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Saneamento: em busca de solução desde o século XIX

O Globo, Rio, p. 17
09 de Abr de 2017

Saneamento: em busca de solução desde o século XIX
Cidade foi a terceira do mundo a ter rede de esgoto

GUILHERME RAMALHO guilherme.ramalho@infoglobo.com.br

A cidade que aspirava ser europeia derrubou cortiços, ampliou ruas, construiu avenidas, canalizou rios, combateu epidemias. O Rio foi a terceira cidade do mundo a implementar uma rede de esgoto, atrás apenas de Londres, na Inglaterra, e Hamburgo, na Alemanha. Os investimentos no saneamento, no entanto, não acompanharam seu crescimento urbano nem seu pioneirismo. Se em 1907, após dizimar 59.065 pessoas, a febre amarela foi erradicada pela primeira vez na capital, hoje, 110 anos depois, a doença volta a atormentar os cariocas, provocando uma verdadeira corrida aos postos de saúde. Embora nenhum caso tenha sido registrado no município até o momento, ainda há com o quê se preocupar: quatro em cada dez cariocas vivem em área sem tratamento de esgoto, valas a céu aberto rasgam a cidade e moradores convivem com abastecimento de água precário e intermitente.
Antes lançado diretamente no mar pelos "tigres" - escravos que tinham a pele listrada pelos detritos que carregavam em barris nas costas -, o esgoto da cidade passou a ser coletado e a receber um estágio inicial de tratamento em 1864, quando foi inaugurada uma estação na Rua do Russel, na Glória. O sistema, administrado pela empresa inglesa The Rio de Janeiro City Improvements Limited, recebia tanto os despejos sanitários quanto as águas pluviais.
- Hoje, nosso sistema é separado, são duas tubulações distintas. Naquela época, não se tratava esgoto biologicamente como se trata hoje, tratava-se por precipitação físicoquímica. Não era a mesma eficiência que se consegue hoje em dia - explica o professor Isaac Volschan, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ.
No final de 1887, cerca de 30 mil dos 48.576 imóveis na cidade tinham coleta de esgoto (62% do total). Hoje, de acordo com dados retirados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 83% das casas têm coleta. Para Volschan, no entanto, o avanço da rede poderia ter sido ainda maior se houvesse vontade política.
- A cidade cresceu sem infraestrutura adequada. A dificuldade de implantação é a mesma. O desafio é que é muito maior, já que o déficit é maior. Continua o mesmo grau de dificuldade que sempre teve. Quando se prioriza BRTs, o Maracanã, o Túnel Marcello Alencar, a derrubada da Perimetral, em detrimento do saneamento, é uma opção política, seja da sociedade ou do administrador público - ressalta.
NO RIO, 23% ESTÃO EM FAVELAS
Se antes os cortiços aglomeravam famílias em habitações populares com condições insalubres, hoje são as favelas, onde moram 23% dos cariocas, segundo dados do Censo de 2010, do IBGE, as que mais sofrem de problemas sanitários e estão mais suscetíveis a doenças.
- É um milagre que a gente não tenha nenhum caso de febre amarela urbana na cidade do Rio porque todas as condições propícias para o desenvolvimento do mosquito estão dadas há décadas. Há um amontoado de pessoas, sobretudo nas regiões mais carentes, falta um sistema de água encanada que atinja toda a população, o que leva as pessoas a estocar água, favorecendo criadouros para os mosquitos e falta saneamento básico para todas as regiões - afirma o historiador Rodrigo César Magalhães, professor do Colégio Pedro II.
A primeira grande epidemia de febre amarela no Rio ocorreu em dezembro de 1849, com a chegada da barca americana Navarre, vinda da Bahia, onde havia surto. Os marinheiros começaram a morrer, mas somente dois meses depois a Academia Imperial de Medicina admitiu, oficialmente, a existência de uma epidemia. A doença só foi erradicada na cidade em 1907, após as campanhas do médico sanitarista Oswaldo Cruz, em meio a críticas e protestos dos cariocas.
No entanto, em 1928, a doença retornou com força total em uma nova epidemia na capital e em outros 43 locais do estado, sendo controlada no ano seguinte, deixando um rastro de 436 mortes.
Desde então, o combate à febre amarela impulsionou a pesquisa científica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil. Para Magalhães, os novos casos da doença no estado foram causados pelo relaxamento de medidas de combate à doença, principalmente a vacinação em áreas rurais:
- Uma coisa é o mosquito, depois de ter sido erradicado em 1958, ter retornado ao Brasil ainda em 1967, vindo de outros países que não fizeram seu trabalho. O Brasil consegue erradicá-lo no começo dos anos 70, mas ele volta um ano depois e está aí desde então. Com relação à febre amarela, houve um relaxamento das políticas, sobretudo de vacinação.

O Globo, 09/04/2017, Rio, p. 17

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