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A saga de três heróis de carne e osso

O Globo, Segundo Caderno, p. 3
Autor: HAMBURGER, Cao
14 de Fev de 2012

A saga de três heróis de carne e osso
Cao Hamburger exibe seu 'Xingu', sobre os irmãos Villas-Boas, e diz que a violência da civilização está em xeque mais do que nunca

ANDRÉ MIRANDA

Cao Hamburger chega hoje à Alemanha já com a certeza de que seu novo filme, "Xingu", vem despertando o interesse do público do Festival de Berlim. Baseado na história dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Boas (interpretados por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat), o longa-metragem foi incluído na mostra Panorama do evento e teve sua primeira exibição no último sábado, com sala lotada e aplausos no fim.
Agora, serão mais quatro projeções, de amanhã até sábado, uma por dia, em que Hamburger espera repetir o bom desempenho de "O ano em que meus pais saíram de férias", seu filme anterior exibido pela competição de Berlim em 2007. Em entrevista ao GLOBO, ele falou sobre o trabalho com os atores indígenas em "Xingu" e sobre a situação atual das terras demarcadas no Brasil.
O GLOBO: O quão importante é exibir "Xingu" em Berlim? O quanto sua experiência com "O ano em que meus pais saíram de férias" mostra sobre o impacto do festival para um filme?
CAO HAMBURGER: Os festivais colocam o filme no radar mundial. "O ano..." ficou conhecido em Berlim e, a partir daí, foi vendido a mais de 20 países, foi convidado para muitos festivais... Com "Xingu" esperamos que aconteça algo parecido, apesar de nossas expectativas estarem mais conservadoras por conta da crise que atinge a Europa. Além disso, como "Xingu" é um filme que fala de assuntos atuais e urgentes, apesar de ser um filme de época, estamos curiosos para ver a reação do público. A violência e o poder destruidor da civilização estão, mais do que nunca, em xeque.
- Como foi o trabalho com os atores indígenas? Como você os escolheu e ensaiou? Alguns já tinham experiência anterior?
Foi sensacional. Desde a pesquisa para escrever o roteiro, fizemos questão de envolvê-los no filme e ouvir o ponto de vista deles sobre a história. Na hora de escolher quem iria atuar, foi um trabalho grande de pesquisa, mas já estávamos próximos deles, o que facilitou muito. O produtor de elenco indígena, Chico Aciole, ficou no Xingu fazendo entrevistas em diferentes aldeias, e fizemos um workshop com os que demonstraram mais talento. Não foi diferente de outros trabalhos com atores de primeira viagem. Foi espantoso perceber como eles sacaram o jogo de encenação, a câmera etc. E foi emocionante ver como se envolveram. Acho que isso aconteceu porque, para eles, contar essa história é muito importante.
- No filme, o foco dos personagens se alterna entre questões familiares e a luta pela preservação da terra e dos povos indígenas. Como você acha que eles se dividiam nesses sentimentos? Eles foram, no meu ponto de vista, pessoas muito passionais. Tudo o que fizeram foi com paixão, entregaram-se de corpo e alma. Por isso conseguiram esse feito inacreditável que é o Parque do Xingu. Foram heróis humanos, com sangue nas veias, contradições e dramas de toda espécie. Talvez, se não fossem irmãos, não conseguissem chegar ao fim. A Elena Soarez, corroteirista do filme, costuma dizer: "Se você acha que o Brasil não tem heróis, venha ver 'Xingu'."
- Os textos de encerramento de "Xingu" passam a impressão de que a causa indígena no Brasil estaria bem resolvida hoje. Mas há muitos relatos da ação de fazendeiros no entorno de Xingu. Você teme ser criticado por talvez passar uma mensagem otimista demais no fim?
A ideia dos textos é dizer: "O Parque existe e deu certo." Mas realmente não só o Parque do Xingu, como outras áreas indígenas e reservas naturais, estão em risco. E, pelo andar da carruagem, vão sempre estar. As nascentes do Rio Xingu estão fora do Parque, fazendo com que as plantações de soja, o gado e pequenas hidroelétricas alterem a vida dos rios da região, o que altera a vida dos índios. Como diz Maiari Caiaby, um dos nossos atores, "o rio é nosso supermercado". É de lá que eles pegam seus alimentos.

O Globo, 14/02/2012, Segundo Caderno, p. 3

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