O Globo, O Pais, p.8
01 de Dez de 2003
Roraima: suborno era embrulhado em jornalRodrigo França TavesEnviado especialBOA VISTA. Os deputados estaduais envolvidos no esquema dos gafanhotos em Roraima chegaram a pegar duas vezes a propina pessoalmente e em dinheiro vivo, antes de indicar procuradores para receber em nome deles o dinheiro oficialmente destinado ao pagamento dos servidores fantasmas. Os deputados recebiam pacotes de dinheiro e enfiavam os maços de cédulas dentro da roupa ou enrolavam os pacotes em folhas de jornal. As pilhas continham entre R$ 22 mil e R$ 42 mil para cada deputado, em cédulas de R$ 50, R$ 10 e R$ 5. Os detalhes foram revelados no depoimento de Maria do Livramento Alves Ferro, conhecida como Lia Ferro, ex-gerente de Recursos Humanos do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) de Roraima, a responsável por fazer os pagamentos. Com base no depoimento dela, a Polícia Federal descobriu que o primeiro pagamento da propina oferecida pelo ex-governador Neudo Campos foi realizado na casa do deputado Jalser Renier Padilha, que só não foi preso porque exerce mandato e tem imunidade parlamentar. O segundo pagamento foi feito numa marcenaria do ex-deputado Homero Neto, que está preso. Deputados indicavam o número de gafanhotos Lia Ferro foi encarregada de fazer os pagamentos pelo ex-diretor geral do DER Carlos Eduardo Levischi, que diz ter recebido diretamente do então governador, Neudo Campos, as ordens de pagar a propina aos deputados. Os deputados indicados por Neudo apresentavam à gerente do DER o número de gafanhotos (servidores usados como laranjas) para alcançar a cota de propina estipulada pelo ex-governador. A ex-gerente do DER disse ao GLOBO que o governador Flamarion Portela (PT), que exercia o cargo de vice-governador de Neudo quando o esquema começou, sabia do pagamento da propina aos deputados desde o início. E dizia não concordar, por achar alto demais o preço pago pelo apoio político do grupo ao governo nas votações da Assembléia Legislativo. Mesmo assim, segundo Lia Ferro, Flamarion autorizou o repasse de verbas ao DER para o pagamento de gafanhotos todas as vezes que Neudo estava viajando. Flamarion voltou a assegurar que não tem nenhum envolvimento pessoal no escândalo dos gafanhotos e que só soube do escândalo depois que ele foi noticiado pela imprensa, pouco antes das eleições de 2002. Ele diz que herdou o esquema da gestão de Neudo Campos e acabou com o pagamento aos gafanhotos. Ontem, o juiz Helder Barreto, da Justiça Federal, decretou a prorrogação da prisão temporária dos acusados por mais cinco dias. A Polícia Federal continua ouvindo os presos, mas Neudo Campos só deverá ser chamado para prestar depoimento na quarta-feira. Ministério Público deve pedir prisão de secretários O Ministério Público Federal estuda agora pedir a prisão temporária de três dos quatro secretários de estado que foram demitidos por Flamarion na última sexta-feira e perderam a prerrogativa de foro. Com medo de ser presa, a ex-chefe do Gabinete Civil, Diva Briglia, entregou documento aos procuradores dizendo-se à disposição para prestar esclarecimentos e pedindo para, caso seja presa, não ser algemada nem exposta a fotografias. Mais quatro acusados com prisão temporária se apresentaram à PF e foram presos. Lia Ferro disse que recebiam a propina, além dos ex-deputados que já estão presos, o atual presidente da Assembléia Legislativa, Antônio Mecias Pereira de Jesus, e os atuais deputados Maria Luiza Campos, Urzenir da Rocha Freitas Filho, Paulo Sérgio Ferreira Mota, Célio Vanderley, Raul Prudente de Moraes, Francisco Sales Guerra Neto, e além dos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado Marcos Holanda e Henrique Machado e a ex-secretária estadual Vera Regina Guedes Silveira. Ao todo, a ex-gerente do DER pagou propinas entre R$ 22 mil e R$ 42 mil para cerca de 20 deputados e outras autoridades.
