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Reflorestar é bom investimento

O Globo, Opinião, p. 15
Autor: MARIANI, Bruno
23 de Out de 2017

Reflorestar é bom investimento
O cultivo de florestas plantadas com espécies nativas pode posicionar o Brasil entre os grandes produtores mundiais de madeira de reflorestamento

BRUNO MARIANI

Agrande evolução do acordo global do clima de 2015 foi reconhecer que o reflorestamento em grande escala é essencial e uma das melhores relações custo-benefício para reduzir a concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Compromissos de reflorestamento ao redor do mundo chegam a 350 milhões de hectares até 2030, incluindo o Desafio de Bonn e a Declaração de Florestas da Cúpula do Clima de Nova York. E o Brasil se comprometeu a reflorestar 12 milhões de hectares.
Por sua localização tropical, nosso país tem natural vantagem competitiva, devido à maior velocidade no crescimento das árvores. Nesse contexto, pode se tornar protagonista na produção sustentável de madeira de reflorestamento.
Como as árvores ajudam o clima? Uma árvore adulta, com uma copa de 20 metros de diâmetro, irriga a atmosfera com mais de mil litros d'água por dia. A Amazônia, sozinha, produz 20 bilhões de litros diariamente, formando os chamados "rios voadores", que transportam chuva para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
São também da Amazônia as cerca de seis milhões de toneladas de madeira consumida por ano no Brasil, ainda seguindo o mesmo modelo extrativista do século XVI, responsável pela destruição quase total da Mata Atlântica. O mercado mundial de madeira movimenta mais de 500 milhões de toneladas anuais, mas a participação brasileira ainda é irrisória - pouco mais de 400 mil toneladas por ano, pois o comércio internacional restringe madeira de florestas naturais.
Renovável e carbono neutro, a produção de uma tonelada de madeira retira em média meia tonelada de gases de efeito estufa (GEE) da atmosfera, enquanto a produção de uma tonelada de aço emite quase duas toneladas de GEE e a produção de uma tonelada de concreto emite outra tonelada desses gases. O uso de madeira tem crescido no Hemisfério Norte com o desenvolvimento de novos materiais compostos, como o glulam, placas coladas de alta resistência e à prova de fogo usadas em estruturas de casas e prédios.
O cultivo de florestas plantadas com espécies nativas pode posicionar o Brasil entre os grandes produtores mundiais de madeira de reflorestamento, recuperando áreas degradadas, proporcionando o retorno da fauna e melhorando a conectividade da paisagem, da conservação do solo e da água.
Estudo recente, publicado por Daniel Piotto, Dylan Craven, Florencia Montagnini e Federico Alice, com base em dados de 16 anos de pesquisa em áreas tropicais, confirma que uma floresta plantada com objetivos comerciais, mas com múltiplas espécies, desenvolve-se melhor, mais rapidamente e com maior resiliência a eventos climáticos do que plantios monoculturais.
As florestas são essenciais para o nosso futuro.

Bruno Mariani é diretor-executivo da Symbiosis Investimentos e ex-presidente do Funbio

O Globo, 23/10/2017, Opinião, p. 15

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