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Sabendo usar não vai faltar

CB, Brasil, p. 13
11 de mar de 2005

Sabendo usar não vai faltar

Pesquisa revela que 88% da população está consciente que o Brasil vai enfrentar problemas de abastecimento de água. Mas isso não se revela na prática, com uso desnecessário da torneira
Se você é daquelas pessoas que deixam a torneira aberta na hora que está escovando os dentes ou passa mais de 15 minutos no banho, fique atento. O sistema de abastecimento de água nas maiores cidades, inclusive em Brasília, poderá entrar em colapso nos próximos dez anos. Pesquisa feita em todo o país pelo Ibope, sob encomenda da organização não-governamental WWF-Brasil, atestou que 88% dos brasileiros estão conscientes de que o país enfrentará problemas de abastecimento de água a médio e longo prazos justamente por causa da forma que a água é utilizada.
Mas a consciência do brasileiro não existe na prática. A pesquisa revelou que 64% das pessoas passam entre 6 e 15 minutos com o chuveiro ligado na hora do banho. O desperdício não pára por aí. Sete por cento da população lava o quintal e a calçada com água diariamente, e 47% executam essa tarefa semanalmente. "No futuro, o brasileiro vai se arrepender da prática do desperdício", avisa o especialista em recursos hídricos Ricardo Hollanda, da Universidade de Campinas (Unicamp). Na hora de escovar os dentes, o brasileiro também não poupa água. Doze por cento deles admitem que deixam a torneira aberta.
Segundo a pesquisa, o desperdício é apontado por 44% da população como um dos principais problemas que podem afetar o abastecimento de água no Brasil. Outros 13% indicam a poluição e a agressão às reservas como fatores comprometedores. Para evitar o uso desnecessário de água, 50% propõem fechar as torneiras durante a escovação dos dentes e reduzir o tempo do banho. Entre os habitantes do Rio de Janeiro, 25% não souberam ou não opinaram sobre como evitar o desperdício. A média nacional dos que não sabem é de 12%, o que mostra que os fluminenses são menos conscientes quando se fala de uso racional de água.
Vilão
A pesquisa revelou, também, que a população tem uma percepção equivocada sobre quem é o grande "vilão" do consumo e da poluição de água no país. Nada menos que 41% apontaram a indústria, quando, na realidade, é a agricultura quem consome cerca de 70% dos recursos hídricos utilizados no Brasil. O consumo doméstico foi apontado por 34% dos entrevistados - também acima da agricultura, que ficou com apenas 18% das indicações.
Existem no Brasil atualmente cem comitês de bacias hidrográficas e mais de 40 consórcios intermunicipais de bacias. No entanto, 70% dos brasileiros dizem jamais ter ouvido falar nesses comitês. Apenas 29% afirmaram ter conhecimento. Entre estes, 92% não conhecem ninguém que participe de um comitê de bacia. "Esses dados são extremamente preocupantes, porque esses comitês são a forma de a sociedade participar da gestão e conservação dos recursos hídricos", disse Samuel Barreto, biólogo e coordenador do Programa Água para a Vida da WWF-Brasil.
Ele diz que a população não desconhece a existência dos comitês por falta de interesse. Cerca de 65% dos entrevistados declararam estar dispostos a "participar de um grupo para decidir sobre o uso da água no local onde mora, ou fazer trabalho voluntário para proteção da água". Outros 76% participariam de campanhas e abaixo-assinados para recuperação de mananciais e uso responsável da água.
A pesquisa do Ipobe será fundamental para a campanha Água Para a Vida, Água Para Todos da WWF-Brasil, que tem como objetivo - a longo prazo - mudar a visão da sociedade brasileira. O país deve deixar de considerar a água apenas como um bem a ser consumido e precisa entender que água é suporte para a vida. Prevista para durar quatro anos, a campanha foi lançada no Distrito Federal em 2003.
Samuel Barreto aconselha o Brasil a agir rapidamente para evitar a falta de água no futuro. Ele cita como exemplo o que acontece na bacia do Guarapiranga, no sul da Grande São Paulo. A cada segundo entram naturalmente nos rios da região 8 mil litros de água, mas saem do seu leito outros 12 mil litros.

Povo aceita taxa extra
A pesquisa do Ibope também revelou um dado surpreendente. Cerca de 74% da população é a favor de um projeto de lei que estipula o pagamento de um a dois centavos de real para cada mil litros de água consumidos. A cobrança seria feita só para quem gasta mais ou polui. Mas os entrevistados revelaram que a taxa só seria bem-vinda se os recursos arrecadados fossem empregados diretamente em campanhas de conscientização da população ou na recuperação de bacias hidrográficas.
Cobrar a mais de quem gasta água em excesso não é novidade no Brasil. Na Bacia do Paraíba do Sul - que envolve São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, 230 usuários de água dos rios Pomba, Uriaê e do próprio Paraíba do Sul pagam R$ 0,02 para cada mil litros de água extraída. A taxa é recolhida desde 2003 num boleto especial enviado pela Agência Nacional de Águas (ANA). Naquele ano, foram recolhidos R$ 5,8 milhões. Em 2004, mais R$ 6,33 milhões foram para os cofres. E nos dois primeiros meses de 2005 já foram arrecadados R$ 1 milhão. "O governo só faz cobrar e administrar os recursos recolhidos. Quem define a aplicação é um comitê independente", esclarece o gerente de cobrança da ANA, Pedro Picciotti.
Entre os pagantes da taxa extra no Paraíba do Sul, estão industriais, companhias de saneamento, empresas de irrigação, pequenas centrais elétricas que usam água fluvial para operar turbinas e agropecuários. A agência trabalha para implantar a mesma cobrança na Bacia do São Francisco e dos rios Capivari e Jundiaí.
No caso da Bacia do Paraíba do Sul, a taxa é recolhida pela agência porque a gestão dos rios são da propriedade da União. No Rio de Janeiro, o governo estadual administra o dinheiro recolhidom, destinando-os à recuperação dos mananciais e em campanhas de abastecimento. A decisão do que fazer com o dinheiro é tomada por um comitê formado pela sociedade e ONGs.(UC)

CB, 11/03/2005, Brasil, p. 13

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