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Retrato ambiental

O Globo, Opinião, p. 6
12 de Jan de 2007

Retrato ambiental

O vazamento de 400 milhões de litros de lama tóxica, em março do ano passado, de reservatórios da Mineradora Rio Pomba Cataguases, em Miraí, Minas Gerais, já havia sido um desastre ecológico de grandes proporções. Por estar situada às margens de um rio, o Muriaé, afluente do Paraíba do Sul, essa empresa é uma bomba ambiental com elevado poder de destruição.

É o que se constata, novamente. Agora, em dimensões ainda mais graves. 0 vazamento
do rejeito do processo de lavagem de bauxita, matéria-prima do alumínio, ocorrido a partir de quarta-feira, foi inicialmente estimado em 2 bilhões de litros, cinco vezes mais do que em março. Ontem, porém, o secretário estadual de Ambiente, Carlos Minc, temia que o despejo chegasse a 10 bilhões de litros, um número catastrófico.

Pela manhã, a lama, em que pode haver a presença de sulfato de alumínio e possivelmente cromo, um metal pesado, havia forçado a suspensão do abastecimento de água em três cidades já no Estado do Rio: Laje do Muriaé, Itaperuna e São José de Ubá. A última escala do desastre será Campos, maior cidade da região, próximo à foz do Paraíba.

Para trás, como em março, será deixado um rastro de peixes mortos, cadeia ecológica danificada, atividades econômicas paralisadas e toda sorte de inconvenientes para uma população de milhares de pessoas.

0 que permite a repetição, e em escala ampliada, de um desastre como este? É indiscutível que a empresa é negligente e as autoridades ambientais de Minas falharam. Como volta e meia falham as instituições do setor. Vide o caso da Ingá, uma bomba destruidora semelhante, em forma de lago, existente à beira da Baía de Sepetiba, em Itaguaí.

0 governo mineiro deve tratar de analisar essa inaceitável sucessão de falhas. Políticos e governo federal também precisam fazer o país entender um paradoxo que afeta o meio ambiente no Brasil: em certas áreas, onde não precisaria haver muita regulamentação, há empecilhos, burocracia, fiscalização excessiva e ação vigilante, e até opressora, de promotores e procuradores; em outras, como está demonstrado na reincidência dessa empresa mineira, o laissez-faire chega a ser criminoso.

O Globo, 12/01/2007, Opinião, p. 6

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