O Globo, Economia, p. 23-24
08 de Mar de 2014
Risco de corte de energia
Setor estima necessidade de reduzir em 5% a 10% o consumo para enfrentar falta de chuvas.
RAMONA ORDONEZ, BRUNO ROSA,
DANIELLE NOGUEIRA, DANILO FARIELLO
E ROBERTA SCRIVANO
economia@oglobo.com.br
Com a geração de energia de hidrelétricas limitada, devido ao baixo volume de água em seus reservatórios, e a geração das usinas térmicas já em seu limite de capacidade (17 mil Megawatts), associações do setor elétrico já falam na necessidade de o país reduzir hoje entre 5% a 10% o consumo de eletricidade. No pior cenário, que incluiria o aumento da demanda por energia e a manutenção dos baixos níveis dos reservatórios, o corte no consumo seria inevitável. Com os reservatórios em nível crítico, o preço da energia no mercado livre tem subido muito. Para tentar neutralizar este efeito para as distribuidoras, no fim da noite, o governo baixou uma edição extra do "Diário Oficial" se comprometendo a bancar o impacto da alta no custo da energia.
- Há um déficit estrutural de oferta. Pela perspectiva de hoje, liá uma necessidade de cortar de 5% a 10% da carga (demanda). Mas essa é uma situação que pode mudar caso comece a chover. É importante esperar até o mês de abril, quando acaba o período de chuvas. Estamos com muitos problemas na oferta - disse Reginaldo Medeiros, presidente da Associação Brasileira de Comercializadores de Energia (Abraceel), uma das 15 associações do setor elétrico que encaminharam na última quinta-feira carta ao ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, pedindo maior diálogo sobre a situação.
SEM PREVISÃO DE CHUVA
A previsão do tempo para os próximos meses não é animadora. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão ligado ao Ministério da Agricultura, entre a próxima quarta-feira, 12 de março, e o fim de maio não há a previsão de cair uma gota sequer d'água em Minas Gerais e São Paulo, onde estão os principais reservatórios das hidrelétricas. Junho, por sua vez, é um mês historicamente seco, com média de chuva de 9 milímetros (contra 200 mm de março). O período úmido só recomeça na segunda quinzena de setembro.
- Infelizmente, a situação a médio e longo prazo é muito preocupante. Nunca vi uma seca assim - afirmou Expedito Rebello, chefe da meteorologia do Inmet que trabalha no órgão há 32 anos.
No último dia 6, o nível de reservatórios do Sudeste/Centro Oeste estava em 34,68%, próximo ao do racionamento de 2001. Se o regime de chuvas se mantiver como o atual, esse nível terá variado pouco ao fim de abril: 35,4%, nas previsões do especialista em energia Adilson Oliveira, do Instituto de Economia da UFRJ. O percentual ficaria abaixo do limite de segurança para o mês, de 44%, que havia sido previsto pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) no ano passado. O li-mite de segurança, determinado pela chamada curva de aversão ao risco, era um parâmetro usado pelo ONS, mas foi abandonado em meados de 2013.
Se estivesse em vigor, o limite de segurança para os reservatórios do Nordeste seria de 48% no fim de abril, segundo Oliveira. Mas mantendo-se a trajetória de chuvas atual, ele ficará em 43% no fim do mês que vem. Em 6 de março, estava em 42,09%.
- Se o Sudeste entrar em colapso, o sistema como um todo entra em colapso - afirma Oliveira.
Medeiros, da Abraceel, lembra que as térmicas estão operando atualmente muito perto de sua capacidade, situação que já se estende por 18 meses e que deve permanecer por todo o ano de 2014. As térmicas funcionam como um colchão de segurança no setor elétrico brasileiro, sendo acionadas sempre que os reservatórios baixam.
- Estava prevista a entrada em operação de 8 mil MW (de térmicas) entre 2011 e 2013 e não entrou nada no sistema por atrasos nas obras. Se tudo planejado entrasse no sistema, o sistema estaria em equilíbrio - disse Medeiros.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine) - que também assinou a carta ao ministro Lobão -, Luiz Fernando Vianna, lembra que, no caso de aumento do consumo, não há mais capacidade térmica para elevar a oferta. Ainda assim, ele não vê a situação como crítica.
