OESP, Cidades, p.C3
07 de Fev de 2004
Rodízio à vista. E paulistano não economiza Em um ano e meio com nível crítico nas represas, técnicos registram até alta no consumo
MOACIR ASSUNÇÃO e BÁRBARA SOUZA
Apesar de pelo menos seis meses de avisos por parte da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) de que os reservatórios de água estavam caindo a níveis excessivamente baixos, com risco de colapso no abastecimento e ameaça de racionamento, os índices de consumo pelos paulistanos não baixaram. As medições da Sabesp demonstram - ao contrário do que se poderia esperar - uma pequena variação para mais em alguns meses.
Segundo a companhia, desde julho do ano passado, quando se iniciou a divulgação dos níveis dos reservatórios com quedas históricas - como a verificada no Sistema Cantareira, que chegou a 1,5% de sua capacidade, o consumo da cidade se mantém estável. Em julho, o registro foi de 64.184,5 metros cúbicos, permanecendo em níveis muito semelhantes até setembro.
Em novembro, um mês depois do início do racionamento no Sistema Alto Cotia, foi registrada pequena redução. Em setembro, foram 64.644,3 metros cúbicos e, em novembro, 63.458,7 metros cúbicos. Cotia, com 440 mil atendidos, representa 2% do total dos consumidores dos sistemas que abastecem a capital.
Campanha - Somente em dezembro se iniciou a campanha Olha O Nível, promovida pela empresa para incentivar o uso racional da água, mas ainda não há dados sobre uma possível redução do consumo. Com isso, a capital paulista vive o paradoxo de ter água nas avenidas e inundando casas, mas faltando nos reservatórios. Para os especialistas, a única saída para a situação é urgente conscientização da população sobre a necessidade de economizar.
"É preciso fazer algo parecido com o que ocorreu na época do apagão, quando as pessoas aprenderam, na prática, que tinham de economizar energia", afirma o professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP Augusto José Pereira Filho. De maio de 2001 a fevereiro de 2002, período do racionamento, São Paulo chegou a registrar, segundo o diretor da Eletropaulo, Antoninho Borghi, uma redução de 26% no consumo. A meta do governo era uma redução de 20%.
A única saída, para Pereira Filho, é investir em educação ambiental. "O racionamento não é uma medida popular, mas tem o lado bom de ajudar a educar a população." Para o também professor Aldo Rebouças, do Instituto de Estudos Avançados da USP, a idéia de falsa abundância da água que o brasileiro tem desde a infância se origina em uma contraditória relação com o ambiente. Em carta ao rei d. Manuel, o escrivão Pero Vaz de Caminha, o primeiro a escrever sobre o Brasil, diz o seguinte, referindo-se à nova terra:
"...Águas são muitas, infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-à nela tudo, por causa da água que tem."
Gravidade - Um exemplo de comportamento que poderia ser seguido para conviver, de forma inteligente, com a escassez é o do consultor Vital Fogaça Balboni, que mora no Sumaré, zona oeste. Ele sofria com a falta de água e achava um absurdo usá-la para lavar carros e regar plantas. Por isso, criou um sistema inteligente para reuso. Com uma caixa d'água de 3 mil litros, reaproveita a água da chuva. "Uso apenas a gravidade. Quando a água cai no telhado, escoa pelas calhas e, por meio de canos, chega até a caixa", explica.
Sistemas Alto Cotia e Alto Tietê também têm risco de racionamento Nível dos reservatórios melhorou, mas ainda merece atenção, segundo a Sabesp
MAURO MUG
Não é só o reservatório da Cantareira que preocupa os técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Os Sistemas Alto Cotia e Alto Tietê correm o mesmo risco de enfrentar racionamento no período de estiagem, que vai de abril a setembro. "O foco da imprensa tem sido o Cantareira, mas a situação desses dois mananciais é preocupante", admitiu o engenheiro Paulo Massato, superintendente de Produção de Água da Sabesp.
O Guarapiranga também merecia atenção, mas as chuvas dos últimos dias trouxeram grandes precipitações. No dia de 26, o nível dessa represa, responsável pelo abastecimento de 3,5 milhões de pessoas, alcançava a marca dos 21,7%. "Estávamos preocupados, mas bastaram quatro chuvas fortes, com um total de 70,4 milímetros, para que o reservatório desse sinais de recuperação", disse Massato. "O nível subiu hoje (ontem) para 32,4%. Se chegar a 35% ou 40%, até o fim do mês, o risco de racionamento será eliminado completamente."
O Alto Cotia, em 26 de janeiro, estava com 11,6%, mas a sua bacia foi atingida nos últimos dias por chuvas de 85,5 milímetros, fazendo o nível alcançar 26,1%. "Melhorou muito, mas não está livre do racionamento", previu o superintendente. A média histórica neste mês é de189,5 milímetros. Esse reservatório abastece 380 mil habitantes de Cotia, Vargem Grande Paulista, Embu, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu.
O mesmo acontece com o Alto Tietê, responsável por fornecer água a 2,1 milhões de pessoas de bairros da zona leste de São Paulo e dos municípios de Arujá, Poá, Ferraz de Vasconcelos e Suzano. No dia 2, o manancial estava com 19,1%. Com as recentes precipitações, seu nível subiu ontem para 20,1%. "É impressionante. Do alto da Barragem de Taiaçupeba se observam as chuvas caindo em Mogi das Cruzes e Suzano, mas não chegam ao reservatório", afirmou Massato.
OESP, 07/02/2004, p.C3
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