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A reforma da natureza

OESP, Vida, p. A18
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
12 de Jan de 2006

A reforma da natureza

Marcos Sá Correa

Começou mal o Fórum Nacional sobre o Plano Nacional de Áreas Protegidas. Tão mal que, a rigor, nem começou, como deveria, com a publicação da proposta na internet nessa quarta-feira. Ontem, que era o dia marcado para a estréia do debate online, quem procurou o projeto na página do Ministério do Meio Ambiente bateu, primeiro, na mensagem de boas-vindas do Coordenador Geral Maurício Mercadante. Gentil e informativa. Mas datada de 13 de maio de 2005. Tratava, portanto, das discussões que ficaram para trás.
Superado o desvio, não dava para ir direto ao assunto. Antes de chegar ao texto, cumpria fazer um cadastro, que no lançamento foi a pique. Preenchidos todos os quesitos, o próximo clique levava a um limbo povoado por símbolos indecifráveis, desses que os computadores usam para assustar os mortais. Ligar para Brasília, pedindo socorro para sair do buraco negro, também não adiantava. Do outro lado da linha, constava que o sistema estava com problemas técnicos, encrencado pelo excesso de conexões simultâneas.
Ou não, porque, à margem do fórum, na seção "últimas notícias", a última notícia era outra "consulta pública", sobre "diretrizes para visitação em unidades de conservação". Pudera: estava ali desde 31 de agosto do ano passado. Tudo isso dava a impressão de que a pressa acabara de invadir de repente um espaço onde as coisas acontecem devagar e nem sempre a seu tempo. Pior para a opinião pública. Descontado o primeiro dia de fórum, que acabou não valendo, sobram-lhe duas semanas e meia para palpitar sobre um plano que afeta todos os brasileiros, mas por enquanto só escutou a palavra dos 400 funcionários públicos e lideranças sociais que passaram os últimos 12 meses falando oficialmente em nome dos outros 185 milhões.
Vem com a pressa dos atrasados. É um plano para vigir até 2015 e sai em 2006 das entranhas de um governo que largou seus planos em 2005. Cheira a gaveta, retomando velhos temas que pareciam mastigados até perder o sal há mais de cinco anos, quando uma década de debates pôs finalmente de pé o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que os ambientalistas chamam de SNUC. "Como fantasmas", diz a bióloga Verônica Thuelen, com as orelhas calejadas de tanto ouvir os mesmos argumentos. Tudo o que perdeu a duras penas o embarque para entrar na lei do SNUC quer pôr o pé a bordo do novo plano.
Como está, ele tende a consagrar a prioridade das reservas indígenas, dos territórios quilombolas e das comunidades extrativistas na conservação da natureza. O que não deixa de ser um modo de reeleger, senão a ministra Marina Silva, pelo menos encarnou no governo Lula. E uma forma de passar aos presidentes que ainda nem saíram das urnas as linhas mestras de uma experiência que rendeu três anos de derrotas à natureza brasileira.
Os parques nacionais que já existem - em sua maioria criados por canetadas ditatoriais no Estado Novo e no regime militar, ou presidentes que não concluíram seus mandatos, como Jânio Quadros e Fernando Collor - estão à matroca. Os que foram anunciados no ano passado pela ministra encruaram. Os que foram herdados do presidente Fernando Henrique Cardoso encolheram, como na Chapada dos Veadeiros, ou sofrem novos ataques do próprio governo, como na Serra da Bodoquena, onde agora mesmo o Incra pretende desapropriar fazendas para instalar assentamentos da reforma agrária no Mato Grosso do Sul. Como sempre, nas bordas da reserva, recrutando o que resta de patrimônio natural para o combate à pobreza. Nada disso depende de plano, só de execução. Mas por isso mesmo não convém perder de vista o projeto que o Ministério do Meio Ambiente botou em debate. Se é que ele já chegou à internet, que ninguém é de ferro.

OESP, 12/01/2006, Vida, p. A18

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