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Retrato com marcas do tempo

OESP, Caderno 2, p. D9
Autor: NOVAES, Washington
26 de Nov de 2006

Retrato com marcas do tempo
De volta ao Xingu, Washington Novaes filma cenas e personagens que havia encontrado em 1984

Paulo Moreira Leite

Produtor de imagens que deslumbraram o País em 1985, num documentário pioneiro sobre o Xingu, o jornalista Washington Novaes fez o caminho de volta, duas décadas depois. Encontrou transformações profundas, mas nenhuma tão reveladora quanto uma cerimônia de Quarup, o ritual fúnebre das nações indígenas, com a participação de um grupo de lutadores europeus levados para a selva por uma emissora de TV inglesa.

Um deles era lutador de judô, outro de luta livre, um era campeão de halterofilismo e o quarto, boxeador. 'Perguntei se eles não consideravam aquilo um desrespeito', conta. 'Mas o diretor do programa me respondeu que ninguém tinha o direito de privar a população de outros países de um espetáculo como aquele.' Num efeito colateral, uma das tribos convidadas a participar deste Quarup globalizado exigiu um cachê reforçado para participar da cerimônia. Na parte final, quando começou a huka-huka, a tradicional luta entre guerreiros, os indígenas enfrentaram os atletas europeus - e venceram os visitantes em todos os confrontos.

Na viagem de 1984, quando passou dois meses gravando imagens que seriam exibidas pela TV Manchete no ano seguinte, Washington Novaes desbravou costumes e ajudou a criar celebridades internacionais, como o cacique Raoni. No retorno, em 2006, que durou três semanas, para produzir uma série de 16 programas que começam a ser exibidos pela TV Cultura em março de 2007, testemunhou o espetáculo de um mundo em ebulição histórica, quando antigas verdades e valores parecem suspensos no ar. O próprio Raoni, celebrado como estrela pelo roqueiro Sting, perdeu autoridade e é questionado pelos jovens da aldeia, que sonham com televisão, tênis, óculos escuros e bermudas. O desinteresse das novas gerações pela cultura tradicional impede o surgimento de novos pajés, que cumprem uma função essencial na prestação de serviços contra as chamadas 'doenças do espírito.' Numa única aldeia que, há duas décadas, possuía 13 pajés para servir a 300 habitantes, só existem três.

Num depoimento de 1984, Raoni dizia que pretendia 'viver como meus pais.' Em 2006, ele reuniu lideranças para reconstituir o momento em que sua aldeia fez o primeiro contato com os irmãos Villas-Boas, em 1953. Num momento 'muito comovente,' nas palavras de Washington, eles 'deram-se as mãos e cantaram a mesma música que cantaram para os Villas-Boas.' Nem todas as lembranças desse primeiro encontro são felizes, porém. 'Raoni se diz arrependido daquele contato,' conta Washington Novaes. Lideranças indígenas revelaram que, naquele dia histórico, tinham duas opções. O plano original era violento: assassinar os sertanistas e esconder-se de novo na selva - como ocorrera tantas vezes. Mas no meio do caminho eles mudaram de idéia: 'Dois velhos nos disseram que poderíamos ser bem tratados.'

Em 2006, as aldeias estão cercadas pelas idéias de desenvolvimento daquela civilização que apertou a mão de Raoni. Governadores de Estado já distribuíram sementes de soja e até caminhonetes nas aldeias. Brasília planeja construir seis usinas hidrelétricas por ali, o que iria provocar um terremoto geral. Há duas décadas, o Xingu era um mundo fechado, onde só entravam pessoas autorizadas. Hoje está aberto por estradas que levam a pequenas cidades, onde indígenas fazem compras, recebem influências, testam valores.

Outra mudança é que a vacinação universal livrou a população de endemias e fez a demografia crescer acima da média brasileira. Para evitar a poluição dos rios, foram abertos poços artesianos e todas as aldeias, hoje, se abastecem de água em torneiras. Mas a transformação fundamental foi a chegada do dinheiro. Examinando 93 horas de gravação, Washington Novaes seleciona uma imagem-síntese das mudanças - as cenas de indígenas de motocicleta. 'Agora eles tem um sonho de consumo' explica.

