O Globo, Sociedade, p. 29
17 de Set de 2015
Reduzir o desmatamento salva vidas, diz pesquisa
Estudo afirma que freio na destruição amazônica evitou 1.700 mortes no país
Ana Lucia Azevedo
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A árvore que arde em chamas na Amazônia toca o seu coração. Mesmo que a causa ambiental não esteja em seus pensamentos, ela está dentro de você. A poluição das queimadas viaja pela atmosfera por milhares de quilômetros e se despeja por toda a América do Sul. Não só o temido CO2, vilão do clima, mas principalmente material particulado, mais conhecido como fuligem ou carbono negro. Ele é tão fino que penetra alvéolos do pulmão e segue seu caminho corpo adentro pelo sangue, diretamente das cinzas da floresta até o cidadão dos centros industriais, como mostra um estudo que mediu o impacto do desmatamento na saúde em dimensões continentais.
A pesquisa revela que ao se poupar árvores, vidas humanas são salvas. A redução do desmatamento no período de 2013 a 2014 salvou 1.700 vidas, principalmente no Sudeste do Brasil, devido à queda da poluição por queimadas, segundo o estudo.
Realizada pelo físico da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo e por cientistas das universidades inglesas de Leeds e de Manchester, a pesquisa é pioneira ao destacar que diminuir o desmatamento significa evitar mortes precoces por doenças cardiovasculares e insuficiência pulmonar.
REGIÃO SUDESTE É MAIS AFETADA
Pelas contas dos pesquisadores, a redução do desmatamento da Amazônia de 27 mil km² entre 2003 e 2004 para cerca de 5 mil km² entre 2013 e 2014 levou a uma queda de 70% na emissão de gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos.
Artaxo explica que o Sudeste é mais afetado pelas consequências da poluição amazônica devido à densidade populacional. A atmosfera, salienta ele, não conhece fronteiras nem distâncias.
- A atmosfera é um sistema único, integrado. Os mesmos jatos de vento que distribuem umidade e chuva, tão bem-vindos e necessários, carregam a fumaça das queimadas pelo continente - destaca Artaxo, um dos mais renomados especialistas na química da Amazônia do mundo.
Com seus 25 milhões de habitantes, a Grande São Paulo é a mais prejudicada. Mas, acrescenta Artaxo, metrópoles como o Rio também são atingidas. Na pesquisa publicada na revista "Nature Geoscience", Artaxo e seus colegas traçaram a longa viagem da fumaça das queimadas pela América do Sul.
Rastrearam a poluição com satélites e sensores em terra - do programa de Grande Escala da Biosfera e Atmosfera da Amazônia. Depois, cruzaram esses dados com informações como a projeção de dispersão de poluentes e a incidência de doenças associadas a eles. Modelos matemáticos projetaram a concentração de poluentes em níveis normais e nos períodos de queimada.
A poluição por particulados sabidamente mata, principalmente pelo agravamento de males cardiovasculares e insuficiência respiratória preexistentes. Ao entrar nos alvéolos, a fuligem chega ao sangue e complica a vida de quem já sofre doenças de coração e pulmões. Esses problemas são frequentes em lugares poluídos. A pesquisa mostrou que o desmatamento por queimadas agrava o que já é ruim.
Localmente, a poluição das queimadas é absurda. Em cidades como Alta Floresta, no chamado Arco do Desmatamento, por exemplo, a concentração de particulados durante as queimadas chega a ser cinco vezes maior do que a registrada em São Paulo.
- E essa poluição viaja muito. Mais de três mil quilômetros da selva às metrópoles do Sudeste. Cada molécula que você respira já foi respirada antes em outros lugares do mundo - diz o cientista.
Artaxo espera ver as consequências do desmatamento para a saúde na pauta da próxima Conferência do Clima, em dezembro, em Paris.
- O CO2 continua tão vilão do clima quanto antes. Mas as emissões precisam ser combatidas não apenas pelo clima, mas pela saúde - frisa.
IMPACTO DO CO2
A fumaça gerada pela queima de milhões de árvores é composta por dióxido de carbono (CO2) e monóxido de carbono, ozônio, metano, particulados e óxidos nítricos, entre outros. Para a saúde humana, os particulados, como o carbono negro, são os mais nocivos. Eles permanecem por duas a três semanas na atmosfera. Tempo suficiente para causar estragos na saúde continente afora.
O impacto do CO2 sobre o clima é muito mais prolongado. Esse gás pode permanecer de cem anos a três mil anos na atmosfera. Cerca de 40% do CO2 emitido hoje estarão na atmosfera nos próximos dois mil anos.
O Globo, 17/09/2015, Sociedade, p. 29
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