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Região do Xingu no Pará tem nove leitos para 400 mil pessoas

OESP - https://saude.estadao.com.br/noticias/geral
15 de mai de 2020

Região do Xingu no Pará tem nove leitos para 400 mil pessoas
Médicos denunciam em carta a falta de profissionais, EPIs e capacidade de atendimento na rede de alta e média complexidade para atender à demanda

Roberta Paraense, especial para o Estado

BELÉM - A pandemia do novo coronavírus está sufocando, a cada dia, o sistema de saúde do município paraense de Altamira, na região do Xingu. Profissionais de saúde e a população em geral padecem com a falta de medicamentos, Equipamentos de Proteção Individual (EPIS) e, sobretudo, com poucos leitos para atender a crescente demanda de pacientes. A cidade, localizada a 816 quilômetros de Belém, conta com apenas nove leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para atender cerca de 115 mil habitantes locais e de outras cidades da região. Ao todo, são mais de 400 mil pessoas.
Altamira, que não está sob decreto estadual de bloqueio total das atividades não essenciais, tem poucos locais de atendimento à saúde. O setor público da saúde do município conta apenas com a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), localizada no bairro do Jardim Uirapuru, com o Hospital Geral de Altamira São Rafael, administrado pela prefeitura, e com o Hospital Regional Público da Transamazônica. O município é considerado o maior em extensão do Brasil, inclusive se comparado ao território de outros países, como Portugal e Irlanda.
"Não temos mais UTIs disponíveis, elas estão no limite. As adultas são ocupadas por pacientes com vários tipos de problemas, não é só de coronavírus. Daqui a pouco, os médicos vão ter de escolher a quem salvar", relatou um médico do hospital municipal que prefere não se identificar. "Não tem testes disponíveis para detectar a covid-19 e isso pode impactar nos casos graves. Como anestesista, posso dizer que não há drogas como relaxante muscular nem propofol (anestésico intravenoso)", disse.
O profissional conta também que os leitos de UTIs infantis já estão começando a ser usados para atender adultos. "Estavam tentando uma negociação para usar as UTIs do hospital particular da região, mas, se a doença se agravar no município, os pacientes terão de ir para Santarém, a 500 quilômetros daqui. O Governo do Estado disse que vai fazer um hospital de campanha, mas, ao meu ver, nada vai adiantar se não tiver respiradores", continuou o médico.
A situação preocupa tanto os profissionais de saúde da região que uma carta, com a assinatura de 68 médicos relatando o desespero, foi feita. Além de poucos leitos de UTI, os que restam estão incompletos: "faltam medicamentos básicos para a manutenção da vida e do tratamento intensivo, colocando em risco a vida de nossos doentes para além daquele inerente à essa terrível doença que é a covid-19", disse a carta, que foi enviada ao Conselho Regional de Medicina (CRM) e à Justiça.
Os médicos denunciam na carta a falta de profissionais, de EPIs e de que o isolamento social voluntário não ocorreu e não foi aumentada a capacidade de atendimento na rede de alta e média complexidades para dar conta da demanda. "Fizemos a carta porque os médicos começaram a adoecer. Aos poucos, não vão aguentar e pedirão para sair e se tratar em casa. Temos uma impotência muito grande", lamentou uma clínica geral que também prefere não ser identificada.
Represálias
O diretor do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), Waldir Cardoso, comenta a delicada situação dos profissionais de Altamira. "O médico é muito reservado, e sempre tenta resolver os problemas entre eles. Quando chega à situação de pedir ajuda é porque o problema fugiu do controle", afirmou. O diretor ainda explica o posicionamento dos profissionais em pedir a ocultação das identidades. "A categoria teme represálias, que cedo ou tarde acontecem: ela é líquida e certa. Este ano já teve corte de 30% de salário, então há um receio", justificou Waldir.
Em relação à carta assinada pelos médicos de Altamira, destinada ao CRM-PA, ao Ministério Público e a outras autoridades, a autarquia informou, por meio de nota, que "teve conhecimento do documento através da imprensa, porém o mesmo ainda não foi protocolado no CRM Pará".
Oferta de dez leitos pela Norte Energia
Na carta, os profissionais também relatam a oferta anunciada da empresa Norte Energia, de dez leitos de UTI, que só chegará em julho, "quando será muito tarde", segundo os profissionais. Desde 2009, Altamira atrai atenções por ser a cidade mais próxima da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, administrada pela empresa. A obra de R$30 bilhões trouxe à cidade um inchaço populacional e, consequentemente, o aumento da violência.
Em nota, a Norte Energia informou que todos os equipamentos e materiais que se propôs a disponibilizar à população do entorno da Usina Hidrelétrica Belo Monte foram totalmente adquiridos. "Há, de fato, um grave problema da parte de fornecedores de modo geral, decorrente da intensa demanda frente ao momento atual. Tal dificuldade não afeta apenas a Norte Energia; atrasos de entregas aos Poderes Públicos e empresas solidárias são frequentemente divulgados. Não obstante, a empreendedora de Belo Monte já vem envidando esforços junto a seus fornecedores no sentido de antecipar as datas de entrega dos equipamentos e materiais", justificou no texto. Ainda segundo a empresa, as doações representam mais de R$ 6 milhões.
