OESP, Nacional, p.A10
07 de Dez de 2003
'Reforma agrária no Brasil é um fracasso total' Especialista prepara livro no qual diz por que vida piora ao trocar periferia das cidades pelo campo
ROLDÃO ARRUDA
Convencido de que os milhares de assentamentos rurais existentes no País já permitem a avaliação dos resultados da política de reforma agrária, o engenheiro agrônomo Francisco Graziano Neto, mais conhecido como Xico Graziano, decidiu ir a campo. Visitou acampamentos no Pará, andou pelo Nordeste, foi conhecer as experiências do Pontal do Paranapanema e de outros lugares. Voltou com material para um livro, que deve ser lançado em janeiro, com o título O Carma da Reforma Agrária no Brasil. Nele afirma que o País desperdiça dinheiro ao distribuir terras para quem não sabe trabalhar nela.
Ele conta que encontrou até assentados morando em condições piores do que aquelas que enfrentavam na periferia das cidades. "Nas favelas podiam pelo menos fazer um gato e desfrutar do conforto da energia elétrica. Lá, nem isso. No Pará, 50% dos assentamentos não têm energia elétrica."
Graziano é especialista em economia agrária, com um título de doutor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), e dirigiu o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1995, no início do governo Fernando Henrique Cardoso. Já escreveu quatro livros sobre o assunto. Este será o primeiro, porém, em que adota o viés de um repórter, com relatos e fotos do que viu.
"Embora exista a idéia geral de que a reforma agrária é uma coisa legal para o Brasil, o projeto é um fracasso total. Nada funciona", diz. "A começar pelo desrespeito ao meio ambiente: onde avançam o assentamento, a depredação da floresta se intensifica. No Pará, vi e fotografei caminhões saindo do assentamento carregados de toras de castanheiras."
De acordo com Graziano, os índices de produtividade nos assentamentos são pífios. "No Pontal do Paranapanema, a média da produção de milho nos assentamentos é de mil quilos por hectare - volume abaixo de qualquer consideração crítica."
Muitas vezes a produção não garante a subsistência das famílias. Daí dizer que parte delas vive em condições piores que a de favelados, contrariando a tese do Movimento dos Sem-Terra (MST) de que a situação dos assentados é sempre melhor que as dos desempregados das cidades, pois têm o que comer.
Pastos - O livro não dará ênfase a estatísticas.
Mas o autor cita números que impressionam. Estima que a vida de 30% das pessoas piorou depois que foram assentadas e que 35% dos assentados deixam o lote depois de certo tempo.
Entre os que permanecem, muitos alugam o lote para terceiros. Graziano disse ter ficado impressionado com a situação de um assentamento na Fazenda Macaxeira, no Pará, que se transformou quase completamente numa pastagem.
"Encontrei um fazendeiro que mantém duas mil cabeças de gado em terras de assentados."
O custo da reforma agrária é alto, segundo o autor, especialmente quando comparado com outros programas sociais. "A média do investimento por assentado é de R$ 50 mil. Uma franquia de pão de queijo para cada um desses desempregados sairia mais barato. Imagine um programa Bolsa-Família com desembolso de R$ 200 por mês. Em um ano seriam R$ 2.400. Do jeito que está não dá: gasta-se R$ 50 mil para assentar pessoas que abandonam a terra."
Segundo Graziano, em vez de levar gente para a zona rural, seria mais inteligente usar o dinheiro para evitar que as pessoas que já vivem lá saiam e venham para a cidade agravar os problemas urbanos.
Filhos de assentados buscam outra vida Mesmo em casos de sucesso, é cada vez mais difícil manter continuidade nos lotes
JOSÉ MARIA TOMAZELA Enviado especial
IPERÓ - Em quase 12 anos de trabalho no lote de 8 hectares que recebeu do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), na Fazenda Ipanema, em Iperó, região de Sorocaba, o assentado Carlos Aparecido Dellai, de 44 anos, conseguiu juntar um patrimônio que dificilmente obteria na sua antiga profissão de motorista. Além da casa de madeira construída no lote, ele tem um caminhão, um trator, uma perua Parati ano 89 e dezenas de implementos agrícolas. Tem ainda, guardado, o dinheiro para levantar uma casa de alvenaria. Mesmo assim Dellai, apontado como o mais bem-sucedido entre os 362 assentados da fazenda, teme o futuro. Os três filhos que criou com o trabalho na terra não querem continuar na roça.
