OESP, Nacional, p. A10
11 de Jan de 2004
'Reserva será um zoológico de índios'
'Rei do arroz' de Roraima diz que projeto do governo 'mata' agricultura no Estado
Leonencio Nossa
Enviado especial
Num Estado dominado pela floresta, com uma população que não passa de 340 mil habitantes e onde a maior fonte de renda vem dos contracheques dos servidores públicos, os plantadores de arroz de Roraima mostraram, na última semana, o poder de fogo de um setor que gera mil empregos diretos e 6 mil indiretos, movimentando R$ 100 milhões por ano.
Números altos para um lugar com quase nenhuma indústria e poucas frentes de trabalho no campo. Eles isolaram por três dias a cidade de Boa Vista para protestar contra a decisão do governo federal de criar a reserva indígena Raposa Serra do Sol, de 1,7 milhão de hectares, que engolirá um município e 70% de suas plantações de arroz.
Paulo César Quartiero, de 52 anos, deixou há 28 anos a cidade gaúcha de Passo Fundo para trabalhar como engenheiro agrônomo em Roraima. Hoje, é considerado o "rei do arroz" no Estado. Afirma possuir 9,2 mil hectares de terra, 3 mil cabeças de gado, 5 mil hectares de plantações. O Arroz Acostumado, marca registrada de Quartiero, é vendido em boa parte da região Norte e em alguns países que fazem fronteira com o Brasil.
"Querem matar a agricultura do Estado", diz ele. "A forma de criação de reserva consiste em fazer zoológicos de índios, isolando-os." Quando chegou a Roraima, o então território federal contava com pouco mais de 40 mil moradores e estava totalmente isolado na selva amazônica. Ainda assim, Quartieiro avalia que Roraima era o "paraíso".
Depois de quase três décadas e 15 anos da criação do Estado, Roraima ganhou rodovias asfaltadas, alguma melhoria nos serviços oferecidos pelo poder público e pela iniciativa privada.
O poder das entidades indígenas, de organizações não-governamentais e até da Igreja também aumentou. Mais de 40% das terras do Estado foram reservadas aos índios. O território dos ianomâmis, com 9,6 milhões de hectares, é o maior no Estado. "Há um esquema internacional que põe índios para grilar terras", reclama o fazendeiro. "Se a gente levanta a bandeira do Brasil, apanha."
Gafanhotos - Dono de 2,5 mil hectares plantados de arroz, Genor Faccio, 46 anos, considerado o segundo maior produtor de Roraima, disse que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, aproveitou o enfraquecimento das autoridades do Estado, envolvidas no "escândalo dos gafanhotos" para homologar a reserva indígena. Um total de 56 pessoas participavam, segundo o Ministério Público, do esquema que desviava recursos da folha de pagamento do Estado.
"Com o escândalo dos gafanhotos, o ministro percebeu que a classe política de Roraima estava enfraquecida e resolveu anunciar a homologação, mas não esperava a reação da população", disse. "Nós conseguimos parar o Estado", comemorava ele, na sexta-feira.
Natural de Erechim, Rio Grande do Sul, o fazendeiro vive há 25 anos em Roraima. Há oito planta arroz na área que poderá virar reserva indígena. Ele explica que essa região é uma das melhores do País para plantar arroz por ser alta, ter muito sol e muita água. Afirma que dinheiro nenhum paga os esforços e investimentos feitos na propriedade nos últimos anos. "O setor poderia ter expandido ainda mais se não houvesse a ameaça de criação dessa reserva."
Pedro Casarim, outro gaúcho plantador de arroz em Roraima, foi um dos fazendeiros que levaram funcionários e tratores para bloquear as pistas de acesso à capital. "Preferia estar na minha propriedade cuidando do plantio", diz. Casarim emprega 40 pessoas, sendo seis índios de aldeias da região.
"Roraima é ou não do Brasil?", indaga. "Querem internacionalizar o Estado.
Se eles nos agredirem, vamos enfrentá-los."
OESP, 11/01/2004, Nacional, p. A10
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