O Globo, Amanhã, p. 20-21
09 de Out de 2012
Recursos do bem
Nem filantropia, nem caridade. Nova classe de ativos financeiros tem potencial para movimentar US$ 1 trilhão pelo mundo e a meta é reduzir pobreza e impactos ambientais
João Sorima Neto
joao.sorima@sp.oglobo.com.br
Brasil começa a entrar na rota de um novo tipo de capital que busca oportunidades de negócio pelo mundo e está sendo classificado de 'private equity do bem'. O dinheiro vem de fundos de investimento interessados em obter algo mais do que apenas retorno financeiro. As empresas que recebem esses recursos devem causar algum tipo de mudança social ao seu redor, reduzindo a pobreza ou provocando um resultado ambiental positivo. Essa nova classe de ativos de risco é chamada de investimento de impacto e, até 2020, o setor tem potencial para movimentar US$ 1 trilhão, segundo um estudo do banco americano JPMorgan. Desse total, só de lucros seriam mais de US$ 660 bilhões, provenientes de projetos nas áreas de habitação, saúde, educação, serviços financeiros e saneamento.
- Não é filantropia. Não é caridade. Os investidores de impacto procuram ativos (negócios), que podem ser uma empresa iniciante ou uma Organização Não Governamental (ONG), capazes de gerar lucro, mas que, ao mesmo tempo, melhorem a desigualdade de renda no país e reduzam a pobreza. O Brasil, ao lado da Índia, está sendo considerado um celeiro para este tipo de investimento - diz Paula Jancso Fabiani, diretora executiva do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).
Hoje há cerca de 128 fundos de impacto no mundo garimpando oportunidades de negócios.O maior deles, o Bamboo Finance, com mais de US$ 250 milhões já investidos, está de olho no Brasil. O Bamboo já tem um investimento no país, em parceria com a Vox - a primeira empresa brasileira de capital de risco voltada ao investimento de impacto -, em uma construtora de casas para população de baixa renda. Mas o Bamboo está procurando novas oportunidades no país e pediu a ajuda do Idis para encontrá-las. A própria Vox, que foi fundada há três anos, já fez outros cinco investimentos deste tipo no Brasil, em valores que começam em R$ 1 milhão e podem chegar a R$ 10 milhões.
- São empresas em estágio inicial de desenvolvimento que servem à população de baixa renda. É um investimento de risco e o prazo estimado do retorno financeiro é de cinco a sete anos. Ainda não existe um histórico de rentabilidade desses fundos no mundo, já que são recentes. Não temos a ilusão de acabar com a pobreza, mas melhorar as oportunidades de acesso a saúde, educação e emprego - diz Antonio Moraes Neto, herdeiro do empresário Antonio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, e um dos fundadores da Vox, que recebeu cerca de 600 portfólios de empresas interessadas em um aporte de capital, desde 2009, e selecionou seis.
Segundo um relatório da Fundação Rockfeller, que tem como um de seus objetivos estimular esse tipo de ação, o retorno financeiro do investimento de impacto pode variar de zero a 25%. Mas é apenas uma estimativa, já que muitos negócios ainda nem tiveram tempo de amadurecer. Medir o impacto social causado por eles também é uma tarefa complicada. Por isso, já começam a surgir modelos, como o IRIS (Impact Reporting Investing System) e o GIIRS (Global Impact Investing Rating System), que ajudam nesse objetivo.
- Somos sócios de uma empresa chamada Balcãodenegócios.com, que ajuda a buscar colocação profissional para pessoas das classes C,D e E. Já encaminhamos mais de 500 mil currículos. Se 10% deles se transformaram em contratações, então temos um impacto positivo de criar 50 mil novas vagas - diz Antonio Neto, mostrando uma das formas de medir o impacto social provocado por esse novo tipo de capital.
Para se ter uma ideia do que se espera do investimento de impacto, basta dar uma olhada nos outros negócios selecionados pela Vox. Entre eles, está o Banco Pérola, localizado na cidade de Sorocaba, distante cerca de 95 quilômetros de São Paulo. O banco foi fundado por Alessandra França, Adriene Marins e ganhou recentemente um novo sócio, o economista Nicolau Jorge Neto. O Pérola empresta capital a empreendedores da região, que faturam em média R$ 4 mil por mês. É gente que não encontra crédito nos bancos tradicionais e não tem como expandir o negócio. O Pérola já tem 400 clientes e emprestou até agora R$ 600 mil.
- Muitas vezes são pai e filho que abrem um negócio na periferia da cidade, mas não têm como expandi-lo, porque o acesso ao crédito é limitado. Temos três agentes que vão atrás desse perfil de empreendedor e, além de oferecer o capital, garantimos uma assessoria para que o negócio dê certo. Dos empréstimos que fizemos até agora, 98% deles tiveram sucesso - explica Nicolau Jorge.
A Plano CDE, da antropóloga Luciana Aguiar e do demógrafo Harolso Torres, é outra aposta da Vox. A empresa é especializada em vasculhar os hábitos das classes C, D e E. Mapeia possíveis negócios de inclusão financeira, identifica oportunidades para empresas, olhando sempre que impactos social e ambiental o projeto terá condições de gerar.
O Globo, 09/10/2012, Amanhã, p. 20-21
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