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Resgate energético

CB, Opinião, p. 16
09 de mar de 2004

Resgate energético

Com o lançamento dos carros movidos a álcool carburante ou gasolina, o Brasil retoma a alternativa tecnológica aqui produzida há 29 anos para enfrentar a crise no suprimento de petróleo dos anos 70. O uso de matriz energética com base na cana-de-açúcar resultou de pesquisa e experimentação conduzidas, a partir de 1975, pelo Programa Nacional do Álcool (Proálcool). Foram intensos os estímulos para que o álcool, utilizado para mover veículos, servisse também como insumo industrial em substituição a derivados de petróleo, entre os quais a nafta.

A partir de 1986, a imprevidência e as conveniências de ocasião, traços singulares de nossa cultura política, condenaram o Proálcool a uma lenta agonia. Investimentos de quase US$ 10 bilhões escorreram pelo ralo. Bastaram as cotações do petróleo voltar aos níveis normais (o barril chegou a custar inacreditáveis US$ 60) para o programa cair no limbo. A tentativa de restaurá-lo em 1995, quando a lei mandou adicionar 22% de álcool à gasolina, frustrou-se diante de vários obstáculos. Não havia vontade política consistente para superá-los.

A recente convergência de interesses entre montadoras e usineiros concedeu alento à produção de veículos aptos a consumir gasolina ou álcool. Os modelos bicombustível postos à venda desde o ano passado avançam de forma agressiva no mercado. Equivaliam em 2003 a 56% da frota abastecida com carburante oriundo da cana-de-açúcar. Em janeiro, contudo, a participação elevou-se a 86%. O governo deu sua bênção ao novo surto produtivo. Em vez de 33% de impostos incidentes sobre veículos à gasolina, a taxação do bicombustível foi reduzida para 30%.

Tanto foi o desprezo destinado no passado ao Proálcool que, na década de 90, a Petrobras viu-se compelida a importar álcool para suprir a frota de mais de quatro milhões de unidades. Agora, a indústria produziu 12,5 bilhões de litros em 2003. Este ano a produção será de 14,5 bilhões. A cada ano, até 2007, 2,8 bilhões a mais estarão disponíveis no mercado, quando as montadoras venderão nada menos de um milhão de carros bicombustível. A expectativa é de satisfação plena da demanda.

O sistema alternativo álcool-gasolina traz vantagens múltiplas: é 100% nacional, reduz a poluição a níveis toleráveis, é menor o gasto com combustível. A cada 28 metros cúbicos a mais de carburante produzido na indústria alcooleira cria-se novo emprego. Resta esperar que, daqui por diante, uma fonte energética de tamanha importância estratégica seja resgatada em definitivo. Que a lição do passado se mostre útil para evitar a repetição de erros desastrosos ao desenvolvimento do país.

CB, 09/03/2004, Opinião, p. 16

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