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Autor: Giovanny Vera Stephanes
27 de Jun de 2011
"Madeeeeeeeeeeeeeiraaaa!", era um dos gritos mais ouvidos na zona de Rurrenabaque, município amazônico localizado no sopé da Cordilheira Ocidental da Bolívia. Isso era comum há mais de 10 anos, quando a região explorava madeiras preciosas. Sua história começou a mudar com a criação de áreas protegidas e a chegada organizada de turistas. Hoje, Rurrenabaque é um dos destinos mais buscados do país.
A administração pública local identificou o turismo como a vocação produtiva do município. Com a ajuda de instituições locais, nacionais e internacionais, Rurre (como é carinhosamente chamada por seus habitantes) se converteu em um exemplo ao mudar sua economia, tradicional e depredadora, a uma nova, alternativa, sustentável e verde. Não foi um trabalho fácil já que tempos atrás Rurrenabaque "vivia da exploração de madeira", diz o prefeito Yerko Nuñez.
Mas, porque a mudança?
"Quando a população de Rurrenabaque se dedicava à exploração da madeira havia um bom movimento econômico, mas não era sustentável", afirma o diretor Municipal de Turismo, Leoncio Janko. "Além do mais, pouco a pouco a selva que nos dava abrigo e alimento estava sendo destruída", acrescenta. O futuro não era promissor.
Os portenhos (gentilício de Rurrenabaque) também se deram conta que os turistas que passavam por Rurre deixavam um bom dinheiro e chegavam em busca da selva viva e não morta. A partir daí o município decidiu fomentar o turismo através de um planejamento feito com a participação de seus habitantes. Conforme o prefeito Yerko, "Rurre optou pelo turismo como uma alternativa de vida", o que resultou em políticas e acordos com o governo nacional e departamental, cooperações estrangeiras e operadores turísticos.
O que ajudou neste processo foi a criação, na década de 90, de duas áreas protegidas nacionais na zona de influência do município: o Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado (PN-ANMI) Madidi e a Reserva da Biosfera e Terra Comunitária de Origem (RB-TCO) Pilón Lajas. O objetivo era proteger a biodiversidade que existia em ambas as áreas, além de "garantir a permanência e sobrevivência das comunidades indígenas que sempre haviam vivido ali", explica o diretor de Turismo.
O turismo local começou a se organizar, a crescer e a melhorar. E mais turistas começaram a chegar. Segundo informações oficiais do Ministério do Turismo, em 2008 Rurrenabaque recebeu 51.886 visitantes e gerou 5 milhões de dólares, um número alto para uma pequena cidade com quase 20 mil habitantes.
Um estudo do Informe sobre Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Conservação Internacional e a Embaixada dos Países Baixos mostra que Rurrenabaque tem 32 hotéis, 25 agências de viagem e 16 centros gastronômicos, além de centenas de operadores capacitados para oferecer a melhor qualidade em serviços. 90% de sua população está ligada a alguma atividade turística.
Como afirma o prefeito Yerko, "a melhor forma de fazer turismo é cuidando a natureza, usando de forma sustentável a flora e a fauna". Ele salienta a importância de novos investimentos que resultem em uma melhor qualidade de vida para a população. "Hoje somos o terceiro destino mais importante do país", afirma. Ele reconhece que este é o resultado de um trabalho de longo prazo feito com grande esforço por muitas pessoas. "Rurrenabaque é um exemplo de crescimento e desenvolvimento que deve ser seguido pelo país, resultado de acordo entre a população, autoridades, instituições privadas, públicas e demais organizações", complementa Alcides Santalla, proprietário da agência Bala Tours.
A riqueza da região
Rurrenabaque é um lugar abençoado com uma exuberante natureza, rica em biodiversidade, cultura e paisagens. Por esse motivo, a cada ano atrai mais turistas que querem adentrar a Amazônia boliviana, conhecer e compartilhar a cultura indígena (quatro são os grupos étnicos presentes na região: Tsimanes, Mosetenes, Tacanas e Esse-Ejja) e ver animais em seu habitat natural.
Diversa é a oferta para quem chega à Rurre, desde visitar a selva amazônica, característica por ser um bosque úmido com uma variada e densa vegetação de árvores centenárias, cipós, samambaias e palmas, refúgio perfeito para uma ampla variedade de insetos, aves e mamíferos, até chegar às pampas, planícies com vegetação baixa e escassa acompanhada por rios, lagoas e pântanos de onde se observam botos, jacarés, tuiuiús, garças e, com sorte, sucuris.
Em Rurre também podemos conhecer, por exemplo, seu Eusebio Porco, um quéchua que chegou desde a fria e distante Potosí para entrar na cálida e úmida floresta com o objetivo de "sobreviver de qualquer jeito e cultivar o que se pudesse comer e vender", afirma. Foi assim que começou a implementar sistemas agroflorestais em seu terreno, alternando a produção de cítricos, cacau e palmito para logo trabalhar com porcos, vacas, abelhas e peixes, "respeitando a Pachamama (Mãe Terra), como me ensinou minha cultura quéchua", explica. Hoje ele faz parte do projeto Turismo Ecológico Social (TES), um programa turístico que possibilita conhecer de perto a vida diária de comunidades indígenas e colonas que trabalham sustentavelmente com os recursos naturais da região, como folhas de palma na confecção de artesanato, frutas amazônicas para produzir licores e doces e madeira para fabricação de móveis.
Pelas comunidades indígenas
As comunidades indígenas que vivem dentro do Parque Nacional e Área Natural de Manejo Integrado Madidi e da Pilón Lajas também se somaram à carreira turística. Só no Madidi, em seus 1.880.996 hectares existem mais de 1875 espécies de plantas vasculares, 1370 de vertebrados, 220 de mamíferos e 917 de aves registradas. E no meio desta enorme biodiversidade é onde está localizado o Eco Lodge Chalalán, uma iniciativa comunitária com o apoio de Conservação Internacional (CI) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), situado na comunidade quéchua tacana de São José de Uchupiamonas. Em Chalalán, ao lado do lago do mesmo nome, são oferecidas visitas guiadas por indígenas em trilhas temáticas, interpretação da selva, além de observação de aves e animais. Outro empreendimento indígena ainda no Madidi é São Miguel del Bala, uma comunidade de origem tacana que oferece a seus visitantes a oportunidade de estar junto à comunidade para viver uma experiência cultural rodeada de natureza.
Por sua vez, a RB-TCO Pilón Lajas conta com aproximadamente 400 mil hectares, com sua biodiversidade representada em 73 espécies de mamíferos, 485 de aves, 103 de peixes, 58 de répteis, 36 anfíbios, além de quase 162 de árvores. E é aqui onde também floresce o turismo comunitário indígena, na comunidade tacana de Asunción del Quiquibey, com o projeto Mapajo, onde é possível realizar visitas às áreas de maior diversidade cultural e biológica da área protegida, observação de aves e mamíferos e de se aproximar das tradições milenárias da comunidade.
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