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Recurso do G-7 deveria estruturar agências que enfrentam incêndios na Amazônia, diz especialista

OESP - https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral
26 de jul de 2019

Recurso do G-7 deveria estruturar agências que enfrentam incêndios na Amazônia, diz especialista
Oficial dos bombeiros mato-grossense destaca necessidade de um sistema para acelerar o combate a chamas

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo
26 de agosto de 2019 | 19h03
Atualizado 27 de agosto de 2019 | 11h27

SÃO PAULO - Há 30 anos no trabalho de combate a incêndios florestais do Mato Grosso, o coronel do Corpo de Bombeiros mato-grossense Paulo Barroso, engenheiro florestal e ex-comandante do Batalhão de Emergências Ambientais (BAE) do estado, afirma que os recursos anunciados nesta segunda-feira, 26, pelo G-7 para o enfrentamento dos incêndios nas região da Amazônia, deveriam ser usados não para o combate ao fogo imediato, mas sim para ações de prevenção para evitar a repetição desses danos no ano que vem.

"Este não é o melhor caminho, o ideal é trabalhar antecipadamente. Planejar uma estruturação que estabeleça um sistema de proteção contra incêndios florestais para toda a amazônia legal integrando todos os atores deste cenário: agencias federais, estaduais, municipais, entidades de classes, empresas privadas de grande porte, índios, comunidades tradicionais, bombeiros militares, estabelecimentos de ensino e pesquisa, ONGs e a população. Devemos refletir porque isto está acontecendo e iniciar os trabalhos para o ano que vem. Infelizmente este ano está perdido.", diz o especialista, que é secretário executivo do Comitê Estadual de Gestão do Fogo do Mato Grosso.

Barroso diz que devido a grande incidência alguns incêndios em plantações e áreas de mata adquirem proporções tão grandes que são incontroláveis. Daí faz-se necessário um volume alto de recursos para o combate. E esta não é a situação ideal. A sugestão é criar um observatório técnico independente que reúna os especialistas para que discutam o tema sob vários aspectos e proponha solução viáveis para este problema.

O G-7 é o grupo que reúne os sete países mais ricos do mundo, que debateu os incêndios na Amazônia após manifestações na semana passada iniciadas pelo presidente da França, Emmanuel Macron. A iniciativa resultou em uma série de ataques do presidente Jair Bolsonaro ao colega francês. Ao citar uma transferência de US$ 20 milhões (cerca de R$ 87 milhões) para combater as chamas, Macron disse que os recursos serviriam para pagar aviões para combater os incêndios.

Paulo Barroso destaca que um dos problemas do fogo na Amazônia é a falta de estrutura para os Corpos de Bombeiros Militares para dar trabalhar todas as etapas do ciclo de incêndio florestal: prevenção, preparação, resposta e responsabilização. Destinar recursos somente para a resposta não é a melhor escolha já que as ações de combate às chamas são caríssimas. O acesso às regiões demanda dispêndios altos com combustível para helicópteros, e o número de pessoal a ser empregado nas ações também é elevado. "Cada incêndio é um incêndio. Depende de inúmeras variáveis: umidade, temperatura, disposição, tipo e quantidade de biomassa, inclinação do terreno, enfim uma série de fatores", explica o militar.

Incêndios
Bombeiros do Mato Grosso sobrevoam fazenda em chamas em Sorriso, interior do Estado Foto: Corpo de Bombeiros do Mato Grosso
Os incêndios mais recentes se tratam de fogo em áreas que já foram desmatadas e, depois, queimadas. Em pontos assim, uma das ações mais eficientes para evitar que as chamas se propaguem para florestas fechadas é a abertura, às pressas, de um aceiro (a abertura de uma pequena clareira na mata) de cerca de um metro de largura. Isto serve para evitar que as chamas se propaguem. Com o fogo fazendo linhas de quilômetros de extensão e em áreas onde máquinas não chegam, é preciso milhares de pessoas para limpar essas faixas de terreno e evitar que o fogo siga consumindo o que tem que ser protegido, a floresta. Os especialistas da área destacam que novas tecnologias para enfrentar o fogo precisaram ser desenvolvidas, e ressaltam necessidade de recursos para pesquisas.

"Depois de uma determinada dimensão, você não consegue combater um incêndio. Fica inviável economicamente. Muitas vezes o que se faz é proteger, da frente do incêndio, as vidas e patrimônio, quais sejam as áreas de relevante interesse ecológico e as edificações. Não é deixar queimar, mas quando um incêndio forma uma grande frente torna-se muito desgastante o combate", afirma o coronel.

É por isso, diz Barroso, que ao termino desta temporada o mais inteligente será investir recursos para deixar o País preparado para o ano que vem. Citando dados que ele afirma ter compilado em 2017, o coronel mato-grossense diz que, naquele ano, os Estados Unidos haviam investiu para enfrentamento dos incêndios florestais R$ 1.959,00 para proteger cada quilômetro quadrado do seu território. Portugal investiu R$ 1.626,00 por quilômetro quadrado. "E o Brasil, apenas R$ 6,16 por quilômetro quadrado", diz.

Sistemas de proteção contra incêndios inclui a estruturação de uma série de sistemas específicos que proporcione vigilância e detecção, acesso a toda a área a ser protegida, compartimentações por talhões, distribuição de mananciais, equipes de combate, proteção a edificações e plano de redução da biomassa.

O militar, que é ainda presidente do Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais da Liga Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil, destaca que a Amazônia possui 778 municípios, mas que apenas 110 deles têm unidades de Corpo de Bombeiros estruturada para uma área superior a 5.5 milhões km2. "Somos 10,4 mil homens que conhecem as técnicas para enfrentar os incêndios nesta região do pais, no entanto não estamos devidamente equipados para atuar em eventos desta natureza".

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