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A saga dos índios gigantes do Brasil

Jornal de Brasília, Vídeo, p. 2
25 de abr de 1995

A saga dos índios gigantes do Brasil
Filme de Aurélio Michiles sobre trajetória dos Panará, que quase foram exterminados nos anos 70, será lançado hoje

Angélica Torres

saga dos índios gigantes da estrada Cuiabá-Santarém foi cantada em verso, prosa, música e mídia, como uma ficção surrealista durante a ditadura dos anos 70. Os Panará foram musa da poesia de Drummond à canção Krenakore, do primeiro disco Individual de Paul McCartney (o da capa com as cerejas), povoaram de mistério o Imaginário brasileiro e motivaram o cineasta Aurélio Michiles a realizar o vídeo O Brasil grande e os índios gigantes, que será lançado nacionalmente hoje, às 19h30, na sala Alberto Nepomuceno.
A partir de farta documentação de imagens histórias e atuais, o filme é narrado da perspectiva do homem branco caçando o índio na floresta. São 200 anos de fuga de um povo que quase foi exterminado 'à` época da abertura da estrada Cuiabá-Santarém em 1973, tendo sido removido para o Parque indígena do Xingu em 1975 e que hoje, após muito esforço e luta, volta ao seu lugar de origem.
Imprensa O contato da expedição dos irmãos Villas-Boas com os Panará na década de 70 foi o mais documentado dá história. Toda uma geração de jornalistas de toda a imprensa ' brasileira passou por lá. São reportagens imensas. o material é fantástico", conta Michiles, que centrou-se nos depoimentos, colhidos junto aos próprios índios e aos, irmãos Villas-Boas.: São também protagonistas o antropólogo Darcy Ribeiro, o senador Roberto Campos e a jornalistas Memélia Moreira, entre outros. As imagens usadas são de um vasto acervo, onde se destacam reportagens fotográficas de Orlando Brito, Luigi Mamprin, Pedro Martinelli e Eliana Lucena. Traz também Imagens do início do século; do marechal Rondou e de Getúlio Vargas com índios, documentos da Marcha para o Oeste do Brasil.
Aurélio Michiles usa no filme uma citação de Apoena Meirelles: ex-presidente da Funai, para enfatizar a morai da história: Encontrar com o índio é fácil. Difícil é saber o que fazer com ele. Não passa pela cabeça do branco, segundo Aurélio, o que acontece no interior de um povo indígena quando ele o branco se aproxima desse povo, e muito menos os desdobramentos desse contato.
Paisagem - Cria-se a Imagem do sensacionalismo, do fantástico, não como se fossem pessoas, mas naturezas mortas", ilustra o cineasta, Produzido sob. encomenda do Instituto Socioambiental, uma OnG com sede em São Paulo e em Brasília. O Brasil grande e os índios gigantes vem sendo feito desde 1991, com filmagens no Xingu e no antigo território dos Panará, na fronteira entre o Pará e o Mato Grosso. Em função das necessidades, Michilesusou material em todos os formatos, 16 mm, super 8, betakan etc e o resultado vale a pena conhecer na sessão de hoje à noite.
Aurélio Michiles, 43 anos, passou uma parte da adolescência em Brasília, durante o período mais repressivo da ditadura militar. Começou a cursar Arquitetura e. Urbanismo na UnB e a fazer teatro na Oficina de Teatro do Sesi. Foi em Brasília que me descobri como artista e onde vi que a diversidade do Brasil existe e te obriga a conviver com a diferença, confessa.
Hoje mora em São Paulo, onde se dedica à arte do vídeo com reconhecida competência. Fez mais de oito, a maioria sobre a Amazônia. Entre eles os excelentes Que viva Glauber, Lina Bo Bardi, A árvore da fortuna e Davi contra Golias-Brasil Caim (sobre os Yanomami), vencedor do. margarida de Prata de 1994 e que está em exibição no Espaço Cultural 508 Sul, das 11h00 às 17h00, a semana toda.
Lideres -- Hoje, no lançamento nacional de O Brasil grande os índios gigantes, estarão presentes os principais líderes Paraná, que já conhecem alguns documentos do filme, mas que ainda não o assistiram, De gigantes mesmo, os Paraná ou Krenakore:(nome dado a eles pelos Inimigos) tiveram apenas uns quatro descendentes que mediam dois metros e cinco. O vídeo apresenta fotos de um deles.
Na verdade, conta Aurélio, criou-se um mito em torno do gigantismo, a partir das estórias contadas. e aumentadas, pelos Inimigos. Afinal, o desconhecido é sempre misterioso, lembra o cineasta. Michiles fica em Brasília a semana toda para levar o filme a escolas que se interessarem em veiculá-lo a seus alunos. Em maio, o vídeo será lançado no Masp, reavivando à memória a história dos Panará, que teve mais de 80% de sua população assassinada entre 1970 e 1975.
O Brasil Grande e os Índios Gigantes - Vídeo, de Aurélio Michiles. Lançamento hoje, As 19h30, na sala Alberto Nepumoceno do Teatro Nacional. Duração: 47'. Estarão presentes os líderes da comunidade Paraná. Entrada franca.

Jornal de Brasília, 25/04/1995, Vídeo, p. 2

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