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Represas em níveis baixos elevam custo da energia

OESP, Economia, p. B3
04 de nov de 2017

Represas em níveis baixos elevam custo da energia
Reservatórios de Sobradinho, Serra da Mesa, Três Maria e Furnas operam em patamares mínimos históricos para essa época do ano

André Borges e Anne Warth, O Estado de S.Paulo
03 Novembro 2017 | 22h15

BRASÍLIA - Os recentes sinais de melhora do ambiente econômico levaram o governo a reavaliar suas projeções de crescimento do PIB para 2018, elevando o crescimento do País de 2,5% para 3%. Mas o setor elétrico pode ser um entrave. A ocorrência de chuvas abaixo da média histórica e a persistente estiagem que atinge a Região Nordeste, situação que exige o acionamento constante das usinas térmicas - mais caras -, têm gerado um efeito cascata em toda a indústria, com potencial impacto sobre o ritmo da recuperação.
A cúpula do setor elétrico garante que, mesmo com o crescimento do PIB em 3%, não há risco de desabastecimento de energia no País, tanto por conta do potencial do parque instalado quanto das novas turbinas que entrarão em operação nos próximos meses. O impacto preocupante, portanto, não é operacional, mas financeiro, já que o preço da energia, que costuma ser um dos principais insumos para muitos setores, ameaça a velocidade da retomada estimada pelo governo.
"Dos 62 mil megawatts de energia que o Brasil consome diariamente, cerca de 15% vão para indústrias de pequeno e médio porte. Diferentemente da grande indústria, que tem contratos de aquisição de energia baseados em acordos de longo prazo, essas empresas estão expostas a essas altas repentinas de preço e deverão sofrer com isso", diz Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc, gestora independente de energia.
Escalada. Os dados do IBGE confirmam a escalada de preços. Entre janeiro e setembro, enquanto a inflação acumula alta de 1,78%, o aumento da conta de luz já acumula alta de 5,8%. Em 2016, o preço da energia deu uma trégua e chegou a cair 10,66%, ante uma inflação de 6,29%, mas ainda assim não conseguiu equalizar os estragos do ano anterior, quando o preço disparou e a conta subiu 51%, ante uma inflação de 10,67%.
O cenário permanece crítico porque, mesmo que as chuvas de dezembro a março registrem um bom volume, não serão suficientes para restabelecer volumes razoáveis de água nos maiores reservatórios do País, como Sobradinho (Bahia), Serra da Mesa (Goiás), Três Marias e Furnas (Minas Gerais). Todos operam hoje com níveis mínimos históricos para essa época do ano.
"Esse impacto do preço da conta de luz é pesado, porque afeta diretamente pequenas e médias indústrias que não estão protegidas por contratos de longo prazo, e ficam expostas a essa situação. E sabemos que, infelizmente, isso vai continuar algum tempo. O que vemos é pressão tarifária nos próximos dois anos, o que puxa a inflação e compromete a competitividade das empresas", diz Roberto Wagner, especialista em política industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, afirma que as decisões de investimento são avaliadas sob a perspectiva do longo prazo. Ele reconhece que a energia é relevante no processo produtivo, mas pondera que o aumento desse custo é conjuntural. "Estamos enfrentando a seca mais severa da história. Quando isso se reverter, o custo da energia também vai cair", afirmou.
A política de transparência e de realismo tarifário adotada pelo governo, segundo Sales, tem trazido mais segurança ao investidor. "Essa postura é bem vista, porque mostra coerência. São as surpresas que ameaçam os investimentos", disse.
Impacto. A indústria eletrointensiva é uma das mais afetadas pelo aumento do custo da energia. O superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, disse que a falta de chuvas não é o único problema. Ele destaca que os subsídios embutidos na conta de luz e as indenizações devidas a transmissoras de energia são itens que encarecem o insumo. "Antes o problema fosse apenas água." A situação tem levado alguns setores da indústria a cogitar até a possibilidade de vender sua energia e deixar de produzir.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia, Edvaldo Alves de Santana, a reforma do setor elétrico proposta pelo governo é uma forma de lidar com esses problemas. "A questão é que essa reforma é de difícil implementação e terá efeito no longo prazo, enquanto alguns problemas são urgentes e não podem esperar pelo amanhã."

