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Rota dos grãos, BR-163 espera por mudanças

OESP, Economia, p. B4-B5
01 de Dez de 2013

Rota dos grãos, BR-163 espera por mudanças
Trecho arrematado em leilão é retrato do caos logístico no País

LUIZ GUILHERME GERBELLI / TEXTOS , WERTHER SANTANA / FOTOS , ENVIADOS ESPECIAIS A CUIABÁ

O prejuízo causado pela esburacada rodovia BR-163, em Mato Grosso, está visível nas margens da estrada, repletas de grãos de milho e soja que caíram dos caminhões. Mas o asfalto ruim é apenas um problema entre muitos enfrentados pelos motoristas. A estrada também é mal sinalizada, possui poucos postos de serviços - os existentes estão distantes uns dos outros -, falta acostamento e os trechos duplicados são curtos, o que obriga os veículos a disputar pequenos espaços ao longo da via.

A rodovia de tráfego intenso se transformou num desses exemplos clássicos que dão o tom dramático do caos logístico brasileiro: o investimento em infraestrutura não acompanhou o crescimento econômico do País.

A BR-163 - na qual o Estado percorreu o trecho entre Cuiabá e Nova Mutum - foi fundamental para desbravar o Centro-Oeste no passado, e hoje se tornou a principal via para escoar a safra de grãos de Mato Grosso, Estado brasileiro líder na produção. No ano passado, 70% da produção de grãos mato-grossense chegou aos portos de Paranaguá, no Paraná, e Santos, em São Paulo, pela rodovia, o que equivale a aproximadamente 33 milhões de toneladas. O que não passa por essa estrada deixa a região por Goiás ou Rondônia. Com o aumento da produção nos últimos anos, os problemas logísticos ficaram evidentes, e a rodovia até travou. Entre fevereiro e abril, no auge da colheita da safra, os engarrafamentos se tornaram constantes.

"Em determinados momentos do ano, a rodovia fica intrafegável em alguns pontos, como no posto Gil (na cidade de Diamantino), que marca o entroncamento das rodovias BR-364 e a BR-163. Em épocas de safras, vira um congestionamento só", afirma Seneri Paludo, diretor executivo da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). "E, de uma maneira geral, essa rodovia é extremamente perigosa."

O perigo, aliás, é lembrado com as cruzes ao longo da rodovia e, quando narrado pelos caminhoneiros, até deixam os problemas logísticos em segundo plano. "Quando passo pela estrada vejo no mínimo três acidentes. Já perdi muitos amigos", afirma o caminhoneiro Mario Sachi, de 36 anos.

Novo começo. O cenário caótico deixa claro que algo precisa ser feito na BR-163, até porque a tendência é de aumento na produção de grãos, pelo menos na safra 2013/2014. Espera-se que a mudança tenha começado na quarta-feira passada, quando a rodovia foi leiloada pelo governo federal.

Como resultado do leilão, a Odebrecht Transport, braço do Grupo Odebrecht para a área de logística, conquistou o direito de explorar o trecho da divisa de Mato Grosso Sul até Sinop (ver mapa) por 30 anos. A empresa ofereceu um deságio de 52% em relação ao preço da tarifa-teto oferecida pelo governo, de R$ 5,50. O trecho concedido tem a extensão de 850,9 quilômetros e vai passar por 19 municípios de Mato Grosso. A Odebrecht terá a obrigação de duplicar aproximadamente 500 km. O restante está sendo feito pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

As melhorias estão em andamento. "A nossa obra vai melhorar o escoamento, o fluxo de veículos e trazer grandes benefícios para o nosso custo Brasil de logística", afirmou Renato Mello, diretor de Rodovias da Odebrecht Transport, que representou a empresa, após o resultado do leilão, na quarta-feira.