30% DAS TÉRMICAS NÃO SAEM DO PAPEL
Segundo o relatório de fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de fevereiro, foram autorizados pela agência 33 projetos de térmicas, totalizando capacidade de 6.942,81 MW. Essas usinas entrariam em operação até 2020. No entanto, um terço dessa potência, ou 2341,90 MW, não tem previsão de sair do papel devido a "graves restrições" incluindo problemas de licenciamento, ações na Justiça ou dificuldades financeiras dos empreendedores. Seis dos projetos sem previsão de virar realidade na avaliação da Aneel são do grupo Bertin. A empresa assegura, porém, que as usinas ficarão prontas este ano.
No pior dos cenários, o presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace) - que também assinou a carta - Paulo Pedrosa, disse que seria possível reduzir a carga de energia em 5% com ações de racionalização.
- Há risco de racionamento, sim, no Brasil. Mas isso é um risco inerente ao setor elétrico que sempre trabalhou com isso. Caso contrário, teríamos que ter o dobro de usinas térmicas instaladas, o que custaria caro. É possível reduzir em 5% a carga sem maiores traumas.
Tesouro assume R$ 1,2 bilhão de custos das usinas térmicas
Danilo Fariello
Martha Beck
BRASÍLIA - Diante de um cenário preocupante de custos crescentes das distribuidoras do setor elétrico, os ministérios de Minas e Energia e da Fazenda anunciaram nesta sexta-feira que o Tesouro Nacional fará aporte imediato de R$ 1,2 bilhão na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para "neutralizar despesas" referentes a janeiro, que deveriam ser quitadas na terça-feira. O valor cobre só parcialmente gastos com o uso intensivo de energia térmica e a compra de energia a curto prazo, mais cara e decorrente da falta de contratos de fornecimento de energia a longo prazo.
Ainda na noite desta sexta, em edição extra do "Diário Oficial da União", o governo publicou o Decreto no 8.203, deixando claro que os recursos da CDE também se destinam à cobertura dos custos extras das distribuidoras com a contratação de energia de curto prazo no mercado livre pela falta de oferta disponível para acordos mais longos, desde o ano passado. O Decreto anterior, de janeiro de 2013, já previa o ressarcimento das distribuidoras pelo uso extraordinário das térmicas.
Para fazer frente aos custos - projetados pelo mercado em até R$ 18 bilhões no ano, mais R$ 4 bilhões só em fevereiro -, o governo estuda medida heterodoxa: renovação imediata das concessões a vencer das distribuidoras, como foi feito em 2013 com as transmissoras e geradoras.
O setor estima que só as despesas de janeiro somam R$ 1,8 bilhão. Significa que as distribuidoras terão de absorver parte do custo, que eventualmente poderá ser repassado às contas de luz. Na nota conjunta, os ministérios afirmaram que o governo "continua avaliando as alternativas de solução para as demais situações enfrentadas pelo setor elétrico, inclusive para os próximos meses, e deverá anunciar as devidas providências, com a brevidade que o caso requer".
- Quanto a quem vai pagar, é uma decisão que nós ainda vamos tomar. Se o Tesouro paga sozinho, o que não é provável. Se uma parte vai para a conta de energia de elétrica, se a outra parte alguém vai ter que bancar. O fato é que essa é uma providência para depois. A providência imediata é a que foi tomada, que é a de socorrer imediatamente as distribuidoras - disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, em entrevista ao "Jornal Nacional", da TV Globo, sobre as despesas das distribuidoras.
Renovação de contratos
Segundo uma fonte do governo, a nova rodada de renovação de contratos cogitada pelo governo teria como objetivo ajudar a equilibrar o orçamento do setor elétrico, em vez de ter em vista a redução das tarifas para os consumidores, como ocorreu em 2013.
Com a antecipação da renovação das distribuidoras, as empresas teriam de pagar R$ 3 bilhões em indenizações ao governo a curto prazo pelo vencimento dos contratos, além de possivelmente terem de arcar com bônus de assinatura, em caso de renovação automática dos contratos por mais 20 ou 30 anos. Um contrato de distribuidora, a Panambi, já vence neste ano, mas muitas outras vencem a partir de 2015, entre as quais todas distribuidoras ligadas à Eletrobras. A cobrança do bônus para renovação das concessões seria uma forma de justificar o ingresso de sócios privados na gestão das seis distribuidoras da Eletrobras, como quer a direção da empresa para reforçar o caixa da companhia, sem que o governo tenha que assumir que esteja "privatizando" as empresas.
