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Rio+20 = ?

O Globo, Opinião, p. 7
Autor: VENTURA, Zuenir
13 de Jun de 2012

Rio+20 = ?

Zuenir Ventura

Será que a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável que começa hoje vai ser menos frustrante do que a de 1992, que foi festiva, animadora, produziu muita espuma, mas poucos resultados concretos do ponto de vista ambiental? Os retrospectos indicam que, de lá para cá, houve até retrocesso: a temperatura global aumentou e o nível dos mares subiu, embora o Rio, o Brasil e o mundo tivessem melhorado (este, menos) sob outros aspectos. A cidade está três vezes menos violenta do que há 20 anos e o país, que então enfrentava sérios problemas políticos, às vésperas de proclamar o impeachment de um presidente, adquiriu prestígio e virou protagonista na cena internacional. Já o mundo estava apreensivo.
No mesmo ano, um ataque à embaixada de Israel na Argentina, uma bomba num colégio na Itália e, poucos meses após a Rio-92, um "atentado-trailer" a uma das Torres Gêmeas, em Nova York, já anunciavam a vaga terrorista que viria depois. Hoje, no entanto, as dificuldades são mais econômicas e financeiras.
A ONU e o governo brasileiro estão otimistas, considerando a Rio+20 como "a maior conferência da história", que contará com a participação recorde de 183 chefes de estado. Três deles, porém, não virão. A chanceler alemã, Angela Merkel, o premier britânico, David Cameron, e o presidente americano, Barack Obama, preferiram trocar a nossa conferência pela reunião dos ricos, o G-20, em junho no México. Pode ser que estejam mais preocupados com a crise econômica do que com o desastre ambiental. Em suma, mais interessados em seus mandatos do que no futuro do planeta. Até o nosso Obama, nessa matéria, aproxima-se dos Bush, pai e filho. O pai pelo menos esteve aqui há 20 anos. O sucessor de seu filho nem isso.
Além do mais, é provável que, a exemplo de alguns observadores, os três poderosos líderes atuais não acreditem na capacidade de decisão da Rio+20, ou então não creem que, se houver decisões, alguma grande potência seja obrigada a executá-las.
Outra dificuldade é acertar os ponteiros em relação à real gravidade do estado de saúde do planeta. A cada hora os especialistas divergem sobre algum ponto. Para uns, estamos à beira do colapso; para outros, há exagero. Sabe-se que é preciso fazer alguma coisa, mas o quê, como e com que urgência? Como disse o embaixador Marcos Azambuja, que teve importante participação na Rio-92, é um doente sobre o qual não há sequer "concordância de diagnóstico".
Vamos ver se a junta médica reunida pela ONU desta vez acerta no diagnóstico, na receita e, sobretudo, que obrigue o doente a tomar o remédio.
P.S. - Enquanto isso, no país-sede da Rio+20, o governo resolve baratear os carros, dando sua contribuição para aumentar a poluição do ar e o engarrafamento das grandes cidades.

O Globo, 13/06/2012, Opinião, p. 7

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