A expectativa dos produtores é que outras obras de extensão da rodovia BR-163, nos trechos que não foram concedidos, também ajudem a melhorar o escoamento das futuras safras. O trecho da BR-163 de Mato Grosso do Sul tem leilão marcado para 17 de dezembro. O Dnit também faz obras de pavimentação na parte da rodovia que sai de Sinop e vai até Santarém, no Pará.

A saída para o Norte tem sido apontada como estratégica pelos produtores da região de Mato Grosso. Uma das alternativas em estudo é seguir até a cidade de Itaituba, no Pará, onde estão sendo construídos terminais fluviais, e de lá levar os produtos de barcaça até os portos de Vila do Conde, no Pará, e Santana, no Amapá, por exemplo.

"A expectativa do setor é que os projetos de exportação pelo setor norte sejam viabilizados", afirma André Debastiani, sócio e analista da Agroconsult. "Mato Grosso será o Estado que terá a maior expansão agrícola do País, sem dúvida alguma. Então, os volumes produzidos devem aumentar ainda mais, dando cada vez mais importância para opções de escoamento alternativas porque as tradicionais já estão esgotadas", diz Debastiani.

Motoristas esperam que cobrança de pedágio acabe com os buracos

A cobrança do pedágio na estrada BR-163, em Mato Grosso, não enfrenta tanta resistência dos motoristas que trafegam pela rodovia. Com deságio de 52% em relação a preço tarifa-teto proposta pelo governo para a realização do leilão, o preço médio estabelecido foi de R$ 2,64 para cada 100 quilômetros. A cobrança só poderá feita depois que a Odebrecht - empresa vencedora da disputa - concluir 10% da duplicação da quilometragem arrematada.

De acordo com dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o trecho concedido de 850,9 quilômetro terá nove postos de pedágio ao todo. Os locais deles já foram definidos e vão ficar instalados nas cidades de Itiquira, Rondonópolis, Campo Verde/Santo Antônio de Leverger, Cuiabá/Santo Antônio de Leverger, Acorizal/Jangada, Diamantino, Nova Mutum, Lucas do Rio Verde e Sorriso. O valor mais barato dos postos foi estimado em R$ 2,10 e o mais caro em R$ 3,60.

"Os buracos na estrada BR-163 são o pior pedágio que pode existir atualmente. Se tudo isso resultar numa rodovia, com eficiência muito maior, com qualidade acima da atual e totalmente duplicada, por exemplo, o pedágio nesse caso não vira um custo, mas um investimento", afirma Seneri Paludo, diretor executivo da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). "Faz 30 anos que a gente aguarda uma melhoria na rodovia. O que a gente acredita agora é que, com esse processo de privatização, as coisas aconteçam e a qualidade possa melhorar", afirma Paludo.

O caminhoneiro Mario Sachi, de 36 anos, não se opõe à cobrança do pedágio, por enquanto. Na quinta-feira, por conta do mau estado da pista, tinha conseguido andar pouco. Saiu às 9 horas de Lucas do Rio Verde, e depois de três horas dirigindo ainda estava em Nova Mutum. "Na BR-163, só faço 500 quilômetros por dia. Em outros lugares, chego a 700 quilômetros no dia", diz. "Um pedágio aqui pode significar uma pista duplicada em boa parte da rodovia", afirma Sachi.

Na opinião de Luiz da Silva, de 33 anos e há dois trabalhando como caminhoneiro, se um pedágio ajudar na melhora da qualidade da pista, ele pode ser bem-vindo porque a possibilidade de acidentes vai diminuir. "Todo dia a gente vê acidentes", afirma.

Diferenças. As diferenças entre a principal estrada de Mato Grosso e as de São Paulo são gritantes, na avaliação de Marcio Lazaro. Ele mora em São Paulo, já foi caminhoneiro e atualmente é dono de caminhões que transportam grãos da região.

