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Ribeirão Pires descobre o filão da água mineral

GM, Rede Gazeta do Brasil, p. B11-B12
10 de Dez de 2003

Ribeirão Pires descobre o filão da água mineral
A atividade representa uma das poucas saídas econômicas para um município obrigado a preservar mananciais

Com todo o seu território (107 km²) protegido pela lei dos mananciais, o município de Ribeirão Pires, 105 mil habitantes, um tanto deslocado do eixo industrial do ABC Paulista, começa a definir uma das vertentes de sua economia para o futuro: a exploração de suas reservas de água mineral.

É hoje a cidade que desperta o maior interesse de empresários do mercado mineral da Grande São Paulo, com um potencial enorme de produção, com o maior número de pedidos de lavra de concessão de mineração de água, segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Em tramitação

Com base na listagem de títulos minerários disponibilizada na internet pela Diretoria de Outorga e Cadastro Mineiro - DICAM, do DNPM, em 24/02/2003, são identificados 50 processos em tramitação, correspondentes a quatro concessões de lavra, 29 processos na fase de autorização de pesquisa, três deles com requerimentos de lavra e 17 processos em fase de requerimento de pesquisa.

A expansão do número de títulos minerários no município de Ribeirão Pires é de aproximadamente 67% em dois anos e a de autorizações de pesquisa de 93%.

O potencial produtivo do município já pode ser medido a partir das 23 lavras de águas subterrâneas, que ultrapassam os 360 metros cúbicos por hora, sendo que 1/3 delas possui alto potencial de vazão, superando os 20 m³/h e chegando a 40m³/h.

Bicarbonatadas

As análises físico-químicas disponíveis das fontes de água mineral do município permitem considerá-las como sendo essencialmente bicarbonatadas, com predo-mínio alternante dos cátions sódio, cálcio, magnésio e mais raramente potássio. As águas são frias, com temperaturas variando em torno de 18o a 20o e apresentam como elementos-traço mais comuns o bário, zinco, cromo, flúor e por vezes bromo ou lítio.

A cidade de Ribeirão Pires tem uma empresa de envasamento (Água Mineral Pilar, da Poxoreu Mineração Ltda) com três concessões de lavra em atividade desde 1948, data da primeira concessão. A empresa Fonte Vênus Olímpica Ltda, com portaria obtida em 2001, tem seu início de operação no dia 2 de dezembro de 2003.

Fontes por todo lado

Três outros empreendimentos, em nome da empresa de mineração Água Leve Ltda, pretendem iniciar a operação da empresa no primeiro semestre do próximo ano.

Dos 50 processos, a concentração é maior nos bairros Pilar Velho, Quarta Divisão, Itaporá e Tecelão. Há ainda incidência nos bairros de Casa Vermelha, Santana e Roncon, assim como na Vila Bocaina e próximo ao Jardim Caçula, no bairro Represa.

Segundo informações do IPT e da própria prefeitura, as regiões mais favoráveis para a produção de água mineral estão nos bairros Pilar Velho, Quarta Divisão, Sertãozinho e nos arredores da Pedreira Anhanguera. Na divisa da região sul do município estão as zonas favoráveis nos bairros Somma e Casa Vermelha, assim como no bairro Represa, na divisa com Rio Grande da Serra.

Preservação das matas

Esse potencial está diretamente relacionado à formação geológica e à condição de auto grau de preservação das matas. Os 50% do território do município são cobertos por matas e 30% dele cobertos por mata atlântica. Essa é mais uma vocação econômica para uma cidade que tem as restrições legais ao desenvolvimento por estar em áreas de manancial (nascentes de água). A principal aposta de Ribeirão em sua política de'reconversão econômica induzida', como os técnicos chamam o processo, é a produção de água mineral.

Terceiro em produção

Um relatório do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) mostra um grande potencial nessa área. Informações do Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM) mostram que Ribeirão Pires é o terceiro em produção (atrás de São Paulo e Itapecerica da Serra), mas "é onde há mais prospecções", diz a prefeita Maria Inês Soares (PT).

Ribeirão Pires sediou, no começo de dezembro, o 4o Seminário de Negócios, um evento anual com o objetivo de criar novas oportunidades de negócios e apresentar aos empresários já instalados na cidade e aos que estão chegando os serviços e incentivos disponíveis. E as discussões que dominaram foram relativas à "indústria da água" e o turismo com sua variante, o ecoturismo. O município fica quase no topo da Serra do Mar e é banhado pela represa Billings.

Qualidade de vida

A prefeita acredita que a produção de água mineral é um potencial importante na cidade. "Desde 2000 Ribeirão Pires desponta como uma das cidades brasileiras com o melhor potencial de crescimento, figurando entre os 100 melhores municípios para investimentos em levantamento da Simonsen Associados. Neste ano, o município também ganhou destaque ao figurar entre aqueles com melhor qualidade de vida do estado de São Paulo, medido pelo Índice Paulista de Responsabilidade Social, da Fundação Seade", diz a prefeita Maria Inês.

