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A saga paulistana dos Kariri-Xocó

Outras Palavras - http://outraspalavras.net
Autor: Fábio Salem e Alexandre Facciolla
15 de mai de 2014

Dez horas da manhã no Centro de Convivência da Criança e do Adolescente, no bairro Filhos da Terra, periferia da Zona Norte da cidade de São Paulo. No local, a Associação Mutirão do Pobre - ONG que trabalha junto à Secretaria de Assistência Social da prefeitura - planejou na primeira segunda-feira de maio uma atividade diferente para as cerca de 60 crianças de escolas públicas da região.

Subindo a sequência de escadas, chegamos a uma pequena quadra de cimento, ao redor da qual foram arranjadas longas fileiras de cadeiras. Numa delas, um grupo de crianças paramentadas de ornamentos coloridos aguarda o começo dos acontecimentos: uma homenagem a seus convidados, índios da tribo Kariri-Xocó.

À sua frente, noutro canto da quadra, continuam os preparativos. Funcionários amarram, com barbantes, bananas em dois pés da fruta colocados sobre o cimento. Localizado no alto do morro, desse local é possível avistar o grande amontoado de casas, assimétricas e descoloridas, que compõe a paisagem.

Quando os Kariri-Xocó surgem, o ruído entediado dos estudantes cede lugar à atenção compenetrada. Vestidos de traje ritual, rostos e corpos pintados, os quatro integrantes da etnia contam apenas com a voz e com suas maracas (chocalhos) para dar conta da apresentação. Eles iniciam com a toré (canto de celebração), realizando nesse cenário improvável uma dança antiga das margens do rio São Francisco. Luciano, dez anos, que há pouco tentava imitar a melodia dos índios, de repente se vira para nós: "Será que eles se vestem assim para ir ao supermercado?".

Do sertão para a capital.

A pobreza do Baixo São Francisco, em Alagoas, onde vivem os Kariri-Xocó, é a razão pela qual os índios estão hoje diante dessas crianças da periferia paulistana. Uma das etnias mais antigas do estado, os Kariri-Xocó que conhecemos carregam uma missão pesada e cheia de interditos. Eles insistem no viés cultural ("estamos levando a cultura") presente na atividade migratória pendular. Porém, um dos temas frequentes da conversa são as oportunidades de venda - de troca, como enfatizam -, quaisquer, inclusive em possíveis estandes de produtos indígenas durante a Copa. "Não falo vender, falo trocar por um dinheiro, porque para mim é um pedaço de papel. E hoje, o índio também tem que se movimentar por causa desse papel", constata um representante Kariri-Xocó em vídeo de 2006.

Há tempos estes índios dependem desse tipo de comércio para sobreviver. Todo ano, diversos grupos - compostos por cerca de oito pessoas, cada - sai de sua terra para vender a produção artesanal em São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Santa Catarina. "Cada um desses grupos responde pela economia de 60 famílias", conta um deles. Para se ter uma ideia, durante a enchente que impediu o ciclo de cheia e baixa do São Francisco sobre as terras cultiváveis da região, em 1979, o artesanato foi a única atividade para garantir o sustento da tribo. O histórico de pobreza se reflete também no trabalho de alguns índios como mão-de-obra barata em grandes fazendas de cana-de-açúcar e pecuária, as mesmas responsáveis pela desestruturação e miséria de vários povos indígenas de Alagoas.

Wiryçá, 30 anos, fala do contato que tiveram ali com as crianças: "Eu digo que todo mundo, no fundo, é índio. A dança que as crianças fizeram com a gente, sem ensaiar, mostra para mim como é verdade. Porque está no coração delas." Na entrevista a seguir, ele e Tibiriçá, 55, contam sobre a necessidade de migrar uma ou duas vezes por ano, decorrente da pobreza: "Até hoje, tem índio lá que não acende o fogo porque não tem o que comer". Segundo o censo de 2010 do IBGE, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município de Porto Real do Colégio, na região onde vivem, é de 0,551, bem abaixo do de Maceió, de 0,721.

Quem são os Kariri-Xocó?

Wiryçá: Somos um grupo indígena que fica em Alagoas, na divisa de Porto Real do Colégio. Ao todo, lá existem 27 etnias de índios. Nossa tribo é a mais velha do estado de Alagoas. É uma tribo-mãe, como nos chamam, porque reúne várias etnias. Através de nós, foram nascendo Xucurus-Kariris, Karapotós, Aconãs e outros. Tem pessoas de outras tribos que moram com a gente, os Pankararús, por exemplo. Porto Real do Colégio fica na baixa do rio São Francisco, a cerca de duzentos metros do rio.

Como vivem os Kariri-Xocó?

