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Autor: Elói Martins Senhoras
12 de Jun de 2012
O conceito de patrimônio cultural tem passado ao longo das décadas pela acumulação de novos significados até o momento atual, sendo compreendido constitucionalmente como o conjunto dos bens de natureza material e imaterial que são portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade.
Conservar o patrimônio cultural possui uma função social educativa que é aplicada para salvaguardar a coesão dos grupos humanos em suas transformações por meio da compreensão de que há uma identidade dinâmica que corrobora para o sentimento de pertencimento a um espaço e tempo determinado, tal como em um processo de continuum in tempore.
A educação patrimonial trata-se de uma proposta metodológica de ensino interdisciplinar voltada para a preservação do patrimônio ambiental ou cultural que tem sido estruturada tanto empiricamente em comunidades com sítios naturais ou arqueológicos, quanto teoricamente com o objetivo de sensibilização dos indivíduos e dos grupos sociais sobre a importância do reconhecimento, da valorização e da conservação patrimonial.
Embora o estado de Roraima apresente um rico patrimônio arqueológico e cultural, a presença de vários sítios em terras indígenas ou de valores esquecidos criam empecilhos significativos para a população do estado conhecer a própria história, motivo pelo qual se faz importante repensar a educação patrimonial não somente como uma metodologia de valorização e conservação do patrimônio cultural, mas também como um instrumento estratégico para o etnodesenvolvimento, já que quase 46,37% das terras estaduais encontram-se em reservas indígenas.
Em um momento em que ainda não existe um manual brasileiro sobre educação patrimonial em comunidades indígenas, é necessário ressaltar o trabalho da Universidade Federal de Roraima (UFRR), por meio do Instituto INSIKIRAN, e da Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), na formação de alunos indígenas em cursos de licenciatura intercultural, já que acumulam experiências de alguns anos justamente na valorização e preservação das culturas indígenas.
A relevância do INSIKIRAN neste tema reside na busca para sistematizar e publicizar algumas iniciativas metodológicas em educação patrimonial, já existentes, do curso de licenciatura intercultural para indígenas na UFRR, haja vista que incorpora importantes subsídios para a construção de estratégias de educação patrimonial em comunidades indígenas de Roraima e de outros estados brasileiros.
Destarte, a construção de metodologias de educação do patrimônio cultural nas comunidades indígenas tem justificado, cada vez mais estudo e uma proposição elaborativa, pois há uma correlação positiva direta entre a valorização e conservação cultural e natural do estado e a participação do movimento indígena nesse processo, já que vários sítios arqueológicos e culturas indígenas do lavrado, da floresta e dos centros urbanos continuam a ser depredados a despeito da atuação do IPHAN, da FUNAI e de outras instituições.
Conclui-se que a educação patrimonial voltada para os povos indígenas é estratégica, tanto, para as comunidades tradicionais, quanto, para o desenvolvimento cultural e turístico do estado de Roraima, demonstrando, assim, a grande relevância para a própria preservação da cultura material e imaterial de um país que teve seu território totalmente ocupado por povos indígenas, pois, embora, o processo histórico tenha reduzido a população indígena a 0,3% da população atual, existe uma ascendência indígena em aproximadamente 57 milhões de brasileiros.
** Economista e cientista político. Professor na Universidade Federal de Roraima (UFRR). E-mail para contato: eloisenhoras@gmail.com. Outros artigos o autor disponíveis em: http://works.bepress.com/eloi
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