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Rumo à potência verde

Veja, Entrevista, p. 19, 22-23
Autor: MITTERMEIER, Russell
13 de Out de 2010

Rumo à potência verde
O primatólogo, Russell Mittermeier, aposta que o Brasil será o primeiro país do mundo a virar colosso econômico sem destruir a natureza e diz que a votação de Marina Silva é sinal disso

Entrevista: Russell Mittermeier

André Petry, de Washington

Russell Mittermeier estava embrenhado nas matas de Madagáscar gravando um programa de televisão sobre primatas para a BBC inglesa quando recebeu a notícia de que a candidata a presidente do Brasil pelo Partido Verde recebera quase 20% dos votos. "Os brasileiros estão mandando um recado para o mundo", festejou o primatólogo. Para ele, a votação expressive de Marina Silva pode ajudar a transformar a agenda ecológica em tema nacional. Mittermeier, 60 anos, comanda a Conservation International, uma das mais competentes organizações ambientais do mundo, e sempre que pode abandona o escritório para se meter nas fl orestas do Brasil, Suriname e Madagáscar. Ele já identifi cou doze espécies (três tartarugas, três lêmures e seis macacos amazônicos). Fala seis idiomas, incluindo o sranan, lingual crioula do Suriname, e o português.

Qual é a importância de uma candidata com consciência ecológica chegar perto dos 20% numa eleição presidencial?

É uma coisa fantástica. Os brasileiros estão mandando um recado para o mundo, dizendo que reconhecem o meio ambiente como base para o desenvolvimento sustentado. É sensacional, sobretudo porque não estamos falando de uma nação qualquer. Além de ser uma potência emergente, o Brasil é dono da maior biodiversidade do planeta.

O senhor acredita nisso mesmo sabendo que em boa parte os votos dados a Marina Silva não foram votos ecológicos?

É ainda melhor. Marina é mais do que uma candidata verde. Ela tem um capacidade rara entre políticos, que é a habilidade de falar para diversos públicos. Ela fala para os pobres, para os povos da floresta, para os ricos. Sua base eleitoral, portanto, é mais ampla. Por isso, confesso que não fi quei surpreso com seu desempenho eleitoral. Com sua crescente influência política, ela pode fazer com que a agenda verde deixe de ser uma preocupação dos ecologistas e passe a ser um tema nacional, uma preocupação universal. Isso faz toda a diferença. Quando era senador, Al Gore fazia um excelente trabalho em defesa do meio ambiente. Ainda em 1988, ele me deu uma aula sobre mudanças climáticas no computador do seu gabinete no Senado. Fiquei impressionado. Mas, quando se tornou vice-presidente de bill Clinton, Gorecalou-se. Por quê? A agenda verde era um nicho, representava um segmento estreito, e Clinton provavelmente não queria ser carimbado como verde. era quase como ser carimbado como sectário. Quando Marina foi ministra do Meio Ambiente, enfrentou uma situação similar. ela fez o que pôde no contexto em que atuou e saiu quando viu que não podia fazer mais. Quando a agenda ecológica sai do nicho e passa a ser uma agenda nacional, é aí que a coisa avança. Marina está liderando tal avanço no brasil, e esse é um recado fundamental para o mundo. Agora, petistas e tucanos estão disputando o apoio de Marina para o segundo turno. Em termos de agenda ambiental, o que ela deveria exigir em troca? De imediato, que não haja mudança no Código Florestal brasileiro. É um código muito bom, mas há um projeto de lei circulando no Congresso para modificálo, reduzindo seu alcance. Se isso acontecer, será um retrocesso, e novas áreas de floresta serão destruídas.

O Brasil é um devorador de florestas?

O Brasil sofre críticas procedentes, porque tem problemas ambientais, mas é preciso reconhecer seus méritos. Nenhum outro país criou tantas áreas de proteção ambiental. Nem os Estados Unidos. Até o início da década de 70, o Brasil não tinha nada nesse terreno. Lembro que no departamento de parques do antigo Instituto Brasileiro de Sesenvolvimento Florestal contava com apenas duas pessoas, Alceo Magnanini e Maria Tereza Jorge Pádua, que até hoje fazem um excelente trabalho. Em 1973, foi criada a Secretaria especial do Meio Ambiente, cujo titular era Paulo Nogueira-Neto, um sujeito fantástico que começou a criar estações ecológicas. daí em diante, o negócio deslanchou. Hoje, o brasil tem áreas de proteção ambiental nas esferas federal, estadual e até municipal.

Veja, 13/10/2010, Entrevista, p. 19, 22-23

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