Neomondo n. 25, ago 2009, Especial, p. 12-15
Autor: ESTERCI, Neide
31 de Ago de 2009
Saltos demográficos do país
Expectativa de vida do brasileiro e processo de urbanização são características marcantes
Gabriel Arcanjo Nogueira
A correta percepção da diversidade cultural brasileira passa pelo conhecimento da evolução demo gráfica do País. Se é comum referir-se ao Brasil como um continente, de várias nações numa só, importa, porém, saber que população nele habita.
Estudo da professora doutora Elza Salvatori Berquó, publicado no Almanaque Brasil Socioambiental, é esclarecedor nesse sentido. Fundadora e coordenadora da Área de População e Sociedade - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), fundadora e coordenadora do Programa de Saúde Reprodutiva e Sexualidade - Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Unicamp, Elza Berquó aponta características marcantes de nossa gente, tiradas da sua análise dos censos dos últimos 60 anos. Entre outras, o que chama de transições nos níveis e tendências da mortalidade e da natalidade, de 1940 a 2000; e a urbanização crescente, acentua da na década de 1991 a 2000.
"Nos últimos 60 anos, as mulheres no Brasil reduziram sua prole, em média, em 4 filhos, enquanto houve um ganho de 30 anos, em média, na expectativa de vida ao nascer dos brasileiros", diz. Já na década em que se realizou o último censo, "o País teve aumentado seu grau de urbanização, com 81,2% de sua população vivendo em cidades, em comparação com os 75,6% correspondentes a 1991. Situação que contrasta com aquela registrada em 1940, quando 69% da população do País vivia em áreas rurais", lembra. O que dá a dimensão do salto, quando se trata da urbanização nos últimos 60 anos.
Urbanos ou não, os brasileiros, de acordo com o censo de 2000, se definem como maioria branca (54,6% da população do País), com apenas 6,3% reconhecendo-se de cor preta, 39% considerando-se pardos, 0,4% amarelos e 0,4% indígenas. Esta última categoria não era apurada, no critério de autoidentificação, em censos anteriores, o que foi feito apenas nos últimos dois levantamentos: 1991 e 2000 (leia matéria sobre Povos Indígenas nesta edição).
Mudança na pirâmide
Dois outros aspectos são destacados por Elza Berquó em sua análise. Em regiões urbanas, existem mais mulheres do que homens, enquanto, nas rurais, predominam os homens. Fenômeno que, segundo ela, é explicado pelas migrações internas e diferenciais em níveis de mortalidade. Além disso, apesar de caracterizado como um país de população jovem, a especialista detecta um aumento da importância relativa de idosos nos últimos dois censos: eram 7,1 milhões em 1991 e passaram a 9,8 milhões em 2000.
A especialista explica que "as transições nos níveis de tendências da mortalidade e da fecundidade afetaram direta mente e de forma significativa a estrutura etária da população". O que fica evidente no que chama de pirâmide etária: a de 2000 é mais uniforme e de base reduzida, característica de regimes com grande redução na fecundidade.
Ao contrário das anteriores, própria de regimes demográficos com altas taxas de fecundidade e de mortalidade, com base larga e de forma triangular.
Colonizados e colonizadores
A presidente do Instituto Socioambiental (ISA), do qual é sócia fundadora, Neide Esterci, considera que, nesse contexto, "somos uma nação multiétnica - fruto de um processo violento de colonização que dominou e quase exterminou por completo os povos que aqui existiam como nações independentes. Temos, hoje, colonizados e colonizadores, um só Estado, um território e uma língua oficial. Felizmente, muitos povos sobreviveram e tiveram força e apoio de aliados para reivindicar direitos baseados na sua especificidade, de modo que, dentro do território nacional, há outros territórios e muitas outras línguas".
Doutora em antropologia e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Neide esclarece porque é mais correto falar-se em etnias, e não raças. Ela lembra que a noção de raça tem a ver com as tentativas de estabelecer diferenças fundadas em características físicas e biológicas. O que embutia o conceito de que uma hierarquia poderia ser estabelecida entre raças tidas como naturalmente mais e menos dotadas.
