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Refugiados climáticos

O Globo, Ciência, p. 27
22 de abr de 2009

Refugiados climáticos
Avanço do mar e erosão forçam a mudança de moradores de reserva ecológica

Soraya Aggege

Em seus 68 anos, Antonio Cardoso nunca deixou a ilha que leva o sobrenome de seus ancestrais. Mas agora ele se prepara para se tornar um dos primeiros refugiados climáticos do Brasil. Terá que abandonar sua casa na Ilha do Cardoso, um paraíso com 96% de Mata Atlântica preservada. A causa é o aumento da erosão do litoral provocado por ressacas intensas. A restinga está prestes a se romper. Com isso, duas comunidades, com 53 caiçaras além de Antonio, terão que ser deslocadas, segundo a direção do Parque Estadual da Ilha do Cardoso.
A causa da erosão e das ressacas é incerta. Alguns cientistas acreditam que está ligada ao aquecimento global. Outros pensam que o fenômeno é parte de um ciclo natural. Uma coisa é certa, afirma a direção do parque, o rompimento da restinga acontecerá logo.
Além de reassentar as duas comunidades caiçaras da restinga - Enseada da Baleia (33 pessoas) e Enseada Norte (21 pessoas) - a direção do parque terá que enfrentar outro problema: a ilha pertence a São Paulo e fica na divisa com o Paraná. Mas quando a restinga se romper, a faixa de terra, de 6 kms, passará a pertencer ao Paraná.
- O fato é que a faixa de terra está se rompendo - afirma o administrador do parque, o geólogo Mário José Nunes de Souza.
A erosão começou a ser medida há 20 anos e só tem se intensificado.
Na Enseada da Baleia, o mar levou mais de dois hectares e os moradores tentam desesperadamente conter seu avanço com sacos de areia. Os geólogos dizem que é inútil. Pesquisas sobre os efeitos das mudanças estão em curso na Universidade Federal do Paraná.

Antonio Cardoso, líder da Enseada da Baleia, não quer deixar a terra onde seus ancestrais nasceram.
- A gente está com muito medo.
Mas prefeito, governador, presidente, ninguém faz nada. Eu tenho gastado o que não posso para fazer paredões de areia. Já se foram mais de 100 metros da nossa faixa.

Agora temos uns 160 metros. E as ressacas estão ficando mais fortes - afirma Cardoso.

Ele conta que os pescadores andam assustados com as possíveis mudanças climáticas: - Antigamente a gente olhava o tempo e dizia: hoje vai chover, amanhã não vai. Nossa vida foi toda assim, aprendendo a ler o tempo. Hoje não entendemos mais o que o tempo escreve.
Nelson Roberto da Cunha, de 30 anos, também mora na Enseada da Baleia. Pescador, ele nunca tinha ouvido falar em "refugiado climático" mas sabe o que significará ser um:
- É tudo muito triste. A verdade é que a natureza reclama e nós vamos embora.

Ivo Carlos Neves, 49 anos passados na Comunidade do Itacuruçá, reclama que o bar que montou está sendo engolido pelo mar:
- Em cinco anos, a erosão comeu mais de 30 metros de praia e agora vai engolir o bar. A vegetação da praia desapareceu.

As mudanças intrigam também o gestor ambiental do parque, Rodrigo José Silva Aguiar:
- A impressão é que a dinâmica natural das mudanças marítimas está acelerada. Notamos erosão acentuada em quase toda parte.

O oceanógrafo Edison Barbieri afirma que já encontrou indícios de mudanças nas populações de aves da Ilha do Cardoso.

- A população de espécies que estavam na lista de mais vulneráveis, como o pirupiru, cresceu. Ao mesmo tempo, outras diminuem como o maçarico-de-papo-vermelho - diz.

Litoral de Cananeia apresenta sinais de afundamento, revela pesquisa
Região também registra aumento de ressacas

Um pesquisa do Instituto de Oceanografia (IO) da USP em Cananeia revela que, além de uma elevação do nível do mar de 0,4 milímetro por ano, a terra está afundando. A variação é de 0,18 milímetro por ano.

- O litoral em Cananéia está afundando. Isso já está detectado.

Começamos a estudar Ubatuba. Se tivermos resultados semelhantes, vamos poder dizer que o litoral paulista está afundando. É um processo lento, mas há um afundamento da crosta - disse Afranio Rubens de Mesquita, autor da pesquisa.

Outro levantamento feito pelo cientista demonstra também que tem ocorrido um aumento nas ressacas na região.

- Infelizmente, no caso das ressacas, nossas medições não são de longa data. Os indícios são de que há um aumento - diz Mesquita.

Alexander Turra, também do IO, é especialista em animais marinhos e afirma que ainda não é possível relacionar mudanças no pescado com o aquecimento, mas diz haver indícios de um aumento das doenças por causa do estresse térmico.

Outra pesquisa, do professor Edmo Campos, da USP, indica que tem ocorrido uma mudança no padrão de ventos do Atlântico Sul. Aparentemente, um dos efeitos da mudança dos ventos é a alteração do padrão de confluência das correntes. De acordo com Campos, o padrão de circulação dos ventos pode alterar a distribuição do calor.

- A causa provável é o aquecimento global. Não dá para dizer que não há mudanças radicais ocorrendo. O problema é apontar as causas. Agora, afirmar cientificamente a causa ainda não podemos - observa Campos.

Felipe Toledo, também do Instituto de Oceanografia da USP, pesquisa os sedimentos do oceano profundo e está concluindo um estudo sobre as mudanças de precipitações no mar.

- Já temos sinais claros de mudanças e notamos efeitos também das ocupações desordenadas do litoral, do desmatamento, do desaparecimento de mangues - afirma Toledo.

O gerente de Qualidade Costeira e Marinha do Ministério do Meio Ambiente, Alberto Costa Lopes, conta que, nas avaliações que tem feito, várias regiões litorâneas brasileiras estão em situação crítica por causa dos efeitos de urbanização, agravados por mudanças climáticas. Outras áreas, como Cananeia, estariam sofrendo acelerações dos processos marítimos naturais por causa das mudanças climáticas.

- Há várias praias brasileiras onde têm ocorrido mudanças nas ondas, aumento nas ressacas e na erosão. Consideramos que esteja acontecendo uma combinação de fatores e o fato é que já estão sendo registradas mudanças no padrão de ondas, no aumento do nível do mar e no aquecimento do oceano - frisa ele.(Soraya Aggege)

O Globo, 22/04/2009, Ciência, p. 27

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