O Globo, O Globo Amanhã, p. 28
05 de Mar de 2013
Riqueza é qualidade de vida e natureza protegida
Sir Partha Dasgupta, economista indiano consagrado por ter sugerido o conceito de PIB ambiental, apresenta teoria que leva em conta não apenas a produção física, mas também capital natural, preocupação com a educação e com a saúde
Felipe Sil
felipe.sil@oglobo.com.br
Baixa estatura e olhar sereno. O economista indiano Sir Partha Dasgupta, professor de Economia na Universidade de Cambridge, exala calma. O que pretende, porém, é uma mudança radical na maneira em que são medidas as riquezas das nações. O acadêmico defende a substituição do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de produtos e serviços de um país) por um índice que leve em conta fatores ambientais e humanos. Uma espécie de PIB ambiental. No Brasil para apresentar o conceito desenvolvido por ele nos últimos 20 anos, Dasgupta esteve, na semana passada, na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV), no Rio.
Os novos fatores a integrarem as pesquisas seriam o capital industrializado ou físico (máquinas, edifícios, infraestrutura e tudo o que normalmente se imagina como investimento), o capital natural (terras, florestas, combustíveis fósseis e minerais) e o capital humano (ações em educação e que visem a saúde). O objetivo é encontrar dados que mostrem se, para sustentar o crescimento econômico, as nações esteriam destruindo a base produtiva que gera qualidade de vida.
- Estamos medindo incorretamente nossas vidas ao usar o PIB como referencial do progresso. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também não é o mais adequado. Precisamos de novos indicadores que nos digam se estamos destruindo a base produtiva que sustenta nosso bem-estar.
A teoria de Dasgupta é considerada um acréscimo ao conceituado Relatório de Riqueza Inclusiva (IWR, em inglês). O projeto é desenvolvido pelo Programa Internacional de Dimensões Humanas da Universidade das Nações Unidas (UNU-IHDP, em inglês).
O primeiro IWR foi lançado na Rio+20, em junho passado. O documento mostrava que o crescimento econômico acumulado do Brasil, de 1990 a 2008, foi de 31%. Mas como o país perdeu nesses 18 anos, ainda segundo o IWR, 25% de suas riquezas naturais, isso significa que, de fato, o PIB brasileiro consolidado no período foi de apenas 18%.
O professor de Cambridge também ajudou a desenvolver o método, mas acrescentou os indicadores de capital humano educacional e de saúde. Para Dasgupta, qualidade de vida é algo procurado por todos os seres humanos e deve ser levado em conta.
Ainda não há, porém, estudos conclusivos sobre a teoria que criou. Dasgupta e uma equipe de pesquisadores em todo o mundo têm estudado os dados de cinco países: Brasil, Estados Unidos, China, Índia e Venezuela. A ideia é que o trabalho esteja completo em dois anos.
A dúvida de Dasgupta surgiu na comparação entre PIBs de países tão diferentes como Estados Unidos e Índia. O que cada país apresentava de PIB, segundo ele, não condizia com a situação da sociedade e com pesquisas sobre a felicidade da população. Foi quando o professor chegou à conclusão que o tradicional índice podia não ser um indicador adequado para avaliar países. O acadêmico diz não saber o porquê de fatores como educação, infraestrutura, investimentos, florestas, agricultura e combustíveis não serem incluídos em análises.
O conceito de capital natural pode ser vasto, assim como o de capital humano. No primeiro caso, a ideia é dimensionar os investimentos em reflorestamento e biodiversidade e, no segundo, calcula-se os recursos alocados em educação, ciência e tecnologia, além da preocupação com os riscos na geração de riqueza do capital industrializado ou físico.
- Um aumento total da riqueza não necessariamente indica que as futuras gerações possam consumir nos mesmos níveis desta geração.
O Globo, 05/03/2013, O Globo Amanhã, p. 28
https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/revista-amanha/para-economis…
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