Outras alternativas em discussão no governo seriam o Tesouro continuar pagando parte desse custo via CDE. No Orçamento da União, já há previsão de aportes em volume de R$ 9 bilhões pelo Tesouro na CDE. Desta reserva, foi antecipado o R$ 1,2 bilhão anunciado nesta sexta-feira.
No governo, há também quem defenda a transformação da regra que define o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) do mercado de curto prazo. É por causa do preço elevado do PLD hoje que as distribuidoras têm de arcar com os custos de geração das térmicas. Se a estrutura de precificação do PLD fosse alterada, o custo poderia sumir, mas isso acarretaria impacto direto nos contratos a curto prazo no mercado livre de energia, o que leva o setor a ameaçar levar seus contratos para a Justiça, se a mudança for feita de maneira abrupta.
Fontes do governo defendem que uma decisão para o problema a médio e longo prazos do setor seja tomada até quinta-feira, quando chega ao país uma comissão da agência de rating Standard & Poor's. A agência colocou a nota de crédito brasileira em reavaliação negativa, tendo em vista o rumo do controle das contas públicas, que agora passou a ter no setor elétrico sua maior ameaça. (Colaboraram Monica Tavares e Demétrio Weber)
'Deviam subsidiar as famílias'
Para especialista do Instituto de Economia da UFRJ, o governo deveria dar desconto na conta de luz para quem poupasse energia, Em vez de subsidiar as térmicas
Danielle Nogueira
danielle.nogueira@oglobo.com.br
A situação está cada vez mais complicada. o governo deveria incentivar os consumidores, especialmente os residenciais, a poupar energia. Isso evitaria o risco de racionamento.
Dando um desconto na conta de luz. Para cada 50 quilowatts-hora economizados, por exemplo, o governo poderia dar um desconto, digamos, de R$ 0,50. Ao economizar energia, o despacho de novas térmicas seria evitado.
Cálculos do setor elétrico apontam para um gasto extra de R$ 20 bilhões este ano com o despacho das termelétricas que não tinham previsão para serem acionadas. São térmicas mais caras, como as movidas a óleo, que tiveram que ser despachadas porque não está chovendo. Em vez de gastar esse dinheiro com as térmicas, o governo deveria subsidiar as famílias. O Tesouro ia continuar gastando, mas teríamos uma energia menos poluente, já que nem tantas térmicas seriam acionadas.
O governo incentivaria o consumo consciente, ajudaria na distribuição de renda e na balança comercial, pois estamos importando óleo mais caro para abastecer térmicas.
O governo incentivaria o consumo consciente, ajudaria na distribuição de renda e na balança comercial, pois estamos importando óleo mais caro para abastecer térmicas.
Minimiza, mas não resolve. Desses projetos cerca de 3 mil MW são de hidrelétricas e outros cerca de 3 mil MW são de eólicas. Ou seja, se não chover e não ventar, eles não vão adiantar muita coisa.
Ações do setor de energia elétrica caem até 5,9%
O fantasma de um racionamento voltou a pesar ontem no humor dos investidores e as ações de elétricas tiveram nova rodada de quedas na Bolsa. Entre as cinco maiores baixas do Ibovespa, índice de referência do mercado brasileiro, quatro foram do setor.
Os papéis ordinários (com direito a voto) da Light recuaram 5,92%, a R$ 15,87, a maior baixa do dia; as ações preferenciais (sem direito a voto) classe B da Cesp caíram 5,18%, a R$ 21,23, terceira maior queda do pregão; já Energias BR ON teve recuo de 4,98%, a R$ 8,20, e Eletrobras apresentou perda de 4,69%, a R$ 4,67, quinta maior baixa do índice.
Influenciada pelas elétricas, a Bolsa fechou com queda geral de 1,8%. Além da incerteza em relação ao racionamento, o mercado especula sobre como será dividida a conta pelo uso das termelétricas, que gera uma energia mais cara. (João Sorima Neto)
O Globo, 08/03/2014, Economia, p. 23-24
http://oglobo.globo.com/economia/com-estiagem-setor-eletrico-estima-que…
http://oglobo.globo.com/economia/governo-socorre-distribuidoras-de-ener…
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