Wiryçá: A gente faz esses trabalhos [de venda de artesanato] para ajudar a comunidade. Nossa condição é precária porque muitos não têm emprego. Esse artesanato que a gente traz é produzido por mais de 60 famílias. A gente vende, arrecada e manda o dinheiro. Os Kariri-Xocó estão espalhados por vários estados durante certo período, divulgando a cultura indígena e vendendo artesanato. Quando termina o mês de abril, a maioria volta para a aldeia, para continuar fazendo artesanato. No início do ano, a gente prepara e faz o ritual do Ouricuri [ritual sagrado cujo acesso é permitido somente aos Kariri-Xocó], que dura todo o mês de janeiro.

Há um problema antigo de legalização das terras indígenas dos Kariri-Xocó. Por que?

Wiryçá: Muitas terras, em Alagoas, já foram demarcadas. O problema é que [quem vive lá atualmente] não é qualquer posseiro, mas "posseiros políticos"; por isso que a nossa terra, apesar de demarcada, ainda não foi liberada. Fomos para Brasília e falamos com o presidente da Funai. Aí as terras foram demarcadas. Mas toda decisão que chega, os posseiros recorrem. Volta para a justiça e fica muito tempo sem liberar.
Tibiriçá: Os posseiros se unem todos para conseguirem uma liminar que anule as demarcações. E os índios... é um problema... Porque a gente não tem um deputado, um governador. A Funai, o governo está acabando com a Funai. Precarização da saúde, da educação, da assistência nas terras indígenas. Não tem orçamento. Poucas coisas melhoraram. Hoje, os professores são indígenas. Antigamente, eram brancos. Hoje, além da nossa própria cultura, esses professores ensinam também português e matemática.

Qual o objetivo da sua tribo em São Paulo e outros estados?

Wiryçá: Divulgar a cultura, porque a gente é um povo muito sofrido. A gente mostra o nosso costume, a tradição e a religião. Também vivemos do comércio indígena. Precisamos vender nosso artesanato, porque o que a gente planta não é suficiente. Não conseguimos caçar, porque está proibido. E a pesca, a gente tem lagoa, mas é por etapa. A pesca acaba logo. Porque é muita gente. Vai a aldeia completa pescar numa lagoa. Essa lagoa, ela seca. Precisamos de uma bomba para puxar água do rio para lá.

Vocês esperam ter alguma oportunidade com a Copa do Mundo?

Wiryçá: Ficamos sabendo por alto que vai ter um espaço para os indígenas aqui em São Paulo. A gente queria um local para vender artesanato. Talvez a prefeitura pudesse ajudar. Isso ia trazer muito recurso porque... Quantas pessoas iam comprar artesanato?! Muitas. Os gringos poderiam levar pulseira.

Como os Kariri-Xocó vêm para São Paulo?

Wiryçá: A gente vem usando a coragem. A gente sempre encontra uma alma boa. E contatamos uma amiga que abriu a casa para cinco, seis índios. São poucas as pessoas que fazem isso. A gente não vai morrer de fome, não. Até hoje tem índio lá que não acende o fogo porque não tem o que comer. Tem índio lá que não conhece o mundo. Fica só lá. A gente, jovem, mete a cara e vem. Arrecada alimento e manda para a aldeia. Tudo por nossa conta.

Como vocês mandam esses alimentos para a aldeia?

Wiryçá: No Brás tem baú. Você chega e pergunta quanto é o baú. Mil e quinhentos reais, por exemplo. Junta dez ou quinze índios, divide, e manda para lá. Nas escolas públicas, pedimos alimentos não perecíveis. Vai de caminhão para a aldeia. Quando pedimos esses alimentos, o branco pensa: "será que mandou mesmo?". Duvidam que somos índios. Precisamos comprovar que somos índios. Perguntaram se a gente tinha portfólio. A gente não sabia o que era isso. Aprendemos agora.

Em Porto Real do Colégio vocês sentem o impacto dos problemas ambientais?

Wiryçá: Nós sentimos, sim. Gosto sempre de escutar os mais velhos. Minha avó dizia que a estrada do ritual era pequenininha assim [distância de um dedal com as mãos]. Só cabia uma pessoa. Hoje, a estrada é bem maior e o mato está ficando ralo, acabando. Por isso que queremos fazer projeto de reflorestamento. Ajuda a gente e todas as pessoas. Mas não vale a pena falar com as autoridades locais. Aqui [em São Paulo] é mais fácil. Mais fácil levar um projeto daqui para lá. O São Francisco está seco. Você anda 500 metros [para dentro do rio] e a água fica na sua barriga. Antigamente, não. Eu era de acordo com que fizessem a transposição, mas sem usina. Desativando usinas. Tem sete usinas. Lá em cima, a água é bonita. Em baixo, onde a gente vive, está seco.

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