O Globo, Razão Social, p. 14 e 15
Autor: BELINKY, Aron
14 de Fev de 2012
'A Rio+20 vai competir com a crise econômica'
Coordenador da Vitae Civillis acha, porém, que líderes darão importância ao encontro
AMELIA GONZALEZ
amelia@oglobo.com.br
Entrevista: Aron Belinky
Será mesmo que os chefes de estado vão comparecer à Rio+20 para debater soluções para um mundo sustentável em meio à crise econômica? Esta pergunta ronda a cabeça de quem já está vivendo seu dia a dia como se estivesse na conferência que vai acontecer de 20 a 22 de junho, é claro. Aron Belinky, à frente do processo internacional da ONG Vitae Civillis, criada um ano antes da Rio-92 com o objetivo de facilitar a comunicação entre governos, empresas e sociedade civil, acha que o fato de já haver 30 chefes confirmados mostra que existe, sim, uma atenção para a conferência. E alerta para um fato importante: a participação civil é fundamental, mas não se deve pôr sobre os ombros dos cidadãos comuns toda a responsabilidade de mudar o modelo de desenvolvimento atual. Belinky está também ajudando a organizar uma rede que se dispõe a capacitar os jornalistas para a cobertura de um evento que terá várias frentes de discussão e poucas possibilidades de acordos bombásticos. E a tarefa não é nada fácil. Por telefone, em trânsito, Belinky falou com o Razão Social sobre os desafios do encontro que vai voltar os olhares do mundo para o Rio de Janeiro.
O GLOBO: Você acha que os líderes mundiais vão mesmo conseguir focar na Rio+20 num momento desses?
ARON BELINKY: Não tenha dúvida que a Rio+20 vai competir com a agenda da crise econômica e dos problemas mais urgentes que estão na linha de frente dos debates, mas acho que existe clareza da parte dos governos sobre a importância estratégica à questão da sustentabilidade. Segundo consta, já há 30 chefes de estado confirmados, o que mostra isso. O problema é que o urgente entra na frente do importante, como em tudo na vida.
O GLOBO: Muita gente tem dito que a sociedade civil terá um papel de fundamental importância para a relevância da Rio+20. É isso mesmo?
ARON BELINKY: Temos que ter cuidado ao dizer isso. Tem uma expectativa muito importante também em cima da atitude dos governos e do setor privado no encontro. Não vamos colocar toda a responsabilidade sobre os ombros da sociedade civil, senão pode acabar desobrigando líderes e empresas.
O GLOBO: A Rio+20 terá como tema a economia verde. O que é, afinal, economia verde?
ARON BELINKY: É uma expressão inadequada. Porque acaba não querendo dizer nada em si mesma, não explica nada. Podia ser azul, verde , rosa... Ou seja, não é uma expressão autoexplicativa. Tanto assim que, repare só, ela vem sempre acompanhada de adjetivos adicionais. No próprio texto rascunho zero que já se fez para a Conferência, consta "economia verde no contexto da erradicação da pobreza e no desenvolvimento sustentável" para ficar claro que, quando se está falando sobre isso, está se falando sobre pressão econômica e social no sentido da inclusão e que deve ser uma economia a serviço do desenvolvimento sustentável.
O GLOBO: Então é esta a ideia que está na raiz desta expressão?
ARON BELINKY: A ideia essencial é a utilização de instrumentos econômicos para dar centralidade às propostas e práticas do desenvolvimento sustentável. A economia, do modo como se pratica hoje, trabalha numa lógica diferente. Por conta da crise econômica mundial a economia precisa de governança, de mecanismos que evitem os abusos que a concentração de capital e de poder permite ou que impeçam a irresponsabilidade de investidores ou corporações que não estão vinculadas a nenhum país ou legislação e, por isso, se tornam irresponsáveis. Portanto, a economia, indepedentemente do adjetivo que lhe apliquem, tem que ser atualizada para incorporar as questões de responsabilidade social e ambiental e tem que estar sujeita a regras e a um controle social que impeçam as distorções que se veem hoje. Como, por exemplo, a privatização de bens comuns (água, luz, gás). Isso não deveria, de forma alguma, servir para especulação.
O GLOBO: Qual a expectativa que vocês, de organizações da sociedade civil, estão tendo com relação à Rio+20?