"Em alguns casos, a cobrança em São Paulo é um pouco excessiva, mas aqui seria bom se tivesse pedágio. Iria melhorar a qualidade da estrada", diz. "Em São Paulo, as pistas são duplas, tem mais conforto para dirigir. Mas faz 30 anos que passo por aqui, e a BR-163 continua praticamente a mesma coisa", afirma Lazaro.

Além do pedágio, o motorista Mauro Alves Viera, de 60 anos, defende a colocação de novos radares ao longo da rodovia para evitar os excessos de velocidade. "Tem muita gente apressada que acaba causando os acidentes", relata ele, que se refere aos poucos trechos de pista duplicada, o que obriga os motoristas a se arriscarem no momento da ultrapassagem.

Obras. O cronograma de exploração da rodovia também prevê que até o quinto ano será preciso implantar vias marginais em travessias urbanas, passarelas urbanas e também melhorias no acesso. De acordo com a ANTT, a cidade de Rondonópolis também deve ganhar um contorno de 10,9 quilômetros.

Produção de grãos em Mato Grosso deve crescer até 6%

A produção de grãos em Mato Grosso deve aumentar na safra 2013/2014 na comparação com a anterior (2012/2013), segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A estimativa de alta varia de 4% a 5,9% para o Estado, o que deve significar aumento de 47,7 milhões de toneladas de grãos para 48,5 milhões de toneladas. No Brasil, o crescimento deve ficar entre 3% e 5,3%.

A previsão de uma safra maior para o Estado indica que a demanda por infraestrutura será elevada para garantir um escoamento completo dos produtos.

O aumento da produção mato-grossense deve ser puxado principalmente pela soja. A estimativa da Conab de alta para a produção da commodity varia de 7,5% para 10,6%. "A soja ainda está bastante capitalizada", afirma Fabio Silveira, diretor de Pesquisa Econômica da consultoria GO Associados. No País, o aumento da produção da soja esperado é de 7,8% a 10,7%.

No caso do milho, a produção na safra 2013/2014 tende a cair em relação à safra de 2013/2012. O recuo, segundo o órgão, deve ficar entre 1,1% e 5% em Mato Grosso - no País a previsão para o recuo é de 3,4% a 7,3%. O milho perdeu a atratividade por causa do aumento dos estoques. "O Estado de Mato Grosso vai ser prejudicado pela queda do milho, mas, como a soja tem um peso expressivo, o saldo continua sendo positivo", diz Silveira.

Para ele, o ano não será desesperador para os produtores de milho por causa do bons resultados da última safra. "Mas tem de ser acompanhado com cuidado. Se na safra 2014/2015 o milho continuar com o preço baixo, a safra do ano subsequente pode ser ruim", diz Silveira.

Na safra atual, o plantio já foi praticamente encerrado. De acordo com Seneri Paludo, diretor executivo da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), o plantio foi concentrado num prazo de três semanas no Estado, o que pode trazer um risco para a época da colheita. "Fica uma preocupação com relação ao frete curto. No período da colheita, todo mundo vai precisar de caminhão ao mesmo tempo para transportar das lavouras até os armazéns", diz. "Além disso, no caso da chuva, se ele se alongar, pode ter um excesso de perda na colheita", afirma Paludo. "Mas, de qualquer forma, estamos com uma boa safra e ela vai bem."

A expectativa do diretor de Pesquisa Econômica da consultoria GO Associados é que o preço das commodities - como milho e soja - não tenha uma alta. "Se tivermos uma redução dos estímulos monetário (nos Estados Unidos), isso pode prejudicar a soja e impedir definitivamente que o milho possa ter uma recuperação de preço em 2014."

Área. A estimativa da Conab é que a área plantada também avance tanto em Mato Grosso como no País. No Estado, ela deve aumentar de 3,1% a 5,3%, para 12,9 milhões de hectares. No País, o crescimento estimado é de 2% a 4,2%, para 55,5 milhões de hectares.

OESP, 01/12/2013, Economia, p. B4-B5

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