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Rio Paraíba do Sul é tema de documentário

O Globo, 2o.caderno, p. 2
26 de fev de 2004

Rio Paraíba do Sul é tema de documentário

Jaime Biaggio

A relação entre o homem e seu meio ambiente, tema presente em diversos documentários de prestígio ("Nanook, o esquimó" é só o primeiro a vir à mente), tem sido a motivação dos produtores de um cujas pretensões, num primeiro olhar, seriam modestas. Afinal, "Rio abaixo" não visa a lançamento em circuito a princípio e tem como tema o pouco valorizado Rio Paraíba do Sul. Mas a idéia do diretor Carlos Sanches é que esta seja a raiz da relevância de seu filme.

O curso do Paraíba do Sul passa por Rio, São Paulo e Minas Gerais. Justamente por isso, por ter como sua "área de influência" a região mais cosmopolita e industrializada do país, o rio acaba não tendo o peso de um Amazonas ou um São Francisco como referência cultural. A idéia do documentário é justamente chamar a atenção para o papel que o rio tem para a região Sudeste, como seus recursos têm sido abusados e os problemas que já decorrem disso. - O filme começa falando da importância do rio, seus dados principais, dados históricos, como foi importante no desenvolvimento do Sudeste brasileiro - diz Sanches, diretor do programa "Canal saúde", produzido pela Fundação Oswaldo Cruz e exibido semanalmente na TVE, de cuja pauta a idéia de falar sobre o Paraíba do Sul nasceu. - E depois entra no ponto de como o rio foi degradado com o passar dos anos.

Portanto, o filme é um estudo de campo, por assim dizer, além de uma extensão de pauta (o rio chegou a figurar em duas edições do "Canal saúde"). Mas é também um filme-denúncia. Atualmente, 80% da população do Grande Rio utilizam a água do Paraíba do Sul. Por conta disso, foi feita uma obra que desvia dois terços do rio com esse intuito, e isso tem provocado problemas em vários pontos de seu curso. Sanches admite que a idéia de fazer o filme nasceu a partir dessas informações.

- Em Atafona, distrito de São João da Barra, a foz do rio perdeu força e o mar avançou devorando mais de 3.000 casas. Em Sepetiba, onde deságua o Rio Guandu, que recebe a carga do Paraíba, a praia sofreu um processo de assoreamento e virou um mar de lama - enumera ele.

Na história do rio, um pouco da História do Brasil

A maior tragédia, contudo, ocorreu em Cataguazes (MG), quando quase um bilhão de litros de soda cáustica e outros produtos químicos foram parar no Rio Pomba, que deságua no Paraíba do Sul. Toneladas de peixes morreram, pescadores do Paraíba e do litoral e 30 cidades foram atingidos.

- Quase um milhão de pessoas ficaram sem água e sem previsão de quando teria água de novo - diz Sanches. - Não havia até pouco tempo atrás a idéia de que mexer com a natureza pode afetar tanto a vida das pessoas.

Antes da denúncia, há a parte histórica. Com narração e dramatização a cargo de Pedro Paulo Rangel, que vive um personagem-síntese do habitante das margens do rio nos três estados, o filme passeia fortemente pela geografia humana do Paraíba e, assim, pela História do Brasil.

- O Rio Paraíba é a própria história da nossa colonização - diz Sanches. - Passando pela exploração do ouro em Minas, das culturas da cana-de-açúcar e do café, ao processo de industrialização do Sudeste. Do índio à explosão dos grandes centros urbanos.

O Globo, 26/02/2004, 2o.caderno, p. 2

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