuída ao grande estadista francês) que "O Brasil não é um país sério". Injustiça do general ou de quem reproduziu seu pensamento, claro, pois somos seriíssimos em todos os assuntos, a ponto de o governo Lula já ter criado cerca de 200 grupos de trabalho, para cuidar dos temas mais diversificados - e disparatados - que a imaginação possa supor.
No caso específico do comitê da sardinha verdadeira, talvez devêssemos nos preocupar em saber se os especialistas interministeriais convocados para integrá-lo dispõem de equivalente qualificação científico-tecnológica para também cuidar da sardinha falsa. No mais, determina a portaria que esse grupo deverá "encontrar formas de manter sistemas de análise e informação sobre os dados bioestatísticos das pescarias de sardinha verdadeira, bem como da conjuntura econômica e social da atividade 'sardinheira'". É claro que essa é uma atividade que tem sua importância econômica e social - como a da pesca, em geral - e preocupa o fato de estar declinante. Mas será que o inchaço "participativo" multiministerial é o caminho para chegar-se à solução dos problemas? E terá sentido a inflação de grupos de trabalho - criados pelo governo - até para assuntos que pouco lhe dizem respeito?
A capacidade que tem o governo Lula de criar grupos de trabalho pode ser medida pelos 200 que já instituiu, em apenas dois anos de mandato. Há para todos os gostos. Por exemplo, há grupo de trabalho para investigar o mapa de trabalho da população negra; há grupo de trabalho para a elaboração de uma nova política industrial; há grupo de trabalho para a desburocratização (excluída, é claro, a evidenciada pela criação de grupos de trabalho); há grupo de trabalho destinado a descobrir formas de melhorar a interlocução do governo com a sociedade. E, no campo do inusitado, existe até um grupo de trabalho cujo objetivo é descobrir mais detalhes da vida do grande escritor Machado de Assis. Nesse caso, talvez devesse, também, ser desenvolvido um esforço analítico, ou estético-exegético, no sentido de decifrar alguns importantes mistérios da obra machadiana e até desfazer mal-entendidos - por exemplo, quanto à fidelidade de Capitu a Bentinho (sendo a semelhança do filho com o amigo Escobar mera coincidência) ou o esclarecimento, definitivo, de que a descrição de seus "olhos de ressaca" se referia ao repuxo das águas do mar e não aos efeitos etílicos da véspera, como alguns desavisados leitores ainda julgam.
Seja como for, sardinhas e Capitus à parte, se ao cabo de seu mandato o governo Lula não chegar a atingir suas metas, poderá ser por falta de trabalho, mas nunca de grupo.

OESP, 20/01/2005, p. A3

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.