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Retrato de um pais poluido

CB, Brasil, p.18
16 de nov de 2003

Meio Ambiente
Órgão ambiental de SP mostra que casos de contaminação aumentaram 185% em um ano e meio. A intoxicação em solo, água e ar se espalha por todo o Brasil
Retrato de um país poluído
Maria Clarice Dias
Da equipe do Correio

A terra, a água e o ar brasileiros carregam em si uma herança suja. Os estados industrializados do país acumulam no meio ambiente os restos de fabricações do tempo em que nem se pensava em controle e consciência ambiental. Um relatório divulgado este mês pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb), de São Paulo, mostra que a relação de áreas contaminadas no estado aumentou de 255 para 727 entre maio de 2002 e outubro deste ano.
Levantamento realizado pela organização não-governamental Greenpeace no ano passado retrata 18 casos graves de contaminação do país. São Paulo tem a situação mais gritante. Muito por ser o estado mais industrializado do país. Mas, como o controle dos órgãos paulistas de fiscalização ambiental é também mais forte, o maior número de casos pode ser apenas uma questão de organização para descobrir onde estão os resíduos químicos. 0 que pode ser grave, já que simboliza que outros estados brasileiros estão contaminados e ninguém percebeu ainda.
Os resíduos tóxicos, apesar de concentrados em São Paulo, estão em todas as regiões do país. Em Betim, Minas Gerais, a Fiat Automóveis poluiu o solo próximo à empresa com restos industriais e cinzas dos fornos que queimavam as sucatas usadas como matéria-prima da empresa. Só da substância dioxina, substância tóxica com alto potencial cancerígeno, o limite no solo estava 32 vezes acima do aceitável pela legislação brasileira. 0 caso foi denunciado em 2000, mas até hoje o solo não foi limpo.
Décadas de sujeira
São Paulo tem até hoje casos de contaminação iniciados há pelo menos 30 anos e que não estão resolvidos. Em Santo André, cidade do ABC paulista, a empresa Solvay Indupa do Brasil, uma multinacional belga que fabrica, entre outros produtos, plásticos PVC, mantém um depósito com mais de um milhão de toneladas de cal contaminada com dioxinas. As águas subterrâneas do rio Grande, que abastece a represa Billings, responsável pelo fornecimento de água a mais de 2,5 milhões de habitantes da região, foram poluídas com mercúrio e organoclorados.
A denúncia, feita pelo Greenpeace, foi confirmada pelo Ministério da Agricultura. Em dezembro de 1999, a Solvay assinou com o Ministério Público paulista, a Cetesb e o Greenpeace um acordo no qual se comprometeu a descontaminar o leito do rio Grande e o seu depósito de cal em dois anos.
Para John Butcher, coordenador da campanha de substâncias tóxicas do Greenpeace, a proposta da empresa para controlar os níveis de contaminação ambiental é limitada. "Eles sugerem apenas aumentar o controle sobre o resíduo contaminante, mas não incorporam tecnologias para limpar a área e evitar problemas futuros", avalia Butcher. A Solvay, em documento divulgado este ano, afirma estar cumprindo todos os pontos do acordo.
A secretária de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Marijane Lisboa, admite que, em relação à contaminação ambiental, o Brasil tem problemas de sobra. "Estamos lidando com um passado maldito", diz. A idéia do governo é estimular a substituição de tecnologias e matérias-primas que sujam o ambiente por outras mais Impas".
Limpar a herança que sujou o meio ambiente e ainda criar mecanismos para prevenir - ou ao menos descobrir e punir a tempo - os novos casos é um trabalho lento. Em São Paulo, por exemplo, dos 727 casos de poluição registrados pela Cetesb este ano, apenas 14 são dados como remediados. E os efeitos no ambiente e na saúde perduram. 0 aterro a céu aberto na cidade de Pilões, por exemplo, onde era depositado o lixo de cinco indústrias de Cubatão (SP) foi desativado há 20 anos. Até hoje, os moradores apresentam alta concentração de toxinas no sangue.
0 PIOR DA HISTÓRIA
Em 3 de dezembro de 1984, o mundo testemunhou o pior desastre químico da história, quando um vazamento de 40 toneladas de gás tóxico na fábrica da Union Carbide em Bhopal, Índia, matou pelo menos 8 mil trabalhadores e moradores da região nos três dias que se sucederam ao acidente, e causou lesões permanentes e debilitantes em mais de 150 mil pessoas. A tragédia, causada pelo vazamento de um coquetel de gases letais, entre ele o mortífero isocianato de matila, para a vizinhança da área foi causada principalmente por medidas de redução de custos e desabilitação de sistemas de segurança adotadas pela Union Carbide.

