OESP, Internacional, p. A17
16 de Mai de 2010
Rodovia é chave para o futuro da Guiana
Empresários brasileiros querem pavimentar estrada que cruza ex-colônia britânica, mas país teme a intervenção do vizinho e impactos ambientais
Simon Romero, The New York Times
Um velho caminhão parou na beira da estrada. Garimpeiros entraram no bar de Peter Rajmenjan e perguntaram se ele não teria porco do mato para vender. "A única carne de caça que me sobrou é a de veado", respondeu Rajmenjan, de 55 anos, cujo estabelecimento fica no quilômetro 93 da principal estrada que corta a selva guianense.
Ela percorre mais de 480 quilômetros de Georgetown, capital da ex-colônia britânica, a Lethem, cidade em franco crescimento na fronteira com o Brasil. A estrada, muitas vezes intransitável, representa o futuro da própria Guiana. Investidores brasileiros querem pavimentar a rodovia, dando ao Norte do Brasil uma artéria moderna para exportar seus produtos.
Para a Guiana, o projeto traz riscos e recompensas. Muitos comparam o debate com uma batalha pela identidade da Guiana, nação dividida entre desejos concorrentes de explorar a economia global ou buscar um caminho ecologicamente sustentável para o desenvolvimento.
O presidente, Bharrat Jagdeo, um economista formado em Moscou, tem recebido aplausos por suas políticas de proteção florestal, mas seu governo também analisa empreendimentos bem menos ecológicos, como a extração de petróleo. Cerca de cem veículos por semana percorrem a estrada toda até Lethem, levando entre 12 horas ou dois dias, dependendo das condições do tempo. Os ambientalistas se preocupam com o impacto da estrada nas florestas. Estudos mostram que mais de 200 mil hectares serão afetados se a rodovia for pavimentada.
"Estradas asfaltadas em áreas tropicais causam desflorestamento, caça ilegal e atraem assentamentos", disse Graham Watkins, um biólogo e consultor sobre gestão de recursos naturais em Georgetown. Os que defendem a pavimentação reconhecem que haverá alguns transtornos, mas também dizem que ela poderá aliviar a pobreza da Guiana, país mais miserável da América do Sul, com renda per capita menor que a da Bolívia.
"Ao dormir com um vizinho que tem 200 vezes o seu tamanho, você sabe que ele pode não pretender, mas se rolar na cama pode ser o seu fim", disse Samuel Hinds, premiê da Guiana, refletindo o medo de o país ser engolido pelo Brasil. Hinds, porém, disse que pode apoiar o projeto desde consiga os US$ 350 milhões para financiá-lo.
OESP, 16/05/2010, Internacional, p. A17
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100516/not_imp552460,0.php
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