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Roraima, índios e manipulações

JB, Fórum dos Leitores, p. A18
Autor: CAVALLEIRO, Henrique
25 de Jan de 2004

Roraima, índios e manipulações

A respeito dos recentes conflitos ocorridos em Roraima, motivando opiniões preconceituosas e desinformadas de certos leitores, gostaria de esclarecer algumas questões, baseado em minha modesta experiência de 15 anos atuando na questão indígena: o termo reserva indígena não é mais usado há muitos anos. 0 termo oficial é terra indígena. Roraima possui território similar ao do Estado de São Paulo (cerca de 250 mil km2), sendo que São Paulo tem mais de 30 milhões de habitantes, enquanto Roraima possui menos de 400 mil, 70% dos quais vivendo na capital, Boa Vista. Ou seja, mesmo com grande parte de seu território ocupado por terras indígenas e unidades de conservação, Roraima, em proporção, conta com muito mais espaço para acomodar e desenvolver sua população que São Paulo. Os índios macuxi, wapixana e outras etnias que ali vivem, já participam ativamente da economia local. Criam gado e comercializam produtos agrícolas. Procuram implementar projetos de desenvolvimento sustentável que tragam dividendos econômicos, sem agredir o meio ambiente nem desorganizar sua cultura. As elites políticas de Roraima especulam com terras, manipulam índios e garimpeiros, vivem envolvidas em escândalos (ver o caso dos gafanhotos) e não estão, de fato, preocupadas com o desenvolvimento harmônico da região. Querem apenas preservar um modelo superado e predatório, que detona o meio ambiente e concentra riquezas nas mãos da minoria. As terras indígenas, demarcadas pela Funai depois de autorização do Ministério da Justiça (e homologadas pelo presidente da República), não são propriedade privada dos índios. Pertencem à União, que, em obediência ao art. 231 da Constituição, lhes garante o uso exclusivo dos recursos naturais renováveis (fauna e flora). Já os minérios, também pertencem à União. Sua exploração ainda não está regulamentada, mas, pela Constituição, podem ser explorados seguindo uma série de critérios. As terras indígenas nunca impediram a construção de estradas, hidrelétricas ou qualquer outro empreendimento. Ao contrário, muitos povos indígenas sofreram em demasia com a destruição de seus territórios, em função dessas obras. Também é permitida a presença permanente das Forças Armadas e da Polícia Federal nessas terras. Pesquisadores nacionais ou estrangeiros só podem entrar em terras indígenas com autorização da Funai. Quanto a ONGs e missões religiosas, é preciso separar o joio do trigo. Em geral, os políticos conservadores atacam aquelas entidades que, de fato, apóiam os direitos indígenas, mas fazem vista grossa para missões evangélicas fundamentalistas que destroem a cultura indígena. Fazem também uma confusão dos diabos (com o perdão do trocadilho) entre biopirataria, roubo de minérios, ONGs e missões, numa generalização grosseira que só serve para desinformar a população. Por fim, imagens de satélite comprovam que as terras indígenas são as últimas ilhas de meio ambiente preservado, em meio à destruição alucinada promovida pelo tão aclamado agronegócio, que devasta o cerrado e a Amazônia, e expulsa os pequenos lavradores tradicionais para exportar soja, a qual é transformada em ração para porcos na Europa.

Henrique Cavalleiro, Brasília (DF), por e-mail

JB,25/01/2004, Fórum dos Leitores, p. A18

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