Numa sociedade que funciona sob as regras da economia de troca, onde cada família planta, pesca e caça o próprio alimento, erguendo moradias em mutirões, o esforço para conseguir R$ 5.500 - o preço de uma Honda CG 150, modelo popular - implica em produzir bens que tragam dinheiro. Por essa razão, a principal atividade econômica de boa parte das aldeias já não é a agricultura, mas artesanato, para ser revendido nas cidades. A título de exemplo: uma moto representa três anos de trabalho na produção de colares. Quando esteve no Xingu em companhia de Gisele Bündchen, Leonardo di Caprio comprou um tapete sofisticadíssimo. Agradecido, o indígena batizou um filho como Di Caprio. O pagamento foi de U$ 500, um quinto de uma CG 150.

No final dos anos 70 Washington Novaes era editor-chefe do programa Globo Repórter. As pressões da censura sobre assuntos como economia e política eram tão grandes que, como diversos profissionais, foi procurar oxigênio em áreas menos vigiadas, entre elas meio ambiente e a questão indígena. Décadas depois, já especialista de prestígio, convidado para palestras dentro e fora do País, ele mantém velhas amizades das aldeias. Costuma hospedar indígenas em sua casa, em Goiânia, mesmo quando eles aparecem em grupo de uma dezena e meia de pessoas - sem avisar. 'Eles esperam de nós a mesma gentileza que nos dispensam,' diz.

Na semana passada, Washington Novaes abrigava em casa um indígena chamado Tabata, protagonista de um episódio dramático. Há pouco mais de um ano, Tabata teve dois filhos gêmeos, um sinal de perigo nas culturas indígenas, que encaram o fenômeno como ameaça de má sorte e recomendam que as duas crianças sejam enterradas vivas para morrer. Tabata não se conformou e, para salvar os filhos, deixou a aldeia. Após muitas negociações com líderes da tribo, conseguiu ser aceita de volta.

Washington reconhece que não pode ser considerado uma testemunha neutra dessas mudanças - também é parte delas e nem sempre esteve no lado preservacionista. Ele foi pioneiro, em 1984, no pagamento de direitos de imagens aos indígenas brasileiros, e repetiu os pagamentos agora. Também conseguiu que um de seus patrocinadores mandasse um trator para uma aldeia que pretendia incrementar as plantações. Ele acha correto pagar pelo uso de imagens: 'Estamos fazendo uso de um produto da cultura deles,' explica, com a autoridade de quem nunca usou dinheiro para adulterar manifestações nem valores indígenas.

Depositado em contas bancárias em nome de associações mantidas por cada aldeia, esse pagamento ajuda a criar diferenças entre habitantes de uma mesma aldeia, e entre as aldeias entre si, numa alteração difícil de ser avaliada fora dali. 'Agora existe gente com moto e sem moto, com TV e sem TV', diz o documentarista. A reconhecida coesão das sociedades indígenas é fruto da igualdade que reina nas aldeias, que torna possível a existência de um mundo que o antropólogo Pierre Clastres descreveu como democracia do consenso, onde cada um tem sua liberdade e ninguém é obrigado a submeter-se a uma ordem alheia. O raciocínio é que, sem desigualdade, não há necessidade de sistemas políticos convencionais. Em princípio, todos estão satisfeitos e os poucos descontentes podem mudar-se para outra aldeia - pois jamais serão forçados a retornar. Não existe o princípio de autoridade, como as sociedades ocidentais o reconhecem. Quando se comenta que essa situação é possível em sociedades que 'ainda não têm Estado,' Washington Novaes corrige: 'Quem sabe sejam sociedades que não querem um Estado.'

Descrevendo cenas que parecem a própria utopia de Bom Selvagem, Washington Novaes recorda um grande chefe indígena, Malawakuyalá, morto em 1986, a quem define como 'o ser humano mais extraordinário que já conheci.' Ele diz que Malawakuyalá 'não fazia um gesto quando bastava um olhar, não dizia uma palavra quando bastava um gesto' e conseguia liderar sua aldeia, onde viviam 200 pessoas, pela sabedoria, pelo conhecimento, pela experiência. 'Estamos falando de sociedades que preservam os valores mais simples e fundamentais', afirma.

De volta ao Xingu, em companhia do mesmo câmara Lula Araújo - com 75 anos, o técnico de som Antonio Gomes não pôde seguir viagem -, Washington gerou em 1984 as imagens únicas de um mundo que não existe mais. Para tanto, embrenhou-se no meio do mato quando o País se mobilizava pelas Diretas-Já e retornou com um tesouro histórico. Em 2006, captou sinais de uma transformação dramática, que ninguém sabe como vai terminar.

OESP, 26/11/2006, Caderno 2, p. D9

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