CB, Opinião, p. 12
05 de Nov de 2007
Roubo de água
Poucos temas são tão sensíveis na atualidade quanto a água. A causa da relevância reside na soberana lei da oferta e da procura. Registra-se crescente escassez do bem nos cinco continentes - fato que preocupa governos e exige estratégias de sobrevivência para o futuro próximo e distante. Não é outra a razão por que especialistas afirmam que o petróleo do século 21 seria o pivô da terceira guerra mundial na hipótese de o conflito eclodir.
O espectro da falta do insumo assombra vários países. O Brasil não foge à regra. Embora concentre 12% da água doce do mundo - privilégio que o coloca no pódio do ranking da disponibilidade de recursos hídricos em bacias fluviais -, várias cidades impõem aos moradores cortes regulares no fornecimento de água. Valem os exemplos de São Paulo e Recife. Ali, como na maior parte das metrópoles, poluição, crescimento desordenado e uso inadequado comprometem o recurso.
O Distrito Federal vive a realidade assustadora com crescente apreensão. Em 47 anos, o meio ambiente desta região de Goiás sofreu profundas e rápidas mudanças. Construiu-se a capital em menos de meia década. As cidades em torno pipocaram. Sem planejamento e sem política responsável de ocupação do solo urbano, invasões e loteamentos explodiram com desenvoltura. A população cresceu desordenadamente.
Com ela, derrubaram-se árvores, ocuparam-se margens de rios e córregos, espalhou-se o asfalto, disseminou-se o calçamento. A natureza cobra o preço. O período da seca se amplia ano após ano. Em 2007, foram quase cinco meses sem chuvas. Outubro deste ano foi o terceiro mês mais seco desde a construção de Brasília. É nesse período dramático, em que a água escasseia, que se registra o roubo despudorado do bem em córregos e nascentes já ressentidos pela longa estiagem.
Caminhões-pipa para captação de água precisam abrir caminho pela destruição da mata ciliar a fim de ter acesso às correntes fluviais. O Córrego do Bananal, às margens da Estrada Parque Indústria e Abastecimento, e o Córrego do Palha, localizado próximo ao Varjão, são vítimas constantes dos ladrões do patrimônio público. O bem destina-se ao abastecimento de residências, limpeza do cemitério, rega de canteiros de flores. É preocupante que a obtenção irresponsável do insumo ponha em risco a sobrevivência de animais, aí incluído o homem, e vegetais.
Providências urgem. Impõe-se definir regras claras para a captação de água com caminhões-pipa em córregos e riachos do DF. Só com estudos técnicos pormenorizados tornar-se-á possível avaliar os locais, a quantidade e a época do ano em que a água pode ser retirada. Mais: é imprescindível desenvolver a consciência ambiental da população. Cônscios da responsabilidade, cidadãos serão auxiliares do Estado na conservação do meio ambiente.
CB, 05/11/2007, Opinião, p. 12
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