109 empreendimentosAs concessões de lavras emitidas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral - DNPM, entre os anos de 1980 a 2001, alcançou 109 empreendimentos ativos. Com base nas informações do DNPM (novembro-2002), 16 municípios da Grande São Paulo são atualmente produtores de água mineral, com 42 concessões de lavras. Ribeirão Pires está em terceiro lugar com quatro concessões, após a cidade de São Paulo e Itapecerica da Serra.

Numa consulta aos direitos minerários representados por requerimentos e autorizações de pesquisa constata-se que a região metropolitana de São Paulo apresenta 264 processos, distribuídos em 32 municípios.

Muito mais fontes

São Paulo aparece com 55 processos seguido pelo município de Ribeirão Pires, com 32 processos em andamento. O detalhe é que o território de Ribeirão é de 107 km2 e São Paulo 1.500 km2.

O município de Ribeirão Pires apresenta uma vantagem adicional no mercado de água mineral, pelo fato de encontrar-se dentro do maior mercado consumidor brasileiro, representado pela região metropolitana de São Paulo, servido por uma completa malha viária e que oferece uma logística única, inclusive com potencial para a exportação para o mercado americano e europeu.

Margem de 10%

Segundo levantamentos do BNDES, o produto água mineral tem seu valor de mercado assim dividido: produção e embalagem, 65% do valor; frete, 25%; margem de lucro, 10%. Portanto, Ribeirão Pires tem vantagens importantes para quem quer investir nesse setor. As lideranças políticas da cidade destacam ainda outra vantagem do segmento econômico: é uma atividade que não afeta o meio ambiente e pode ser conduzida dentro de rigorosos padrões de sustentabilidade.

Ribeirão Pires descobre o filão da água mineral.

A Associação Brasileira da Indústria de Água Mineral (Abinam) aponta crescimento do mercado de água mineral envasada na ordem de 20% ao ano. Em 2001 os estudos da Abinam apontavam que a produção e consumo mundial foram estimados em 107,5 bilhões de litros de água mineral.

A Europa é líder com 42,3 bilhões de litros, seguida pela América Latina com 22,9 bilhões, América do Norte com 20,4 bilhões, Ásia e Austrália com 18,6 bilhões de litros e Norte da África e Oriente com 6,2 bilhões.

A produção brasileira acompanha o crescimento da produção nacional, atingindo 4,3 bilhões de litros em 2001, posicionando o Brasil como o sexto maior produtor do mundo. Os principais produtores são o México com 15,4 bilhões de litros seguido pelos Estados Unidos com 11,5 bilhões, Itália com 8,7 bilhões, Alemanha com 8 bilhões e França com 6,5 bilhões de litros.

O consumo anual per capita brasileiro é muito baixo quando comparado aos níveis internacionais. Em 2001 chegou a 25 litros com um faturamento estimado de US$ 400 milhões. Em países como Itália, México e França, o consumo varia entre 120 a 150 litros. Na faixa em torno de 100 litros per capita/ano, estão Alemanha, Suíça e Espanha e na faixa de 70 a 80 litros per capita/ano, os Estados Unidos, Portugal e Áustria.

O mercado de água mineral está concentrado na mão de poucas empresas, como na França, onde 23% do setor é comandado pela Nestlé S.A., seguida pelos grupos Perrier Vittel, Danone e Neptune. Essas mesmas empresas lideram o mercado nos Estados Unidos, sendo que cinco empresas são responsáveis por 51% do mercado americano, lideradas pela Danone e Nestlé, cada uma com 17%. Na Grã-Bretanha a Danone lidera o mercado com 19%, seguida pela Nestlé.

A Alemanha se destaca pelas características peculiares, enquanto em outros países com alto índice de consumo a concentração está nas mãos de poucos, lá está representado por mais de 200 empresas. Curioso também é que ao contrário de outros países o mercado alemão prefere as águas minerais gasosas.

Entre 1996 e 2001 o mercado alcançou taxas de crescimento superiores a 15% ao ano. Entre 2000 e 2001 esse índice atingiu 23%. A região sudeste do Brasil lidera o consumo e a produção do mercado de água mineral brasileiro, com a participação de 1,6 bilhão de litros representando sozinho 50% da produção e consumo do país. Mas a região nordeste e norte cresceram 85% e 82% respectivamente em 2000.

O Estado de São Paulo concentra a maior produção de água mineral da região sudeste, 38,5% da produção nacional, o que corresponde1,2 bilhão de litros no ano de 2000. O crescimento na produção foi de 140% entre 1996 e 2001. A região metropolitana de São Paulo é responsável por 21,5% da produção nacional e cerca de 58% da produção do estado de São Paulo, chegando a 693 milhões de litros envasados no ano 2000. A expansão do mercado de água mineral no Estado de São Paulo, no período de 97 a 2000, foi de 52% e na região metropolitana foi de 92%.

GM, 10/12/2003, Rede Gazeta do Brasil, p. B11-B12

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