O Globo, Opinião, p. 17
Autor: AZEVEDO, Tasso
27 de Abr de 2016
A saída é pra frente
Estamos distantes do grau de qualidade de vida que merecemos
Tasso Azevedo
Em meio a uma das mais profundas crises política e econômica por que o Brasil já passou, as propostas para superá-la são baseadas em soluções do passado e pouco mobilizadoras.
Seja governo ou oposição e mesmo boa parte dos analistas do "mercado", batem nas mesmas teclas com maior ou menor intensidade: reforma/choque fiscal, previdenciária e política, revisão do pacto federativo, ampliação do crédito e consumo, recuperação da indústria e retomada dos investimentos (leia-se: obras).
São todos temas importantes, mas eles parecem almejam retomar as conquistas passadas.
As reformas e a revisão do pacto federativo são fonte de grande tensão e antagonismos que, dificilmente, terão solução sem que uma visão compartilhada e inspiradora de futuro coloque em perspectiva as perdas e ganhos de cada grupo de interesse.
O combate à inflação e a busca da estabilidade econômica foi a fonte de inspiração para as reformas dos anos 90, incluindo - talvez como um dos principais símbolos - a Lei de Responsabilidade Fiscal. Na década passada, o combate à pobreza e à desigualdade foi o compromisso integrador que impulsionou a criação de um amplo conjunto de políticas de proteção e ascensão social. Ambos os períodos foram vitoriosos em mobilizar diversas forças da sociedade para dar amplo apoio às ações necessárias para evoluir rumo à visão de futuro maior.
O Brasil precisa sim recuperar as conquistas passadas, mas precisa ir além. Afinal, estamos muito distantes do grau de desenvolvimento e qualidade de vida que desejamos e merecemos. Precisamos de uma visão compartilhada de futuro que converse com os desafios contemporâneos do mundo: a ampliação da democracia, o combate às mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável.
A Coalizão Brasil Clima Floresta e Agricultura é um bom exemplo de como a visão integradora pode facilitar avanços nas agendas mais espinhosas. A Coalizão, criada no inicio de 2015, reúne mais de cem instituições entre entidades ruralistas, ambientalistas, industriais e organizações de consumidores que raramente se sentavam à mesa se não fosse para travar batalhas como a que configurou a aprovação do novo Código Florestal, a regulamentação de transgênicos ou o combate ao desmatamento. Ainda que as organizações tenham pontos de vista muito diferentes sobre muitos temas, conseguiram articular uma visão comum de futuro: "a agricultura, pecuária e economia florestal impulsionando o Brasil para liderança global da economia sustentável e de baixo carbono, gerando prosperidade para todos." Com base nesta visão, trabalham em uma intensa agenda propositiva para apoiar o fim do desmatamento, implementar o Código Florestal, promover metas ambiciosas para a agenda de mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, promover a competitividade da agropecuária e indústria florestal brasileira.
É disso que precisamos agora. Uma visão compartilhada de futuro que inspire o Brasil a dar um novo salto.
Tasso Azevedo é engenheiro florestal
O Globo, 27/04/2016, Opinião, p. 17
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