Para governo, preço mais alto da energia tem impacto limitado
Na avaliação do secretário executivo do MME, Paulo Pedrosa, câmbio tem mais impacto na competitividade da indústria

André Borges e Anne Warth, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - O aumento do custo da energia não é um fator que limita a retomada do crescimento econômico, afirma o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia (MME), Paulo Pedrosa. Na avaliação dele, o câmbio tem mais impacto na competitividade da indústria do que o custo da energia. Segundo Pedrosa, o mais importante para o setor produtivo é a garantia de que haverá energia suficiente para abastecer o País, e isso está assegurado.
"Nossa visão é de que o custo não vai impedir o crescimento econômico. Para a indústria, o grande problema seria o desabastecimento, mas isso não vai ocorrer", afirmou. "A não ser para a indústria eletrointensiva, a energia não define a competitividade da produção."
Pedrosa, que atuou por muitos anos no setor privado, explica que a grande indústria compra energia com antecedência e garante contratos de médio e longo prazos com custos mais baixos.
O secretário executivo reafirmou que o abastecimento de energia está garantido e que "criar um ambiente favorável é mais importante do que as questões de curto prazo". Entre as medidas que ajudam a criar um clima mais favorável estão o novo modelo do setor, a privatização da Eletrobrás, a revisão dos subsídios e as soluções para problemas bilionários que assombram os agentes há anos, como o risco hidrológico e a indenização das transmissoras.

Grandes hidrelétricas estão fora de planos de expansão
Usinas hidrelétricas respondiam por mais de 80% da geração de energia há 20 anos; hoje, representam 60%

André Borges e Anne Warth, O Estado de S.Paulo
03 Novembro 2017 | 22h25

BRASÍLIA - A pressão sobre os reservatórios das hidrelétricas tende a aumentar nos próximos anos, dada a ausência de novos projetos baseados na construção de grandes barragens e geração hídrica. Depois de uma década de investimentos em empreendimentos de grande porte, como Jirau, Santo Antônio, Belo Monte, Teles Pires e São Manoel, todas instaladas na região amazônica, o governo praticamente paralisou a construção de novos empreendimentos, por conta da complexidade ambiental desses projetos. Se dois anos atrás previa-se mais de 10 mil megawatts (MW) de energia com projetos hidrelétricos a serem instalados na próxima década, hoje essa projeção é de 3 mil megawatts.
"Usinas solar e eólica são complementares e importantes, mas não podem ser a principal fonte do País. Hoje estamos vivendo um problema estrutural no setor elétrico, porque deixamos de fazer usinas com grandes reservatórios. Antes tínhamos três ou quatro anos de previsibilidade de abastecimento, mesmo com falta de chuvas, devido aos nossos reservatórios. Hoje, essas estruturas suportam apenas meses se água. Perdemos esse benefício", diz Roberto Wagner, especialista em política industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Há 20 anos, as hidrelétricas respondiam por mais de 80% da geração de energia. Hoje, representam 60%. As mudanças nessa matriz terão impacto econômico. Um estudo elaborado pela CNI aponta que, para o Brasil cumprir o acordo de reduzir em 43% as emissões de gases de efeito estufa até 2030, terá de desembolsar R$ 15 bilhões a mais do que o previsto pelo Plano Nacional de Energia (PNE). Segundo o levantamento, o investimento necessário para o País se adequar à meta da COP 21 para o setor elétrico - de aumento da parcela de geração renovável para ao menos 23% do total, desconsiderando a energia hídrica - será de R$ 316 bilhões até 2030, enquanto as estimativas do PNE são de R$ 301 bilhões.
Na avaliação da CNI, a tendência é de que novas usinas a gás natural também passem a fazer parte dos investimentos em térmicas, para substituir usinas mais antigas e mais poluentes - de geração a diesel e carvão, por exemplo -, reduzindo assim os índices de emissão.

OESP, 04/11/2017, Economia, p. B3

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