LIA FERRO Eles tinham vergonha de ficar parados lá com aquele dinheiro.BOA VISTA. O depoimento de Maria do Livramento Alves Ferro, de 39 anos, ex-gerente de Recursos Humanos do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) de Roraima, é considerado pela Polícia Federal um dos mais importantes mais descobrir o escândalo dos gafanhotos. Lia Ferro, como é conhecida, foi a pessoa encarregada de fazer pessoalmente os pagamentos de propina aos deputados e ex-deputados estaduais, a mando do ex-governador Neudo Campos. Onde a senhora fazia os pagamentos aos deputados? LIA FERRO: O primeiro pagamento foi feito na casa do deputado Jalser Renier. A (empresa) Nsap levou o dinheiro em espécie num malote de banco. O dinheiro foi dividido lá. Eu tinha a relação dos deputados e somava o valor de cada um, já com os descontos. E a senhora divida em envelopes? LIA: Não tinha envelope não. Uns deputados enrolavam em papel que tinha no escritório, outros enrolavam em folha de jornal, outros metiam na camisa. Da segunda vez, o pagamento foi feito em espécie? LIA: Em dinheiro também, mas a maioria já mandou assessores. Algum pagamento foi feito na Assembléia Legislativa? LIA: Esse primeiro pagamento deveria ter sido feito lá. Depois, o deputado Jalser me procurou para dizer que o pagamento seria feito na casa dele. Os deputados conferiam a quantia? LIA: Não. Acho que eles tinham vergonha de ficar parados lá com aquele dinheiro. E não tinha como errar, porque o caixa conferia na presença recebesse. Eles comentavam alguma coisa naquele momento? LIA: Não. Era meio constrangedor e eu procurava ficar quieta, só resolvia os problemas. Os deputados ficavam batendo papo lá fora na varanda e entravam de um por um. Um deputado sabia quanto o outro recebia? LIA: No dia ninguém soube não. O grupo de R$ 22 mil achava que todo mundo recebia R$ 22 mil. Fui orientada a não comentar nada, para evitar que eles soubessem que uns ganhavam mais e outros menos. Eles sabiam que iriam receber pacotes de dinheiro? LIA: Se estivessem esperando, teriam ido com uma bolsa. A fisionomia era de surpresa. Às vezes não havia cédulas de R$ 50 e juntava um montão de dinheiro para dar R$ 20 mil. Quem orientava a senhora? LIA: Tudo foi transmitido pelo Carlos Eduardo Levischi (ex-diretor do DER). Os deputados assinavam recibos? LIA: Ninguém assinava nada na hora. Eles tinham que levar embora os canhotos para os gafanhotos assinarem e entregar no banco ( a Nsap). O próprio ex-governador Neudo tratou deste assunto? LIA: Comigo não, ele só tratava com o Levischi. Sei que foi ele quem deu as ordens, porque no dia que o pagamento atrasou, alguns deputados ficaram zangados e disseram: Eu vou falar com o Neudo, porque não posso receber só isso aqui. E o governador Flamarion também participava? LIA: Ele chegou a mandar bilhetinhos para contratar gente para trabalhar, mas não para servir de gafanhoto. Nenhuma vez lembro de ter feito pagamento de gafanhoto por ordem dele. Mas ele sabia o que estava acontecia? LIA: Sabia... Sabia e não gostava, pelo que me consta. Ele achava que era dinheiro demais gasto à toa. Só que não acabou com aquilo quando virou governador. Viu que era um beco sem saída. Levischi disse em depoimento que nas ausências de Neudo, Flamarion autorizava o pagamentos dos gafanhotos. LIA: Isso é verdade. Quando o Neudo se ausentava, quem tinha de assinar era o governador em exercício. ( R.F.T. )
Flamarion vai ser processado por fraude com verbas para segurançaBOA VISTA. O governo de Roraima comandado por Flamarion Portela (PT) será processado por fraude no uso de verbas da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) destinados à compra de veículos para as polícias do estado. A Polícia Federal e o Ministério Público encontraram provas de que o governo do estado simulou uma licitação, aceitou notas fiscais falsas por veículos que não foram entregues e comprou 14 carros de polícia a preços superfaturados. A fraude foi cometida no primeiro semestre e o principal acusado é o secretário estadual de Administração, Waldemar Paracat, mantido no cargo por Flamarion após a descoberta do escândalo e demitido apenas na sexta-feira, quando o governador foi informado do teor das reportagens feitas pelo GLOBO denunciando o esquema. Portela disse que mandou abrir sindicância para apurar as irregularidades e que enviou o resultado da sindicância à Procuradoria Geral do Estado para que determine as providências a serem tomadas. Segundo ele, o resultado da sindicância confirmou que os preços foram superfaturados e que houve negligência de servidores que receberam as viaturas policiais. Essa investigação é mais uma prova da história de rapinagem no estado. Foram constatados desvios de recursos da saúde, das obras viárias, da segurança pública. Uma grande organização criminosa administra todos esses recursos disse o promotor de Justiça Luiz Antônio Araújo de Souza, do Ministério Público do Estado. Há provas de que oito caminhonetes S-10 de cabine dupla foram compradas por R$ 35.675 cada pela empresa fornecedora, a Motoka Veículos e Motores Ltda, e repassadas ao governo de Roraima por R$ 75 mil, ou seja, mais de 100% de superfaturamento (R$ 600 mil, contra o total anterior de R$ 285,4 mil.) Já seis Blazers GM que custaram aos cofres públicos R$ 50 mil cada foram repassadas ao governo do estado, através de notas fiscais falsas, por R$ 89,6 mil. (Ou seja, o total quase dobra: R$ 537,6 mil contra os R$ 300 mil anteriores.) A Motoka, única participante da suposta licitação, vende apenas motocicletas Yamaha. A concessionária da General Motors em Boa Vista sequer foi convidada a oferecer seus preços. Secretaria atestou ter recebido carros fantasmas A Motoka lançou nas notas fiscais números de chassis inexistentes, que correspondiam às especificações de outros veículos. O dono da empresa viajou a Manaus às pressas e comprou na concessionária Braga Veículos os carros especificados na licitação. O promotor obteve cópia das notas fiscais emitidas pela Braga Veículos em 23 de maio de 2003, embora a secretaria de Administração já atestasse o recebimento dos carros desde 22 de fevereiro.
O Globo, 01/12/2003, p. 8
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