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Represas no limite ameaçam população de três cidades de SP

OESP, Metrópole, p. C1
12 de Jan de 2010

Represas no limite ameaçam população de três cidades de SP
Com tempestades, reservatórios podem transbordar; cheias afetarão Atibaia, Piracaia e Bom Jesus dos Perdões

Rodrigo Brancatelli

Se a previsão do tempo se concretizar e fortes chuvas continuarem atingindo São Paulo ainda nesta semana, as regiões ribeirinhas das cidades de Atibaia, Piracaia e Bom Jesus dos Perdões vão sofrer com alagamentos. De acordo com relatório da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp), o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água da região metropolitana, opera no limite - com 97,5% da capacidade total de armazenamento. Com novas tormentas, o reservatório deixará de segurar a água, aumentando drasticamente o nível dos rios e provocando enchentes.

"Desde 1999 não temos uma situação como esta", disse Hélio Castro, superintendente de Produção de Água da Sabesp. Segundo ele, as Represas Paiva Castro, Cachoeira e Atibainha estão acima dos níveis de segurança. "É como uma caixa-d"água. Se entra mais água do que sai, ela vai acabar transbordando. Já foi feito trabalho com às comunidades que vivem às margens das represas. O Sistema Cantareira é extremamente importante, mas ele tem um limite para acumular a água das chuvas. Se na quarta-feira voltar a chover, provavelmente na semana que vem as cidades de Atibaia, Piracaia e Bom Jesus dos Perdões devem sofrer com alagamentos."

A situação de emergência, no entanto, não é exclusividade do Sistema Cantareira. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), mais da metade dos reservatórios do País está com comportas abertas por causa do excesso de água armazenada. Isso significa que 76 das 134 represas do sistema elétrico nacional têm jogado água fora nos últimos dias para evitar transbordamentos. Em São Paulo, as válvulas que regulam a vazão dos reservatórios estão abertas desde 18 de dezembro.

De acordo com o registro da Sabesp, o índice de chuva acumulado em janeiro é de 149,6 milímetros (cada mm equivale a um litro de água por metro quadrado), sendo que a média história deste mês é de 255,9 mm. Para se ter uma ideia desse volume das chuvas, a Represa Atibainha chegou a receber na semana passada de 33 a 70 metros cúbicos de água por segundo - enquanto isso, a Sabesp só conseguiu fazer o descarregamento de 14 m³ por segundo. Essa operação de descarregamento, essencial para a segurança do sistema, é feita com monitoramento diário, tanto das vazões de água como das condições das populações ribeirinhas e jusante das barragens, para evitar enchentes.

ABASTECIMENTO

"Mesmo com o trabalho de descarregamento, o Sistema Cantareira já está no seu limite e não aguenta mais represar tanta água", disse Castro. "É só ver Atibaia, que já sofreu com esse transbordamento. A represa tem essa dinâmica."

O sistema abastece quase 9 milhões de pessoas das zonas norte, central, parte da leste e oeste da capital paulista e os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba e São Caetano do Sul e parte dos municípios de Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André. Ele é responsável pelo abastecimento de 50% da população que vive na Grande São Paulo. Para produzir essa quantidade de água, o Cantareira faz a transposição entre duas bacias hidrográficas, importando água da Bacia do Piracicaba para a Bacia do Alto Tietê.

Em Atibaia, contêineres viram abrigos
Primeira opção de alojamento é em quadra de escola; há cerca de 80 famílias desabrigadas

Tatiana Fávaro
Atibaia

O nível das águas baixou um pouco em Atibaia no fim de semana e a prefeitura começa agora a cadastrar as famílias interessadas em sair dos locais mais afetados, como a Vila São José. Quem topar deixar a casa alagada - algumas sem chance de serem recuperadas e infestadas de pragas -, no entanto, pode não ter muito o que comemorar. Os abrigos são montados em uma escola pública e em contêineres metálicos e serão usados em casos emergenciais, segundo o secretário municipal de Urbanismo e Meio Ambiente, José Roberto Tricoli.

A administração está montando 36 módulos fechados por divisórias, com 3,5 por 6 metros, na quadra da Escola Walter Engrácia de Oliveira. Quem ficar na quadra terá os banheiros da escola à disposição. No Campo Santa Clara, haverá 14 contêineres de 6 por 2,3 metros (parte deles com vaso sanitário) e outros 2 módulos apenas com vasos sanitários e chuveiros. As instalações têm janelas para amenizar o calor: fez 30oC ontem, segundo a Climatempo. Ninguém ainda foi transferido.

Contêineres semelhantes já foram usados em prisões, como no Espírito Santo, provocando uma avalanche de críticas por parte de organizações de direitos humanos e representantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Esses "abrigos" são conhecidos como "micro-ondas". "Eles foram alugados e colocados perto do local atingido, porque as famílias têm receio de ir para mais longe e perder suas coisas", afirmou Tricoli.

Ontem, assistentes sociais distribuíram doações, principalmente água, leite e material de limpeza. A prefeitura informou que deverá derrubar as habitações insalubres após a transferência das famílias, e que tudo será feito após acordo com os moradores. A administração tem projeto de construir um alojamento permanente, com quarto, banheiro e área de serviço, enquanto as moradias definitivas - de sete projetos habitacionais - estiverem em construção. A conclusão deve ocorrer em dois meses.

Na sexta-feira, havia 80 famílias desalojadas e 15 desabrigadas. Há uma semana a prefeitura declarou estado de emergência no município - já são 21 localidades em todo o Estado.

Atibaia e São Paulo terão mais chuva hoje, diz Inpe

Rodrigo Burgarelli

A previsão do tempo para Atibaia nos próximos dias é de mais chuva. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estima que há 90% de probabilidade de que chova na cidade durante os próximos três dias. A situação é parecida com a das demais áreas de São Paulo, o que levou o Inpe a declarar estado de atenção em todo o Estado. "É um aviso de que pode chover forte. Quem normalmente tem problemas com a chuva deve tomar mais cuidado", diz a meteorologista do instituto Kelen Andrade.

Na capital, os riscos preocupam as autoridades. A Defesa Civil decretou estado de alerta para São Miguel Paulista e Itaim Paulista, regiões que vêm sofrendo seguidamente com o problema das enchentes. Vários bairros de todas as zonas da cidade ficam em estado de atenção. Segundo o órgão, a medida é preventiva, já que podem ocorrer mais alagamentos na capital.

OESP, 12/01/2010, Metrópole, p. C1

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