OESP, Metrópole, p. A13
07 de Fev de 2014
Sabesp tenta fazer chover no Cantareira
Empresa que provoca precipitação artificial tenta aumentar nível de reservatórios
Felipe Tau, José Maria Tomazela e Laura Maia de Castro - O Estado de S.Paulo
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) contratou uma empresa para induzir chuvas artificiais no Sistema Cantareira - os reservatórios estão no nível mais baixo desde 1974. A tecnologia permite a aceleração da precipitação de chuvas sem o uso de produtos químicos, em um processo conhecido como semeadura de nuvens.
Anteontem, segundo a diretora da empresa ModClima, Majory Imai, foi possível produzir chuva artificial a nordeste de Bragança Paulista. "Foi uma chuva pequena, mas já foi um bom sinal", afirmou.
De acordo com a diretora, desde 2001, a Sabesp mantém contratos operacionais de médio prazo com a empresa para otimizar chuvas no sistema. "Em anos anteriores não fomos requisitados porque choveu muito. Agora, com toda a seca, a Sabesp nos contatou e deslocamos parte de uma equipe que estava fazendo chover em lavouras de soja, na Bahia", disse.
Segundo Majory, não basta querer produzir chuva: é preciso que existam nuvens de bom porte. "Montamos uma operação para trabalhar toda nuvem boa que se aproximar do Cantareira. Nesse momento, o céu está muito limpo", disse, no início da tarde de ontem.
O funcionamento do processo de "fazer chover" é relativamente simples. Um avião solta gotículas de água na base das nuvens. As gotas ganham volume e, quando estão pesadas o suficiente, a chuva localizada acontece. Segundo a empresa, chove de 5 a 40 milímetros. O tempo de semeadura dura entre 20 e 40 minutos.
"Hoje (ontem), aumentou um pouco a quantidade de nuvens, mas elas estão rasas", disse Neide Oliveira, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Segundo o órgão, há previsão de chuvas significativas entre os dias 13 e 14 deste mês.
Para o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, a experiência internacional indica que a eficiência da semeadura, também conhecida como bombardeamento de nuvens, é limitada. "Há uma situação curiosa: a nuvem é bombardeada, mas não se sabe exatamente onde vai chover."
Para Braga, a medida mais importante é a conscientização da população. "A situação é muito grave, e a população tem de responder usando menos água."
Ao ser questionada sobre o contrato com a ModClima e a eficácia da semeadura, a Sabesp não quis comentar.
Menos água. Os Ministérios Públicos Estadual e Federal recomendaram à Agência Nacional de Águas (ANA) e ao Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), do Estado de São Paulo, que suspendam a autorização dada à Sabesp de usar o banco de águas para abastecer a Grande São Paulo.
Hoje, além da vazão de 24,8 metros cúbicos por segundo, a Sabesp usa 8,3 m³/s do Cantareira para a Região Metropolitana, enquanto as bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que abastecem dezenas de municípios, recebem descarga de 3,1 m³/s.
O presidente da ANA, Vicente Andreu, afirmou que a Sabesp poderá usar o banco de águas. "Até a construção de novos padrões, vai operar dentro do marco regulatório", disse. Segundo ele, será avaliado o padrão de consumo diante dos estímulos que estão sendo dados pelas companhias de distribuição, como descontos ou multa.
A situação atual, de acordo com Andreu, deve levar a um adiamento das audiências públicas em torno da renovação da outorga do Sistema Cantareira, marcadas originalmente para a próxima semana.
COLABOROU GIOVANA GIRARDI
Cidades do ABC e do interior já racionam água
Sete cidades do interior e duas do ABC paulista estão oficialmente racionando água. Em Marília, a prefeitura decretou estado de emergência no abastecimento no dia 19 de dezembro e a situação ainda não se normalizou. Em Pereiras, moradores estão recebendo água com excesso de flúor, imprópria para consumo, de três poços artesianos. O abastecimento segue um rodízio, assim como em Vinhedo.
Valinhos decretou estado de emergência e começa hoje racionamento de 18h por dia em duas áreas da cidade. Em Itu e Serrana, o fornecimento está suspenso à noite e na madrugada. São Pedro decidiu parar o abastecimento das 13h às 17h.
Em Diadema, a prefeitura está racionando água em bairros selecionados, em um esquema de rodízio. O fornecimento para São Caetano do Sul foi reduzido em 20% a partir da zero hora de ontem.
O Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que representa empresas de abastecimento e prefeituras de 43 municípios, decidiu ontem cadastrar poços particulares. O grupo defendeu que as prefeituras podem usar água dos poços para garantir o abastecimento público de água.
DIEGO ZANCHETTA, JOSÉ MARIA TOMAZELA, RICARDO BRANDT e CHICO SIQUEIRA e RENE MOREIRA, ESPECIAIS PARA ESTADO
OESP, 07/02/2014, Metrópole, p. A13
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