ARON BELINKY: Nossa expectativa é bem diferente do que era quando teve a Rio92. Naquela época não havia nenhum mecanismo claro de participação da sociedade civil. Hoje ainda está aquém do que a gente gostaria, mas já existe uma participação maior nos debates prévios. O resultado da Rio+20 será um documento político focado, curto, com uma agenda que não tem característica de esgotar tecnicamente os temas que estão em pauta nem de ser instrumento mandatório. Será um posicionamento político sobre o conjunto dos temas do desenvolvimento sustentável. É uma reunião de convergência, não é um ponto final, mas um ponto de balanço e de afinamento da agenda nos próximos anos. No final, será uma declaração que deverá ter não mais do que 20 páginas (o rascunho já está disponível no site da ONU - onu.org.br).
O GLOBO: Além disso, o que mais?
ARON BELINKY: Tem uma agenda oficial, uma semioficial e uma autônoma.
O GLOBO: Explique melhor, por favor.
ARON BELINKY: A agenda oficial está dentro dos trâmites da ONU, vai resultar neste documento de 20 páginas com alguns encaminhamentos bastante objetivos, por exemplo a questão do consumo, de gênero, do uso de energia, tudo isso pode pegar várias diretrizes a serem implementadas depois da Conferência, sob responsabilidade da ONU. Há a recomendação para criação de um painel científico para desenvolver metodologia de mensuração do desenvolvimento que vai além do PIB e a negociação para a criação de convenções internacionais sobre acesso à informação, transparência e responsabilidade corporativa.
O GLOBO: A semioficial é uma agenda fora dos mecanismos da ONU?
ARON BELINKY: A semioficial são os vários debates que envolvem governos e outros atores sociais onde estão sendo discutidas iniciativas e diretrizes que não estão maduras o suficiente dentro do mecanismo de negociação formal da ONU, mas sobre as quais há demandas muito grandes e que podem ser assumidas seja pelos governos ou pelos atores. Esses debates acontecerão no intervalo de quatro dias entre a pré-conferência e a conferência de alto nível e são de consenso. São oito temas, os oceanos são um deles. Há uma área oceânica que não pertence a ninguém e que a ONU também não tem mecanismo para governá-la. Precisamos ter.
O GLOBO: A agenda autônoma está nas mãos da sociedade civil?
ARON BELINKY: Exatamente. São as propostas da sociedade civil, seja no segmento popular ou empresarial, para o desenvolvimento sustentável. Temos aí questões como economia solidária, direitos humanos. Ao mesmo tempo vai ter o setor privado, que é também um processo autônomo, propondo soluções. Como exemplo temos o Visão 2050 do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).
O GLOBO: Quanto às empresas, o que se diz é que elas precisam investir cada vez mais em tecnologias para ajudar o mundo a trilhar os caminhos da economia verde de fato. É isso?
ARON BELINKY: Investimento em tecnologia é uma parte da solução, sim, mas não é a única. Evidentemente vamos precisar do melhor da tecnologia para poder usar os recursos naturais de maneira mais consciente. Mas só isso não resolve, primeiro porque o objetivo da produção econômica tem que estar a serviço de um modelo de desenvolvimento que tenha como fim a sustentabilidade social e ambiental e não a acumulação da mesma estrutura. Para isso, tem que haver um mecanismo de governança diferente do atual. A segunda coisa é a redistribuição dos limites planetários. Como já se sabe, se o mundo todo consumisse como os Estados Unidos, precisaríamos de várias vezes aquilo que a Terra é capaz de dar. E não tem solução tecnológica que possa viabilizar esse modelo perdulário para todo o planeta. A questão da mobilidade urbana é o exemplo mais claro disso: posso usar a melhor tecnologia do mundo para fabricar carros, mas se continuar com o modelo de veículo individual, o trânsito vai parar. Por isso é necessário ter um mecanismo de governança, políticas públicas que pressionem a decisão de se ter um modelo de desenvolvimento sustentável. No caso da mobilidade urbana, é preciso ter um transporte público decente, confortável, para todos.
O GLOBO: É comum, no final de cada conferência do meio ambiente, analistas serem ouvidos pelos jornais para fazerem uma avaliação. Para você, em que cenário será possível dizer que a Rio+20 cumpriu seu papel?
ARON BELINKY: Somente se sairmos de lá com a sensação de que temos uma agenda claramente definida sobre quais são os caminhos a serem seguidos, o que precisa ser feito em cada área e quais são nossos compromissos para avançar na direção de um desenvolvimento sustentável. Claro que não vai dar para ter compromissos detalhados, mas as diretrizes têm que ser claras, com prazos e acordos vinculantes. Isso deve alimentar ações voluntárias e compromissos.
O Globo, 14/02/2012, Razão Social, p. 14 e 15
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