DESCASO COM A NATUREZA

SÃO PAULO

BAURUAcumuladores Ajax LtdaUma das maiores fábricas de baterias automotivas do mundo poluiu com chumbo o solo e o ar de sua unidade de reciclagem de baterias usadas, que funciona há 30 anos em Bauru. Pelo menos 88 crianças que moram num raio de um quilômetro da unidade foram contaminadas.

PAULÍNIAShell Brasil S.A.A Shell Química fabricou agrotóxicos em Paulínia entre 1975 e 1993. Nesse período, empresa contaminou o lençol freático nas proximidades do rio Atibaia com aldrin, endrin e dieldrin. Em 2000, relatório da Cetesb mostrou que a contaminação da água estava até 11 vezes acima do permitido por lei.

SANTO ANDRÉSolvay Indupa do BrasilA multinacional de origem belga mantém em sua unidade de Santo André um depósito a céu aberto que contém mais de 1 milhão de toneladas de cal contaminada com dioxinas. Essa é uma das maiores concentrações de poluentes orgânicos persistentes na América latina.

RIO DE JANEIRO

BELFORD ROXO
Bayer S.A
Numa área de 2 milhões de metros quadrados, a líder mundial na produção de polímeros produz poliuretanos, vernizes, produtos veterinários e formulações de agrotóxicos. Análises feitas por uma ONG ambientalistas no Reino Unido comprovaram a presença de metais pesados, como chumbo, mercúrio e benzeno, nas águas do rio Sarapuí.

MINAS GERAIS

BETIMFiat automóveis S.A.Fornos primitivos usados para a produção de cal, no município de Formiga, em MG, são alimentados por sucata industrial descartada ilegalmente em sítios da região. Esses resíduos vêm de grandes indústrias, sobretudo a Fiat. Só da substância dioxina, o limite no solo estava 32 vezes acima do aceitável pela legislação brasileira.

DISTRITO FEDERAL

SOBRADINHO
Petrobrás
Distribuidora/Posto Brazuca Em maio de 2002, os moradores vizinhos ao posto Brazuca começaram a sentir náuseas, dor de cabeça e apresentar erupções na pele. Exames técnicos comprovaram que a população havia sido exposta a substâncias que entram na composição da gasolina, como o benzeno, altamente tóxico. A contaminação no lençol freático foi provocada por falhas no sistema de armazenamento de combustível no posto.

RIO GRANDE DO SUL

SAPUCAIA DO SUL
Gerdau S.A.
A sucata é a principal matéria-prima produzida pela maior recicladora de aço da América Latina. Em janeiro de 2001, o Greenpeace acusou a Gerdau de contaminar a Grande Porto Alegre com metais pesados e PCBs. Foram identificados 162 poluentes, entre eles o ascarel do tipo arocloro 1254, proibido no Brasil desde 1981.

GUAÍBA
Klabin Riocell S.A.
Durante anos, o processo 'kraft' de produção de papel adotado pela empresa poluiu o meio ambiente com compostos organoclorados formados durante o branqueamento do cloro da polpa da celulose. Foi percebido um contínuo lançamento de cloro nas medições semanais dos efluentes da indústria.

CB, 16/11/2004, p.18

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