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Saneamento teria evitado 823 mil casos de doenca

OESP, Geral, p.A9
23 de Mar de 2004

Saneamento teria evitado 832 mil casos de doença Casos, somente de 2000, foram de enfermidades ligadas à má qualidade da água e à falta de esgoto
LUCIANA NUNES LEAL
A saúde da população brasileira estaria em condições muito melhores se houvesse mais eficiência no sistema de saneamento básico. A constatação está comprovada em números divulgados ontem pelo IBGE no Rio. O estudo mostra que, em 2000, foram registrados 832.175 casos de seis doenças diretamente ligadas à má qualidade da água e à falta de esgoto adequado. São elas: dengue, malária, hepatite A, leptospirose, tifo e febre amarela. Grave também foi a incidência de mortes por diarréia: 5.489, sendo 3.278 de crianças com menos de 5 anos. Pernambuco apresentou os dados mais graves de morte de crianças por diarréia, com 421 óbitos.
De Norte a Sul do País, cada doença tem uma área mais crítica, como mostra o Atlas de Saneamento. Dos 428 mil casos de dengue, 16% ocorreram no Rio.
Entre os 389 mil registros de malária, 48% concentraram-se no Amapá. Goiás teve 53 dos 85 casos de febre amarela. Concentraram-se no Rio Grande do Sul os de leptospirose, com 987 do total de 2.663, mas a análise por municípios revela que o primeiro lugar ficou em São Paulo, com 242 casos.
O IBGE também fez um estudo sobre a leptospirose. A doença, transmitida pela urina de rato, agrava-se depois de inundações, pois a água das chuvas espalha o lixo, o ambiente preferido dos roedores. O estudo permitiu uma comparação com anos anteriores. O total de óbitos, que havia diminuído de 396 para 330 entre 1998 e 1999, voltou a crescer no ano seguinte, chegando a 377. É um número bem menor, porém, que as 455 mortes de 1996.
A região metropolitana do Recife apresentou um quadro grave, segundo o geógrafo Jorge Kleber Teixeira, responsável pela análise das chamadas "doenças de veiculação hídrica". Dos 20 municípios com maior número de mortes por leptospirose em 2000, 6 ficam no Grande Recife. A capital é a recordista, com 21 óbitos. Jaboatão, Olinda, Camaragibe, Cabo de Santo Agostinho e Escada também registraram mortes pela doença. "O Grande Recife é um caso típico de necessidade de interferência direta do poder público", diz Teixeira.
Embora tenha sido o campeão em número de casos, o município de São Paulo teve 11 mortes e ficou em 11.o no ranking dos óbitos.
Planejamento - Estados como São Paulo, Rio e Pernambuco, que se destacaram pela grande incidência de casos de diferentes doenças ligadas ao saneamento deficiente, são alguns dos que mais sofreram com inundações e enchentes entre 1998 e 2000. As enchentes influem seja pela proliferação de mosquitos, como no caso de dengue, malária e febre amarela, ou pelo consumo de água contaminada, que provoca hepatite A e tifo.
"No planejamento das cidades, o sistema de drenagem é um item fundamental no calendário de obras e saneamento. Os sistemas de drenagem têm por objetivo o escoamento rápido das águas das chuvas, visando à segurança e principalmente à saúde da população", explica o estudo do IBGE.
O infectologista Celso Granato, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a hepatite A é uma doença típica da falta de saneamento básico. "Mas, a longo prazo, sua incidência diminuiu, o que funciona como um termômetro da qualidade da água consumida pela população, além dos cuidados com higiene."
Segundo ele, há 20 anos, 95% das pessoas que procuravam os bancos de sangue para fazer a doação já tinham sido atingidas pela doença. Muitas sem saber, porque a maior parte dos casos se desenvolve sem manifestar sintoma. "De uns 5 anos para cá, a porcentagem caiu para perto de 70%." (Colaborou Luciana Miranda)

Quase 102 milhões não são atendidos por rede de esgoto Informação está no 'Atlas do Saneamento'; 40,6 milhões não contam com água encanada
RIO - Apenas quatro em cada dez brasileiros são atendidos por rede de esgoto sanitário, um serviço que tem avançado muito lentamente. Levantamento inédito feito pelo IBGE concluiu que 101,9 milhões de pessoas não têm acesso direto ao esgoto canalizado. Em outro estudo, divulgado há dois anos, os técnicos mostraram que pouco mais da metade dos municípios tinha rede de esgoto. Em relação à água, embora 98% dos municípios tenham rede de abastecimento, o porcentual de habitantes atendidos é de 76%. São 40,6 milhões de pessoas sem acesso à água encanada.
Todos os dados se referem a 2000. O levantamento da população atendida faz parte do Atlas do Saneamento lançado ontem pelo IBGE. A publicação mostra em mapas o acesso dos brasileiros aos serviços de esgoto, água, coleta de lixo e drenagem urbana. Esses serviços estão presentes em apenas 47% das cidades.
Falta de investimentos em infra-estrutura, ineficácia na limpeza urbana e má conservação do meio ambiente são os principais fatores que levam às deficiências do sistema de saneamento. O Atlas custa R$ 50 e vem com um CD-ROM. Está sendo vendido nas sedes estaduais do IBGE e no site www.ibge.gov.br.
Foram usados como base os dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), divulgada em 2002, combinados com informações do Censo 2000 e de instituições do governo e universidades. A PNSB já havia mostrado que, nos anos 90, o número de municípios aumentou 24% e a abrangência da rede de esgoto cresceu apenas 10%. Já a água praticamente teve alcance universalizado, com a rede instalada passando de 95,9% para 97,9%. A PNSB, feita com base nas informações das prestadoras dos serviços, não mede a extensão das redes. Só agora, com a medição da população beneficiada, começam a ser feitas as comparações.
"As desigualdades estão dentro das cidades, principalmente os grandes centros urbanos", diz a coordenadora do Atlas, Adma Hamam de Figueiredo. Ela lembra que um dos esforços para melhorar a rede de saneamento é a tentativa do governo federal de fazer os investimentos em infra-estrutura deixar de ser contados como despesas nas contas do superávit primário, como faz o FMI.
A desoneração injetaria mais recursos federais em obras de ampliação da rede, sem comprometer o compromisso com o Fundo. (L.N.L.)

OESP, 23/03/2004, p. A9

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