"Idéia que não merece mais crédito. Pensadores mundialmente reconhecidos se insurgiram contra essas noções e, depois da tragédia da Segunda Guerra e das consequências das ideologias nazi-fascistas, organismos internacionais, como a ONU, recusaram explicitamente essas idéias", assegura.
Percepção positiva
Com pesquisas e trabalhos publicados sobre conflito de terra, trabalho escravo, projetos comunitários na área rural e textos sobre unidades de conservação, Neide é didática quando fala do nível de consciência do brasileiro sobre o que é ser cidadão em meio a essa diversidade toda.
Seríamos vários povos num só?
Feita a ressalva de que não possui pesquisas nem dados estatísticos nos quais basear qualquer generalização, ela recorre ao que chama de manifestações de uma percepção positiva com relação à nossa diversidade. E cita dois exemplos, vindos de uma esfera da vida social que já foi usada na tentativa de demonstrar a superioridade da "raça branca" - os esportes.
A antropóloga cita: "Ao final dos jogos Pan-Americanos no Rio, um repórter entrevistava uma das campeãs - uma lourinha vinda do Sul do País, e perguntou sobre o que ela achava dos efeitos da nossa diversidade nos jogos. A pergunta já se expressava num tom positivo, e a resposta foi uma manifestação de orgulho por fazer parte dessa diversidade. Algo semelhante aconteceu ao final dos jogos da Liga das Nações. Ao entrevistar as jogadoras da Seleção Brasileira de Vôlei, vencedora dos jogos, o comentarista destacou, positivamente, a diversidade de tipos biológicos". E conclui: "Podemos considerar, a partir desses exemplos, que continuamos a pensar a cor da pele, a textura dos cabelos e outros caracteres físicos como diferenciadores. Mas as duas manifestações expressam formas de lidar positivamente com a nossa diversidade, valorizando-a em termos de identidade e autoestima nacionais".
Ciência do concreto aplicada à nossa realidade
A antropóloga discorre sobre uma tese - defendida, entre outros, pelo livro A Amazônia que não conhecemos, (edição da Comunidade dos Servos de Maria de Sena Madureira), de que quem vive em determinado lugar e dele tira a sua subsistência é que saberá preservá-lo.
Perguntada se a tese é correta e o que deve ser feito para respeitá-la plenamente no País, Neide fala de cátedra: "Há certo consenso em torno da compreensão de que, vivendo por gerações em um ambiente físico, os povos aprendem a lidar com os seres e coisas desses lugares, não apenas porque vivem lá, mas porque observam, dão nomes, classificam e registram os processos, os efeitos do uso, as interações desses seres e coisas. Como magistralmente descreveu Claude Lévi-Strauss, eles dominam uma espécie de ciência do concreto que, mediante a observação das propriedades sensíveis dos elementos da natureza que habitam, são capazes de antecipar, muitas vezes, os resultados da ciência moderna ocidental. É preciso reconhecer e conferir status aos saberes dessa outra ciência e é possível e necessário pensar as duas ciências como complementares".
Para tornar o País mais viável socioambientalmente, a presidente do ISA deixa um recado que vale muito, apesar de ela própria considerar que fala no atacado:
o Aos governos, por exemplo, aconselha abrir espaços legais e garantir os direi tos para que a diversidade se expresse, garantindo territórios que acolham o social e o culturalmente diverso e os proteja; escolas e programas escolares que valorizem os conhecimentos, a língua e a identidade de cada povo, assim como suas expressões culturais.
o As empresas, por sua vez, acredita, têm de ser realmente responsáveis pelos efeitos de seus empreendimentos e, se eles são lucrativos porque usam os recursos e mão-de-obra de um lugar, tem de haver retornos relevantes sem deixar tantos estragos ecológicos e tantas pessoas na miséria, quando se retiram para outros lugares ou abandonam seus empreendimentos.
o Quanto às ONGs, lembra que, quando fazem corretamente a sua parte, em muitos e muitos casos - como instituições da sociedade civil organizada - têm sido, há décadas, aliadas de camponeses, povos indígenas e trabalhadores. "A estas devemos, em parte, a sócio e a biodiversidade que temos", reconhece.
Serviço
O Almanaque Socioambiental, edição de 2008, é uma das publicações do ISA (www.socioambiental.org.br), que também pode ser contatado pelo fax 3515-8922
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