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Roraima, a nova fronteira do álcool

OESP, Economia, p. B9
07 de Set de 2008

Roraima, a nova fronteira do álcool
Até 2015, serão 70 mil hectares plantados com cana e uma usina capaz de produzir 550 milhões de litros por ano

Roldão Arruda
Enviado especial
Boa Vista

Orgulhoso de seu trabalho, o fazendeiro Álvaro Callegari desliga o motor da picape e se põe a caminhar pelas largas avenidas do canavial. Num determinado momento, com gestos largos, chama a atenção do repórter para o aspecto saudável das folhas das plantas, para a modernidade do sistema subterrâneo de irrigação, mantido por poços artesianos, e também para os cuidados com o meio ambiente - especialmente com a vegetação à margem dos rios que cruzam a propriedade.
Um plantador de cana de São Paulo - o grande produtor do País - poderia achar exagerado o entusiasmo. Mas o caso de Callegari é compreensível. Afinal, ele está em Roraima, no extremo norte do País, e tem tudo para entrar para a história local como um pioneiro.
Seu canavial, dividido em duas áreas, num total 700 hectares, é na verdade um grande viveiro de mudas, que permitirá a expansão da cultura da cana-de-açúcar pelo Estado nos próximos anos.
É o primeiro passo para a implantação da primeira usina de produção de biocombustível do Estado, cuja construção deve começar em outubro, na longínqua Bonfim, cidade de 10 mil habitantes, cujo território faz fronteira com a Guiana.
Se tudo der certo, até 2015 Roraima terá 70 mil hectares plantados com cana e a usina produzirá 550 milhões de litros de álcool por ano. Trata-se de um volume mais que suficiente para abastecer o mercado de quase toda a Região Norte, que hoje depende do álcool importado do Sul e do Centro-Oeste.
As importações chegam hoje a 350 milhões de litros por ano. E o preço para o consumidor é pesado: o litro de álcool chega a R$ 2,10 nos postos de Boa Vista, quase o dobro do que se paga em São Paulo.
O principal mercado do álcool da nova usina será Manaus, a capital do Amazonas, que tem 1,7 milhão de habitantes e fica a 750 quilômetros de distância. Para um futuro mais distante, a vizinha Venezuela está na mira.
A usina terá um investimento inicial de R$ 280 milhões. Está sendo montada pela Biocapital, empresa paulista de capital fechado, que já possui uma usina em Charqueada, município da região noroeste do Estado, onde produz biodiesel a partir de sebo animal. A partir de 2010 também passará a processar ali grãos de plantas oleaginosas, oriundas de assentamentos da reforma agrária.
Há cerca de três anos, de acordo com Claudio Cavalcanti, superintendente do projeto de Roraima, a empresa decidiu investir na produção de álcool.
Após uma pesquisa inicial, que esbarrou no alto preço das terras em regiões canavieiras tradicionais, voltou a atenção para áreas mais distantes e com menor concorrência.
Foi assim que seus executivos chegaram a Roraima, cujo governo andava justamente procurando atrair investidores para um projeto de biocombustível. O secretário de Agricultura na época era Callegari, que se interessou pela presença da Biocapital no Estado e acabou se tornando seu parceiro.
O viveiro do qual ele se orgulha fica na Fazenda Livramento -uma propriedade de 4mil hectares, dos quais 2 mil podem ser utilizados para a agricultura e a pecuária. A outra metade é ocupada por áreas de reserva legal e de preservação permanente.
A fazenda fica no quilômetro (km) 15 da BR 401, que liga Boa Vista à fronteira coma Guina. A usina será erguida pouco adiante, no km 50. As mudas que estão sendo adaptadas para a região vieram de Mato Grosso do Sul. "Só decidimos levar adiante o projeto depois que as oito variedades testadas apresentaram excelente produtividade", diz Cavalcanti.
Para a usina começar a funcionar, em 2010, a Biocombustível vai plantar 7 mil hectares de cana, em parceria com Callegari. "Será possível fazer isso a partir do viveiro da Livramento", assegura Callegari. Numa etapa seguinte o projeto saltará para 25 mil hectares, em parceria com outros produtores.

Bagaço da cana será usado para produzir energia

O bagaço da cana da futura usina da Biocombustível, em Bonfim, no Estado de Roraima, quase fronteira com a Guiana, será aproveitado como biomassa para a produção de energia elétrica. Ela deverá servir tanto para o consumo próprio quanto para a venda no mercado estadual.
"Toda a energia consumida hoje no Estado vem de uma hidrelétrica da Venezuela", diz Claudio Cavalcanti, superintendente do projeto da Biocombustível.
"Nós pretendemos vender o máximo possível de nossa produção para a concessionária local."
Num Estado onde quase 60% do PIB gira em torno de verbas do orçamento pública, especialmente verbas federais, a usina da Biocombustível pode se transformar no maior empreendimento da iniciativa privada.

OESP, 07/09/2008, Economia, p. B9

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