'Nosso sistema não está preparado'
O presidente do Conselho Municipal de Saúde de Altamira, Silvano Fortunato da Silva, disse que a situação está saindo do controle. "Não há medidas severas de isolamento social aqui. A população pouco usa máscaras e parte do comércio continua aberta. Apenas as escolas suspenderam as aulas. Enquanto isso, as filas nos hospitais aumentam e nossa preocupação é que não há suporte para um alto índice de doentes na região", observou.
Silvano garantiu que as pessoas estão apresentando sintomas de covid-19, mas a doença está subnotificada no local. "Não há testes para saber quem está com o novo coronavírus. Apenas os profissionais de saúde e da segurança que estão sendo testados. Todo mundo sabe disso aqui. As pessoas que estão doentes se isolam em casa e, nos casos mais graves, procuram os hospitais e voltam sem atendimento".
O presidente também denuncia a falta de medicamentos nas farmácias da cidade. "Quem procurar a cloroquina e a azitromicina não vai achar. Se o tratamento for feito antes da piora clínica, há uma chance de sobreviver. No entanto, se chegar ao quadro mais crítico, nosso sistema de saúde não está preparado. Já procuramos a Defensoria Pública, o Ministério Público, cobramos o prefeito e nem uma atitude mais rígida é tomada", sublinhou Fortunato.
O Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE/PA) ajuizaram uma ação no último dia, 7, com pedido à Justiça Federal para que seja determinada a liberação urgente de R$ 6 milhões do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) do Xingu para o combate à covid-19 em Altamira e região. Segundo o MPPA, uma nova ação deve ser protocolada nesta sexta-feira, 15.
Criado em 2010, o PDRS Xingu é o principal instrumento usado pelo governo e pela empresa responsável pela hidrelétrica de Belo Monte, a Norte Energia, para gerenciar e aplicar recursos na região impactada pela obra. Na criação do plano, a Norte Energia foi obrigada a investir no PDRS um total de R$ 500 milhões, do qual ainda restam cerca de R$ 215 milhões.
MPs e Defensorias pedem que a Justiça obrigue a União a autorizar a liberação dos recursos, e que a Norte Energia seja ordenada a repassar a verba ao Fundo Estadual de Saúde, gerido pela Secretaria de Saúde Pública do Pará (Sespa).
A ação também pede decisão urgente para obrigar o Governo do Pará a prestar contas da utilização dos recursos por meio de página específica na internet, com todas as documentações de procedimentos de compras e contratações atualizadas em, no máximo, cinco dias após a expedição dos documentos.
Membros dos MPs e Defensorias signatários da ação pedem ainda que a prestação de contas pelo Estado seja obrigatoriamente feita a cada 15 dias ao Conselho Estadual de Saúde e a cada 30 dias ao Tribunal de Contas da União (TCU). Foi pedido também que a gestão estadual seja obrigada a utilizar os recursos exclusivamente na execução do plano de contingência elaborado pelo Centro Regional de Saúde da Sespa para Altamira e região.
Segundo o plano de contingência, para que seja evitado um colapso no sistema de saúde da região, são necessários mais 20 leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) em Altamira, dois leitos de isolamento em Senador José Porfírio, três leitos de isolamento em Anapu, Vitória do Xingu e Brasil Novo, quatro leitos de isolamento em Medicilândia, e seis leitos de isolamento em Pacajá, Porto de Moz e Uruará.
Atualmente, os nove municípios da região do Xingu, que conta com mais de 400 mil habitantes, têm apenas nove leitos de UTI adulto, todos concentrados no Hospital Regional da Transamazônica, em Altamira.
Também é urgente a necessidade de contratação de 30 leitos comuns de retaguarda na iniciativa privada em Altamira, além da compra de respiradores e outros equipamentos, e a contratação de médicos e outros profissionais de saúde, indica o plano.
Hospital nega denúncias
A Pro-Saúde, Organização Social que administra o Hospital Regional Público da Transamazônica (HRPT), negou as denúncias. "Desde o início da pandemia, o HRPT conta com 36 leitos de internação para tratamento de pacientes suspeitos ou confirmados para a covid-19, sendo 16 leitos de UTI e 20 leitos clínicos. Desse total, a taxa de ocupação nesta quinta-feira (14/5) atingiu o índice de 77,7%. Em relação aos insumos e medicamentos, o hospital está com o seu estoque abastecido", informou em nota. "Referência no atendimento para mais de 500 mil pessoas na região do Xingu, o Regional da Transamazônica adotou todas as diretrizes e orientações de órgãos de saúde em relação à Covid-19", continuou o texto.
Sobre a doação enviada ao Regional pelo Consórcio Norte Energia, no mês de abril o hospital afirmou que recebeu 500 macacões impermeáveis de segurança para os colaboradores que estão atendendo na linha de frente contra o novo coronavírus. "Nesta quarta-feira, 13, o HRPT recebeu novos equipamentos doados pelo Consórcio que já estão em uso nos leitos de Enfermaria".

