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A responsabilidade de Marina

O Globo, Economia, p. 27
Autor: VIEIRA, Agostinho
21 de Ago de 2014

A responsabilidade de Marina

AGOSTINHO VIEIRA
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

Pelo menos dois benefícios, ambos relevantes, a candidatura de Marina Silva traz para a campanha presidencial. O primeiro, imediato. O pleito ficou menos monótono, ganhou bastante em emoção. A segunda vantagem é que alguns temas, que andavam convenientemente esquecidos, como mobilidade urbana, clima, biodiversidade, lixo, energias renováveis, água e saneamento voltarão para a pauta.

Mas existe uma diferença importante entre a Marina de 2010 e a de 2014. A que subiu no palanque há quatro anos não tinha grandes pretensões. Mesmo assim, mobilizou o eleitorado jovem, urbano e surpreendeu o país com 19 milhões de votos. A de hoje, segundo as pesquisas, não é mais uma aposta, uma tentativa qualquer. Impulsionada pelos erros do governo, pela falta de carisma da oposição e pela comoção causada pela morte de Eduardo Campos, a senadora do Acre passa a ter chances reais de assumir o posto mais importante do país.
E essa posição, alguém já disse, separa os homens dos meninos. Será uma pena e uma perda de tempo se Marina passar pela eleição balançando a bandeira da sustentabilidade como se estivesse em um comício. O momento exige que a candidata mostre claramente o que pretende fazer. Diga quanto vai custar investir nas alternativas A ou B e como financiará as propostas. Além, é claro, de apresentar o modelo de governança que usará para alcançar tais objetivos. O que inclui muita negociação, inclusive no Congresso.
Existe uma tendência nas pessoas a simplificar a vida e as discussões. É muito mais fácil classificar o candidato A como verde, o B como marrom e o C como cinza, do que entender exatamente o que eles pensam. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, já disse mais de uma vez que quando deixar o governo escreverá um livro com o título "Cinquenta tons de verde", falando sobre as diversas correntes que dividem o chamado setor ambiental no Brasil.
Isso fica claro, por exemplo, quando se aborda a questão da matriz energética brasileira. Devemos ou não continuar construindo hidrelétricas na Amazônia? Se sim, elas seguiriam o modelo fio d'água, com pequenos lagos, ou voltariam a ter grandes reservatórios? O primeiro preserva mais a floresta, mas garante menos energia. Sem a energia hídrica, é preciso apelar para as poluentes e ineficientes usinas termoelétricas. Também há quem defenda que não se toque mais na floresta e que o país volte a investir pesadamente em energia nuclear.
Ou seja, não tem nada de simples e nem de óbvio. Não existe resposta certa. Todas apresentam vantagens e desvantagens. É preciso fazer conta, pesar as consequências para o presente e para o futuro. Há muito a sustentabilidade deixou de ser coisa de ecochato. O aquecimento global e os evidentes limites do planeta acabaram com essa bobagem. Não dá mais para falar sobre o futuro do Brasil sem considerar as mudanças climáticas e todos os seus efeitos. Seria ou será uma enorme irresponsabilidade.
E não são apenas os danos ao meio ambiente. Trata- se também de uma questão econômica. Quanto custará explorar o pré-sal se o mundo resolver taxar as emissões de CO2? Mas é, principalmente, um problema social. Pois serão os pobres da Baixada e do sertão nordestino os mais afetados pelas cheias e pelas secas. Ah, mas se isso acontecer será só em 2050. Não é verdade. Esse é um problema de hoje, que precisa ser enfrentando pelos eleitos de outubro.
Assim como é preciso acelerar a universalização do saneamento no país. Nossa maior vergonha. A meta de 2030 é imoral e antiética. Resolver a coleta e o tratamento adequado dos esgotos ajudará a solucionar o problema da água, que aflige enormemente a população do Rio, de São Paulo e de Minas. Antes, a falta d'água era coisa de rincão no Nordeste, agora ela bate nas portas dos Jardins e do Leblon.
Outro tema que não pode esperar mais quatro anos é o lixo. A Política Nacional de Resíduos Sólidos é boa, mas não está sendo implantada como deveria. Falamos de lixões, assunto do século passado. Deveríamos estar tratando de aproveitamento energético dos resíduos, reciclagem e compostagem.
O mundo caminha para uma economia de baixo carbono. Não porque é politicamente correto, mas porque não há alternativa. Podemos encarar o fato como ameaça ou oportunidade. Só não há mais tempo e espaço para fingir que nada acontece. Estará nas mãos de Dilma, Aécio ou Marina liderar esse processo. A história e o acaso os puseram nesta situação. l

19 milhões
Foram os votos que Marina Silva teve na última eleição. Agora, as pesquisas indicam que ela pode chegar mais longe. É hora de apresentar propostas claras e mostrar como fazer e quanto custará para que o Brasil siga o caminho do desenvolvimento sustentável.

E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

O Globo, 21/08/2014, Economia, p. 27

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