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A riqueza invisível da mata

O Globo, Revista O Globo, p. 48-50
17 de Out de 2004

A riqueza invisível da mata
Governo concede as primeiras licenças para exploração do patrimônio genético das florestas, e empresas partem em busca de moléculas que valem milhões

Por Roberta Jansen

Os desbravadores de florestas do século XXI em nada lembram os primeiros exploradores que se embrenharam nas matas brasileiras à procura de ouro e pedras preciosas. Com ajuda de tecnologia de ponta, os modernos bandeirantes buscam algo invisível, mas igualmente valioso: moléculas vegetais. Dependendo da atividade biológica que apresentarem, elas podem servir de base para novos medicamentos e sofisticados perfumes, para citar apenas dois exemplos. Não se trata de biopirataria. A prospecção agora é legal, autorizada pelo governo brasileiro, que acaba de conceder as primeiras licenças de acesso e remessa de amostras do patrimônio genético. É a tão propalada riqueza da biodiversidade do país sendo, finalmente, explorada de forma legal e sustentável.
O Brasil responde por 22% da biodiversidade vegetal mundial. São 60 mil espécies de plantas já registradas, sem contar aquelas nunca identificadas. É nessa diversidade que reside, para muitos especialistas, a grande riqueza do país. Uma única molécula com comprovada atividade biológica ou de rara fragrância pode render milhões em royalties, sem falar no desenvolvimento de tecnologias.
E o Brasil já deu diversas mostras de seu potencial nessa área, ao ser explorado ilegalmente. O curare é apenas um exemplo. Descoberta por índios, a substância de ação paralisante serve hoje de base para diversos medicamentos em todo o mundo sem que o país receba um centavo por isso.
Para tentar mudar esta situação foi criado há dois anos o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cegen), na esfera do Ministério do Meio Ambiente, que concedeu este ano as duas primeiras licenças para a exploração da biodiversidade nacional.
Em junho, foi dada uma autorização à Extracta, cujo objetivo é formar uma coleção de compostos naturais e fornecer matéria-prima para a indústria farmacêutica e de fitoterápicos. Na primeira semana de outubro, foi concedida a segunda licença à Quest Internacional do Brasil, uma empresa que cria fragrâncias para fabricantes de cosméticos, perfumes e produtos de limpeza.
Amostras de plantas como a bromélia (à esquerda) são coletadas aleatoriamente. No laboratório da Extracta (no alto e ao lado) as plantas são analisadas e fracionadas para a obtenção de moléculas

A dentrar a mata em busca de moléculas não é tão complicado quanto pode parecer. - Quando vamos a campo, a única recomendação é trazer material que possa ser identificado por botânicos, ou seja, plantas que tenham flor, fruto ou semente. Fora isso, não há nenhum direcionamento, é uma coleção aleatória - explica o cientista Antônio Paes de Carvalho, presidente da Extracta. - A lógica disso é que não adianta coletar apenas plantas já estudadas. Queremos buscar justamente as que têm atividade biológica desconhecida. E o Brasil tem milhares de espécies.
Idéia parecida norteia o trabalho dos especialistas da Quest. Está prevista para este mês uma expedição ao Pantanal em busca de odores inéditos. A empresa que criou as fragrâncias do Azzaro e do Angel procura agora no Brasil cheiros inusitados para ampliar o material de trabalho de seus perfumistas.
- Vamos buscar moléculas de fragrâncias expelidas pelas flores, frutas e raízes do Pantanal. Queremos identificar odores nunca antes experimentados por nossos perfumistas para ampliar sua capacidade de criação - explica Marcel Fonseca, gerente jurídico da empresa no Brasil. - E não coletamos amostras porque o que nos interessa é o cheiro da planta viva.
Sim, é possível obter moléculas de odor sem retirar da natureza uma única pétala com, a ajuda de um equipamento chamado headspace. Trata-se de uma espécie de redoma de vidro colocada sobre a planta e acoplada a uma bomba de sucção. 0 aparelho suga a fragrância secretada e retém suas moléculas num filtro.
Já os especialistas da Extracta precisam coletar amostras das plantas (de, no máximo, dois quilos), que passam a integrar sua coleção de compostos.
- A partir da demanda dos clientes, buscamos em nossa coleção determinada atividade biológica - conta Carvalho.
Para obterem as licenças, as empresas se comprometeram a repartir os benefícios obtidos a partir do uso comercial desse patrimônio.
- 0 titular da área de onde as amostras são coletadas é quem recebe o benefício - explica o secretário-executivo do Conselho do Patrimônio Genético, Eduardo Vélez Martin. - Pode ser um fazendeiro, a União ou índios. É uma forma de repartir os ganhos.

A atividade biológica dos compostos obtidos de amostras vegetais é testada nos laboratórios da Extracta: a busca por moléculas específicas é feita somente a partir da demanda de clientes

O Globo, 17/10/2004, Revista O Globo, p. 48-50

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