O Estado pediu posicionamento do Governo do Pará, mas ainda não obteve retorno. A reportagem não conseguiu contato também com a prefeitura de Altamira.

Confira a carta na íntegra:
Altamira, 11 de maio de 2020.
Ao Conselho Regional de Medicina do Pará - CRM - PA
Ao Ministério Público Estadual do Pará - MEP - PA
Ao Ministério Público Federal - MPF
À Secretaria Estadual de Saúde - SESPA
À Secretaria de Saúde de Altamira
À PROSAÚDE
À Norte Energia S.A.
A pandemia do Coronavírus iniciou na China em dezembro de 2019. Em janeiro de 2020 já chegava à Europa e em fevereiro tivemos o primeiro caso no Brasil. Hoje, são mais de 4 milhões de casos no mundo e quase 300 mil mortos registrados, 11.200 no Brasil. Ainda há muito o que se aprender sobre o vírus e a doença COVID-19, porém há pelo menos 2 meses já era previsto o alastramento da doença pelo Brasil chegando invariavelmente à Região Norte e à Região de Altamira e médio Xingu. Sabia-se também da infectividade do vírus e gravidade da doença, com cerca de 15% dos casos necessitando de tratamento de terapia intensiva (UTI) e cerca de 3,5% chegando a óbito.
Há 1 mês vimos o caos se instalar em cidades do Norte e Nordeste. O problema agora está em nossa casa e não estamos preparados. Não temos respiradores, nem profissionais suficientes, não há equipamentos de proteção individual para os trabalhadores da saúde, o isolamento social voluntário não ocorreu e não foi aumentada a capacidade de atendimento na rede de alta e média complexidade para dar conta de demanda.
Nossa região já dispunha de número insuficiente de leitos de UTI (9 leitos) para atender mais de 400 mil habitantes dispersos em uma área maior do que muitos países - muitas pessoas demoram dias de deslocamento para chegar ao Hospital Regional via fluvial e estradas em péssimas condições. Até agora o que conseguimos fazer foram improvisos, como transformar os únicos 5 leitos de UTI Pediátrica em leitos para adultos com COVID-19, diminuindo a já deficiente capacidade de atendimento a crianças em estado grave na região. Chegaram 3 respiradores enviados pelo governo do estado, inadequados para atender pacientes graves e que não serão utilizados pelo risco ao paciente. Os 10 leitos anunciados como "doação" pela Norte Energia no Jornal Nacional, têm previsão de entrega apenas para o mês de julho, quando será muito tarde. Cabe ressaltar que a empresa descumpriu diversos compromissos fundamentais, previstos como condicionantes para instalação e funcionamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
O que é evidente para nós, médicos, mas parece passar despercebido por gestores da saúde e dos governos, é que uma UTI não se faz apenas com respiradores. São necessários leitos, monitores multiparamétricos, bombas de infusão, antibióticos para tratar infecções, sedativos e analgésicos potentes para tirar a dor e permitir que os doentes não acordem quando estão intubados, medicações vasoativas para o coração não falhar, corticoides para reduzir inflamação. E é fundamental também que haja uma equipe de profissionais preparada e quantitativamente suficiente para prestar a assistência. Hoje, um número importante de médicos, fisioterapeutas, equipes de enfermagem já testaram positivo para o Coronavírus e não há quem os possa substituir.
Infelizmente o vivemos hoje é desesperador, pois nem os 9 leitos de que dispunham estão completos: faltam medicamentos básicos para a manutenção da vida e do tratamento intensivo colocando em risco a vida de nossos doentes para além daquele inerente à essa terrível doença que é a COVID-19.
A experiência no tratamento da doença em outros países (Espanha) e outros estados do Brasil tem mostrado que a chave para reduzir a mortalidade é o tratamento precoce, antes que o paciente necessite de UTI. Nesse sentido é fundamental garantir a ampla distribuição dessas medicações na rede básica de saúde. Bem como disponibilizar exames laboratoriais e tomografia de tórax de maneira mais ampla.
Em face a essa situação triste e alarmante, nós, médicos de Altamira e região pedimos que medidas urgentes sejam tomadas tais como: aquisição e distribuição de medicamentos preconizados para o tratamento da COVID-19 pelo ministério da saúde e para terapia intensiva, ampliação imediata dos leitos de UTI completos, tomografia de tórax, contratação médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, equipes de higienização e limpeza.
Certos de contar com vossa compaixão e providências urgentes.
Atenciosamente.

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