A filha Ariane Dellai, de 21 anos, passou para o segundo ano do curso de Comunicação Social da Universidade de Sorocaba, uma escola particular, e quer dedicar-se à propaganda. Rodrigo, de 18 anos, está terminando o segundo grau e já definiu: no sítio não fica. O caçula William, de 15, também no segundo grau, quer ser arqueólogo.
Dellai, que nesse tempo todo tocou o pequeno sítio com a ajuda da mulher, Aparecida Amâncio, de 46 anos, e dos filhos, tem sido obrigado a recorrer, eventualmente, a mão-de-obra de fora. "Na época de colheita eles me ajudam", diz o pai. "Mas fazem reclamando", completa a mãe. Na sexta-feira, o casal trabalhava sozinho no lote onde cultiva maracujá, abobrinha, milho verde e frutas como manga, goiaba e figo.
Os dois filhos estavam em Iperó, cidade mais próxima. Ariane tinha ido fazer compras em Sorocaba. É cada vez mais difícil segurá-los no lote. "Quem disse que filho de lavrador tem de ser lavrador?", questiona Dellai. Ele bem que gostaria que pelo menos um dos filhos ficasse no sítio para continuar o trabalho. "Converso muito com eles, explico que às vezes é melhor plantar abobrinha aqui, com liberdade, do que estar descontente num emprego da cidade, mas a juventude é isso."
Pedreiro - Dellai espera que os filhos, mais tarde, mudem de idéia. Seu pai também era agricultor, mas um dia vendeu o sítio, na região de Leme, e foi trabalhar de pedreiro. "Ele se tornou um dos melhores pedreiros na cidade e queria que eu também fosse, mas a minha vocação estava na terra." Dellai fez parte do grupo de 700 pessoas que, em maio de 1992, sob o comando do Movimento dos Sem-Terra (MST) invadiu a Fazenda Ipanema, pertencente ao Ministério da Agricultura.
Enquanto a maioria plantava arroz, feijão e milho, ele optou pelas frutas e legumes. Passou a abastecer feiras livres, varejões e o Ceasa de Sorocaba.
Como a estrutura do entreposto era muito cara, uniu-se a outros pequenos produtores para criar o Ceagro, um entreposto agrícola cooperado, em Votorantim. Quando vê a difícil situação de outros agricultores, o assentado dá razão aos filhos. "O pequeno produtor está ficando inviável", reclama.
"Há 8 anos eu pagava R$ 130 a tonelada de adubo que hoje está a R$ 750 e o saco de semente de milho verde subiu de R$ 27 para R$ 180, mas os preços desses produtos não subiram."
Vizinho - O assentado conta que o filho mais novo queria que a família se mudasse para a cidade. "Ele quer que eu construa a nova casa em Sorocaba." Dellai sabe que, se sair, perde o lote e todo o investimento que fez, quase sempre com financiamento do governo. Foi o que aconteceu no lote vizinho. O assentado Paulo Xavier não resistiu à pressão dos familiares. Acabou brigando com a mulher, que foi embora. No ano passado, ele largou tudo o que fizera em dez anos e voltou para sua terra natal, na Bahia. Nesse período, recebera do governo, em financiamentos, R$ 12 mil para investimentos e cerca de R$ 20 mil para custeio. Xavier foi embora sem quitar a dívida. O lote vago foi transferido para o sem-terra Maurilo Campos, de 49 anos. "Estava na fila há 9 anos", diz Campos.
Ele transferiu-se para a casa de tábuas abandonada por Xavier com a mulher Eunice, de 42 anos, a filha Simone, de 18, e a netinha Nicole, de 1. O filho mais velho, Saulo, de 21 anos, está empregado em Campinas. Campos vai retomar a construção de uma casa de alvenaria que o ex-assentado deixou nas paredes, em ponto de laje. A obra recebeu R$ 2 mil do governo federal.
Antes, ele quer recuperar o solo, que ficou exaurido. Para comprar adubos, espera um financiamento do Pronaf 1, programa de apoio à agricultura familiar específico para os assentados.
OESP, 7/12/2003, p. A10
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